Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.08.2010 20.08.2010

Loucas de amor, mulheres que amam serial killers

Por Bruno Dorigatti
Quadrinhos de Fido Nesti

 

Francisco de Assis Pereira, que ficou conhecido como o Maníaco do Parque, depois de assassinar dez garotas e violentar outras onze no Parque do Estado, em São Paulo, chegou a receber em torno de mil cartas por mês no presídio onde cumpre pena. Eram de mulheres interessadas em conhecê-lo, regenerá-lo e “curá-lo”. Novas, de meia idade, algumas já passando dos 50 anos. Muitas das cartas iam com presentes, flores, calcinhas, tudo que estivesse ao alcance delas para seduzir a pobre alma que precisava ser regenerada. Poucos podem se dar conta, mas esse tipo de assédio é bastante comum. O amor por pessoas que cometeram crimes mais que repugnantes, que envolvem violência sexual, estupros e morte não é algo desprezível, seja aqui no Brasil ou no mundo. Infelizmente, é algo tão comum e corriqueiro como abominável. E triste. 

Mas o que leva algumas mulheres a se interessarem por alguém condenado por estupro, violência e assassinato contra outras mulheres? A essa e outras perguntas que tentam racionalizar atitude tão irracional, o jornalista e roteirista Gilmar Rodrigues foi buscar as respostas com as próprias mulheres e com os criminosos. “Logo descobri que essas mulheres não são loucas no sentido psíquico, com problemas mentais, mas com problemas na formação das emoções. Se fossem simplesmente loucas varridas não seria um fenômeno digno de um estudo social, e sim particular”, diz Rodrigues nesta entrevista ao SaraivaConteúdo

O resultado é a reportagem Loucas de amor, mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais, publicada em 2009, pela editora gaúcha Idéias a Granel e que ganhou uma versão em quadrinhos, no traço do quadrinista Fido Nesti. Na verdade, a primeira edição do livro já contava com quatro histórias em quadrinhos que trazem os bastidores da pesquisa de Rodrigues por delegacias e presídios em busca de depoimentos de condenados pelo “artigo”, como os próprios presos se referem ao artigo 214, que trata de crimes que envolvem violência sexual. Além disso, o jornalista fez incursões pelas periferias, onde mora a maioria das mulheres que se envolvem com os criminosos, e acompanhou filas em dia de visita, como na Penitenciária de Itaí, no interior de São Paulo, conhecida por reunir criminosos sexuais. 

Em Loucas de amor em quadrinhos (Idéias a Granel, 2009), Nesti desenhou algumas histórias narradas pelo jornalista, como o caso de Rosa, casada com um fazendeiro, que, depois de ser descoberta traindo o marido, abandonou a família e começou a se envolver com os “caras errados”, como ela mesma diz. Apanhou de homem, se envolveu com o crack, mas conseguiu arranjar um emprego na Penitenciária de Itaí. Lá, ela conheceu Laércio, eles se envolveram, mas o relacionamento foi descoberto pela direção. Rosa então, ao invés de abandoná-lo, prefere largar o emprego para continuar com seu amante, que começa a revelar seu lado violento nas visitas íntimas, dentro da cadeia. Outra história, presente em Loucas de amor e quadrinizadas por Nesti, aborda os Jacks [confira esta história abaixo, que continua ao final do texto], como são conhecidos os estupradores, e sua situação em delegacias na cidade de São Paulo. A quase totalidade deles alega inocência, conta histórias tortuosas de como foram parar na cadeia por algo que não cometeram. Há ainda casos como o do anão de Ananindeua, que enganava as mulheres prometendo-lhes abrir seus chacras e liberá-las da energia negativa e acabava abusando sexualmente das pacientes. Ou do famoso Bandido da Luz Vermelha, único preso no país a cumprir 30 anos em regime fechado. E morto seis meses após ter sido solto, em Joinville, Santa Catarina. Uma reportagem competente e corajosa, que exige o trabalho de circular, ir atrás destes personagens, se embrenhar em locais muitas vezes esquecidos pela reportagem. Mas é a tristeza o sentimento que permeia a leitura do livro, ao se deparar com estas histórias destas mulheres. A seguir, em entrevista concedida por e-mail, Gilmar Rodrigues fala mais sobre o livro, a pesquisa e comenta a opção por narrar estas histórias também em quadrinhos.
 

Por que decidiu investigar as mulheres que se envolvem com serial killers e estupradores?

Gilmar Rodrigues. Fiquei muito impressionado com a notícia de que o Maníaco do Parque recebia centenas de cartas de mulheres apaixonadas por ele. Isso aconteceu nos primeiros anos de prisão do assassino, que foi preso em 1998. Quando li isso não acreditei, achava que, quem houvesse cometido esse tipo de crime era execrado pela totalidade das mulheres. Não conseguia entender como e o porquê dessa atração, logo por alguém que, especificamente, havia cometido pelo menos 20 crimes entre estupros, abuso sexual e assassinato, todos em MULHERES (!). Aliás, escolhi dirigir a pesquisa para mulheres interessadas em serial killers e criminosos sexuais porque esses, diferentemente de assaltantes ou traficantes (o dito bandido comum) são uma ameaça específica às mulheres. Isso confere mais gravidade a esse tipo de atração romântica, amorosa ou sexual. Logo descobri que essas mulheres não são loucas no sentido psíquico, com problemas mentais, mas com problemas na formação das emoções. Se fossem simplesmente loucas varridas não seria um fenômeno digno de um estudo social, e sim particular. Descoberto que havia muitas mulheres que se relacionavam com estupradores e assassinos em série e que não eram loucas (no sentido popularmente consagrado) vi que tinha um assunto bastante amplo pela frente e muito interessante. 

Como foi a pesquisa? Correu algum risco, encarou algum situação mais delicada? O que presenciou de mais absurdo ou inacreditável? 

Gilmar Rodrigues. Fiz toda a pesquisa por minha própria conta, sem apoio público ou privado, saiu tudo do meu bolso. Foi bastante trabalhosa, seguidas viagens pelo interior de São Paulo e Santa Catarina, por volta de 100 entrevistas e uma burocracia enjoada pra poder entrevistar os presos. Também escrevi umas 20 cartas para as algumas mulheres tentando encontrá-las. Só uma me respondeu.  Além disso, encontrei algumas  resistência de pessoas que se recusaram a dar entrevistas, mas isso até que foi pouco. Outros jornalistas tentaram entrevistar uma mesma pessoa que eu, enquanto comigo essa mulher apenas negou a entrevista, em dois outros casos (pelo menos) os repórteres foram enxotados à vassouradas. Não corri nenhum risco, não. Em uma entrevista fiquei sozinho num “cadeião” com dois presos soltos no corredor, sem nenhum agente penitenciário por perto. Isso poderia parecer perigoso, mas quando os presos concordam em falar está implícito que a entrevista vai correr normalmente e que eles garantem a sua segurança. Numa das histórias em quadrinhos eu brinco com a situação de medo de entrar numa cadeia, mas é só uma brincadeira com o folclore de que quem vai preso (ou feito refém) acaba sendo estuprado pelos outros presos. Não tive esse medo [risos]. O mais inacreditável é o caso da esposa, agora ex-esposa, do Maníaco do Parque, que o conheceu pela TV. As mulheres chegavam a brigar com o Francisco (Maníaco) por ciúme das outras (as “rivais”) que também escreviam. 

Qual(is) o(s) ponto(s) em comum que estas mulheres têm?

Gilmar Rodrigues. Baixa autoestima, carência afetiva, história emocional traumática: geralmente nunca tiveram muito carinho, atenção ou amor dos pais, namorados ou maridos, isso gera relacionamentos complicados, quase doentios.  E infantilismo psíquico. As cartas e a paixão romântica que desenvolvem pelo assassino parecem uma paixão de uma menina de 13 anos. Ainda no caso do infantilismo, elas se sentem como uma Julieta desafiando a sociedade em luta por seu amor “impossível”. É como Romeu e Julieta desafiando os pais (no caso delas, os pais são a sociedade que condena esse amor). Quanto mais sanguinário o assassino maior é a visão romântica da mulher. Pois só romantizando e fantasiando muito é que elas conseguem transformar criminosos bárbaro em mestres espirituais (assim algumas se referem ao Maníaco do Parque), por exemplo. 

Por que a opção para contar estas histórias também em quadrinhos?

Gilmar Rodrigues. Há algum tempo eu estou envolvido com quadrinhos, já editei uma revista de HQ, acho uma grande alternativa de expressão visual, irreverente, livre… Coletei durante as pesquisas algumas histórias interessantes e algumas curiosidades que achei que deveriam ser contadas ao leitor, são fatos que seriam inoportunos serem descritos no texto do Loucas de Amor, porque são experiências pessoais que formam histórias menores do que as histórias das mulheres do livro. Os quadrinhos acabaram dando uma leveza maior pro livro, serve pro leitor dar uma “respirada”, se divertir um pouco dentro de um assunto tão pesado. 

Recentemente, um caso envolvendo um crime hediondo ganhou destaque na mídia, só que desta vez com uma pessoa conhecida, Bruno, ex-goleiro do Flamengo. Assim que chegou ao presídio, em Belo Horizonte, ele estaria sendo disputado pelos times dos internos, e teria havido confusão de famílias de outros presos, que queriam autógrafos, fotos com o acusado de ser o mandante do assassinato da amante. O que poderia justificar tamanho assédio a alguém acusado de crimes tão cruéis?

Gilmar Rodrigues. Esse caso do Bruno é interessante (para pesquisa, claro) porque ele deve atrair muitas mulheres. Não me lembro de nenhum caso de alguém tão famoso no Brasil que tenha (muito provavelmente) cometido um crime cruel contra uma mulher. Veja, o Maníaco do Parque ou o Bandido da Luz Vermelha ficaram célebres por seus crimes, o Bruno já era célebre e ganhou mais notoriedade agora, então imagine o sucesso que ele deve estar fazendo. Esse cidadão é certamente um perigo pra qualquer mulher que se envolva com ele (aja visto outros incidentes envolvendo o atleta: denúncias e confusões que ele se meteu, violência contra a mulher…), apesar disso já é fonte de atração feminina. Não é difícil de explicar isso: pegue uma mulher desconhecida, que em geral nunca teve um amor verdadeiro no mundo, nunca teve quem lhe desse atenção, o mundo não olha pra ela, as vezes até despreza. Aí ela encontra um cara como Bruno – para essa mulher, é uma grande vantagem se ligar a um cara como ele, rico, famoso… Ela se transforma em algo na vida, ela que era quase nada, vira A mulher do Bruno. Que outra chance ela teria de “ser alguém”? Acho que é por aí. Por exemplo, uma das mulheres que se envolveram com o Maníaco do Parque, quando o viu pela primeira vez, já na prisão, ficou nervosa diante dele, descreveu a sua sensação naquele momento como “se estivesse na frente de um galã de novela”. 

  

  

 

> Confira o trecho inicial de Loucas por amor em quadrinhos (Idéias a Granel, 2009), de  Gilmar Rodrigues e Fido Nesti

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