Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 26.11.2010 26.11.2010

Lope, novo longa de Andrucha Waddington

 

Por Bruno Dorigatti 
Fotos de Teresa Isasi / divulgação

 

Era tarde de entrevistas sobre o seu novo filme, Lope, focado na vida do famoso poeta espanhol Lope de Vega, na sede da Conspiração Filmes, em Botafogo, Rio de Janeiro, onde Andrucha Waddington é um dos sócios. Fumante inveterado, ele dá duas profundas tragadas antes de começarmos a conversa. Avisado de que poderia continuar fumando, ele diz: “Não, tô na boa. Costumo fumar só um terço do cigarro”. Magro, a barba curta e o cabelo começando a ficar grisalho, Andrucha tem a voz rouca e demonstra simpatia. E logo começa a falar sobre seu novo filme, primeira coprodução internacional que dirige.

O projeto teve início em 2005, quando o diretor fez uma sessão de Casa de areia (2005), no escritório da Columbia, produtora do filme, em Madri, Espanha. Os direitos de Lope pertenciam a Columbia e o roteirista Jordi Gasull trabalhava lá, assim como Iona de Macedo, produtora executiva do filme. “Eles me mandaram o roteiro, e adorei. Achei que tinha uma pegada contemporânea, por estar se falando da fundação de um artista, tinha história de amor, é um jovem virando adulto, acreditando no seu sonho. Isso era uma temática muito contemporânea, que me interessava, usar um personagem de época para falar de uma coisa atual”, diz Andrucha.

Lope de Vega é considerado um dos principais nomes da poesia e do teatro espanhol. Contemporâneo de Cervantes, por quem era invejado e o definiu como o 'Monstro da Natureza', Lope produziu de forma absurda, tendo deixado em torno de 4 mil poemas. Sem falar na revolução que causou no teatro, ao misturar trágico e cômico, dividir a obra em três atos (apresentação da trama, desenvolvimento e desenlace), desenvolver enredos paralelos, compor em versos e romper com as noções de tempo e lugar. Andrucha conhecia pouco de Lope e topou o desafio de se aprofundar e estudar o Século de Ouro, como era o teatro naquela época, as peças do dramaturgo, sua biografia, os poemas. “Foram quatro anos mergulhando neste universo.” Em 2006, a Columbia fechou o escritório de produção em Madri. Mas o roteirista, junto com um produtor que já estava no projeto, Edmon Roch, comprou os direitos e a Conspiração se associou. Em 2008, entraria a Antena3 Films.

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“Na poesia, ele tinha um dom com a palavra, fez mais de 4 mil poemas. Era um cara que escrevia como ninguém. E no teatro, foi o primeiro a juntar comédia e tragédia, fundou o teatro clássico espanhol, quebrando as regras que existiam até aquele momento. E fez isso antes de Shakespeare, que veio 20 anos depois. Só que Shakespeare morreu jovem, nasceu depois de Lope e morreu antes. O inglês foi muito influenciado por Lope, que teve a ousadia misturar gêneros. E ele tinha uma pegada muito popular”, conta o diretor.

Cervantes, considerado hoje o maior autor de todos os tempos na Espanha, morreu pobre, ninguém o conhecia. “E tinha uma coisa curiosa: Cervantes queria ter a habilidade que Lope tinha de falar com o povo, ser popular, e Lope queria ser erudito como Cervantes. Até tem uma piada sobre isso no filme, quando Lope corrige uma peça de Cervantes. Isso nunca aconteceu, é uma piada que botamos no filme”, explica.

E o fato de ser uma grande produção muda algo? “Cara, sabe que não. Engraçado, porque, quando o projeto foi crescendo, achei que isso seria uma questão, mas, na verdade, o que tem que estar pronto, tem que estar pronto. A diferença é que a preparação de um filme de época é muito maior, a quantidade de detalhes…” Na verdade, nada do que é de hoje serve. Uma reprodução de um prato de época em Madri custava 49 euros, por exemplo. E um artesão fazia estes mesmos pratos no Marrocos a 50 centavos. A produção do filme fez três contêineres de objetos de cena, que foram mandados do Marrocos para a Espanha para rodar o filme.

A arquitetura das ruas de Madri da época de Lope, o século XVI, não existe mais. O que foi preservado foram as cidades medievais. Madri, na época, não era uma cidade medieval, ela tinha uma arquitetura típica do Século de Ouro, que foi destruída, por conta da expansão imobiliária enorme. “Descobrimos essa cidade, Essaouira, no Marrocos, que foi um ponto de parada na Rota das Índias naquela época e tinha influência ibérica enorme na arquitetura de toda a Medina [região do Marrocos]. E isso foi mantido, essa região é exatamente como era há 500 anos. Então fizemos as ruas de Madri lá. E o porto de Lisboa foi filmado em Essaouira, e depois aplicamos a cidade por trás”, explica.

A formação de Lope

A vida de Lope de Vega é conhecida a partir do momento em que o filme acaba. Nas biografias do poeta e dramaturgo há poucos registros sobre a fase da vida dele que o filme aborda. Ele passou a ser conhecido quando foi exilado. “Foi uma opção por retratar um Lope desconhecido, mas sendo muito fiel ao que ele virou depois: um cara irreverente, mulherengo, absolutamente hábil com as palavras para conseguir o que queria, revolucionário no teatro.” O filme apresenta a fundação deste personagem quase mítico da cultura espanhola, do jovem que deseja seguir carreira no teatro, se envolve com a filha de um dos principais dramaturgos e, por não ser da mesma classe que ela, vai pagar um preço por isso, ao criticar e revelar a hipocrisia da sociedade daquela época. “É um assunto tão universal, o rito de passagem, onde você vira adulto, escolhe uma profissão, é reconhecido pelo seu trabalho, lida com os seus primeiros dilemas amorosos, se funda como homem, artista. Isso, para mim, era algo muito interessante”, acrescenta Andrucha.

Ao lançar o filme na Espanha, em meados do ano, o diretor falou com mais de 100 jornalistas e praticamente todos eles tinham uma questão: Porque um brasileiro dirigindo um filme sobre um dos mais importantes espanhóis? “Já estava respondendo com humor. O cinema americano importa diretores desde que criou a indústria [nos anos 1940]. Considero-me um contador de histórias. Se for fazer um filme no Ceará sobre padre Cícero, vou ter que estudar a vida dele. E ainda mais sendo uma língua que eu falo [o espanhol]. Se fosse um filme em japonês, talvez fosse mais difícil. E o Vicente Amorim acabou de fazer [o filme Corações sujos, inspirado no livro-reportagem de mesmo nome, de Fernando Morais, sobre os imigrantes japoneses durante II Guerra]. Falo espanhol, então para mim é mergulhar naquele mundo para poder falar com propriedade sobre ele. Era uma pauta boba, mas também natural. Não é normal aqui no Brasil você trazer um diretor de fora para contar uma história brasileira. Acho que talvez a única cultura cinematográfica mundial que tenha isso no DNA é o cinema americano. É natural que isso aconteça. O fato hoje de as coproduções serem a salvação do cinema independente vai fazer com que isso aconteça cada vez mais, e acho isso muito saudável”, prevê.

 

 

 

 

 

 

 

 

Inicialmente marcado para ser lançado nesse 26 de novembro, Lope, que já foi exibido uma série de festivais e mostras pelo país, teve sua estréia no Brasil adiada para o fevereiro de 2011.

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