Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.06.2009 19.06.2009

Loki, o filme

Por Cavi Borges
Foto de divulgação
Desde que Robert Flaherty realizou, em 1922, o primeiro documentário da historia cinematográfica – Nanook, o esquimó, numa perdida aldeia do norte canadense – e o termo foi cunhado nos principais dicionários franceses, este tipo de cinema cumpre o papel de registrar e perpetuar, ora a vida de famosos, ora a vida de ilustres desconhecidos. Contando e recontando passagens mais relevantes destes personagens, uns mais didaticamente, outros beirando a experimentação, o cinema documentário, no seu compromisso de explorar a realidade, é o gênero que mais nos tem surpreendido ultimamente pela capacidade de se superar a cada nova edição.
No caso especifico de Loki, de Paulo Henrique Fontenelle, ele veio para resgatar um dos nossos artistas mais instigantes, para não dizer fenomenal. Há muito não se via algo tão emocionante, arrebatador e definitivo no cinema brasileiro. Sobretudo se considerarmos que o excelente Simonal – Ninguém sabe o duro que eu dei foi lançado há menos de dois meses no circuito nacional. Mas, para compreendermos melhor o fenômeno Loki, precisamos antes recorrer ao conceito de catarse. Ou seja, o que experimentamos ao longo de quase duas horas nada mais é do que a purificação de nossas almas por intermédio de descargas emocionais provocadas por este senhor sessentão chamado Arnaldo Dias Baptista, músico fundador e integrante do extinto grupo de rock, Os Mutantes.
Como extrato audiovisual, esta cinebiografia – por si, um subgênero muito em voga nos tempos atuais –, não nos entra pelos olhos ou pelos ouvidos apenas, mas nos é injetado direto nas veias. Não assistimos ao filme de fora, com distanciamento crítico ou coisa que o valha, mas somos tragados pela estória, para dentro dela. Nossas memórias emotivas, afetivas e perceptivas afloram. Quando menos percebemos, tudo à nossa volta se volatiliza. Nossas referências passam a ser as referências pertinentes à película. Se o músico se droga no filme, nosso hálito logo se entorpece. Quando o perturbado e intergaláctico personagem Arnaldo Baptista se atira pela janela de um hospital psiquiátrico, fraturando sete costelas, além de dois edemas – um cerebral e outro pulmonar –, metade da platéia se joga com ele no fosso sem fundo da trágica condição humana. E com ele, todos nos ressuscitamos ao cabo de alguns meses/minutos, agora expurgados, regenerados, com o espírito e a mente novinhos em folha. Esta é a mágica do filme.
“Eu juro que é melhor não ser o normal.” Arnaldo Baptista
É da categoria do absurdo o que o jovem cineasta Paulo Henrique Fontenelle, (autor também do premiado curta-metragem Mauro Shampoo. Jogador, cabelereiro e homem), consegue com esse filme no plano do emocional. Nas primeiras sessões em que Loki foi exibido (no Cine Odeon BR, Festival do Rio, 2008), ninguém parecia querer deixar a sala de cinema. Aplausos. Muitos aplausos. Filme e personagem foram ovacionados por quase trinta minutos. Trinta minutos, repito. Ininterruptos! Naquela noite de outubro, no templo sagrado do cinema carioca, o já citado Odeon, estávamos todos meio que entorpecidos pelo gênio e o carisma de Arnaldo, como que arrebatados por uma estória tão bem destrinchada, contada de forma simples, direta, sem malabarismos ou pirotecnia na montagem; com narrativa cronológica, intercalando depoimentos, muito material raríssimo de arquivo (filmes e fotos) e cenas de shows recentes. Tudo regado com muita, muita música de primeira.
Que personagem é este nascido em São Paulo no remoto ano de 1948 e cuja mãe foi concertista e também a primeira mulher no mundo a escrever um concerto para piano e orquestra? Que personagem é este que antes de ingressar no meio acadêmico, onde estudou regência, canto orfeônico e teoria harmônica, já tinha estudado dança (balé clássico e moderno), violão, contrabaixo clássico e se aventurado no campo das línguas: inglês, alemão, esperanto e russo? Que personagem é este cuja carreira musical se iniciou em 1962, no grupo The Thunders, formado com o irmão Cláudio César e depois, junto com o outro irmão Sérgio Dias, no grupo Six Sided Rockers? Terá sido aí que ele e Rita Lee se conheceram? Terá sido a partir desta formação que se originou Os Mutantes, a mais genial formação de rock abaixo do Equador – e, talvez, acima também –, do qual Arnaldo era o principal mentor?
“Agora você está no fundo de nós!” Sergio Dias
O documentário começa e termina com Arnaldo pintando um quadro. É a evolução deste quadro que conduz o filme. Nele podemos ler palavras soltas, mas cheias de significados, tais como: “Mutantes, sinto muito e psicodelismo”. Os depoimentos começam com Raphael Villardi, amigo de escola, relembrando o dia em que Arnaldo comprou um baixo e decidiu formar um grupo de rock. Nascia ali o grupo O’Seis, mais um dos galhos que originou Os Mutantes. O sucesso imediato fica evidente na medida em que o grupo se apresenta em vários programas de TVs e festivais pelo país afora, além de turnês internacionais.
A primeira parte do documentário retrata a formação da banda, a relação entre Arnaldo e os outros integrantes, com destaque para sua relação com a jovem e linda Rita Lee. Ainda é possível perceber a alegria de viver que contagiava o grupo e a imediata imersão de todos na busca dos paraísos artificiais. Depoimentos de Rogério Duprat (arranjador), Liminha (baixista), Sérgio Dias (guitarrista) e do baterista Dinho Leme ajudam a traçar o perfil do mutante Arnaldo. Em um trecho bastante tocante, ele fala sobre o casamento, a separação, pede desculpas e reconhece que Rita teve todos os motivos para fazer tudo o que fez, inclusive interná-lo pela primeira vez num hospital psiquiátrico. E assim, como no caso dos Beatles (assumidamente a única influência do artista), o sonho também acabou para os rapazes dos Mutantes quando Rita Lee avisou que deixaria o grupo. Neste instante, Liminha conta que saiu da casa de Arnaldo e começou a chorar. Era o fim.
Título do primeiro disco solo de Arnaldo Baptista, Loki é também aquele que na mitologia nórdica pode assumir muitas formas. Ou seja, mutante, assim como o próprio Arnaldo. O Loki mitológico é considerado um símbolo de maldade. Figura traiçoeira, nunca se sabe quando se pode confiar nele. É o senhor dos truques, da trapaça e do sexo. Está ligado ao fogo e à magia e o seu poder de mutações o leva ora a ser um cavalo, ora um falcão e, vez por outra, uma mosca. Muitas de suas proezas causaram grandes danos ou ferimentos, mas geralmente ele era rápido o bastante para restaurar a ordem e evitar o desastre completo.
A segunda parte do documentário é tomada pela melancolia. Sem a eterna musa Rita Lee, Arnaldo é todo depressão. O limite entre a vida e a morte, a experiência suicida, o coma e o recolhimento posterior são tratados por ele como uma espécie de poda, que no outono se faz nas árvores para que dali em diante nasçam folhas novas. Esta imagem poética, inclusive, é uma das partes mais tocantes do documentário, pois soa como uma confissão de alguém que retornava do inferno, trazido e salvo pelas mãos de um anjo da guarda chamado Lucinha Barbosa. A terceira parte, diz respeito à recente retomada do grupo, agora com Zélia Ducan substituindo Rita. E a mais redentora de todas as cenas: Arnaldo sendo venerado na terra de seus ídolos, depois de um show apoteótico que virou de ponta cabeça a platéia geralmente bem comportada do Centro Cultural Barbican, em Londres. É de lavar a alma.
Primeiro longa-metragem produzido e distribuído pelo Canal Brasil, a idéia do documentário surgiu na pauta do programa “Luz Câmera Canção”. Com duração prevista de 30 minutos, logo o diretor Fontenelle percebeu que tinha material para algo mais ambicioso. De certa forma, pode-se dizer que Loki é filme de um homem só, embora o mais prudente seria dizer que a equipe toda não passa de três ou quatro cabeças. A trilha musical original era composta por 45 músicas. E ela representou, por algum tempo, o maior entrave para que o longa ganhasse as salas de cinema, em circuito nacional, devido ao alto custo dos direitos autorais. A solução encontrada foi reduzi-la, assim como certas cenas foram suprimidas, as quais sugeriam que Rita Lee era a principal responsável pela tentativa de suicídio do ex-marido. Ela, que a princípio havia se recusado a dar entrevista para o filme – ao mesmo tempo em que foi muito cordial, não impondo nenhuma restrição e liberando sua imagem e seu acervo –, parece ter se arrependido. Vale conferir se essas mudanças tão significativas não comprometeram o filme.
Foram três anos e meio de trabalho, de convívio e crescente admiração pelo objeto de sua pesquisa. Fontenelle, que até então pouco sabia a respeito de Arnaldo, acha que tudo foi e está sendo muito gratificante, pois o filme tem angariado prêmios e mais prêmios pelos festivais onde circula. Tanto é verdade, que acaba de ganhar o de melhor documentário do 13º Festival de Cinema Brasileiro de Miami, nos Estados Unidos. Para as gerações que vieram depois d’Os Mutantes, o documentário servirá como uma janela de entrada, gravando-os definitivamente na pedra memorial de nossa música e no consciente coletivo da população brasileira. Depois de celebridades do mundo pop como David Byrne, Kurt Cobain e Sean Lennon chamarem a atenção de todos para a genialidade de Arnaldo Baptista, o filme surge para sacramentar a incrível história desta figura, meio duende, meio pássaro, meio homem, meio árvore, enfim, mutante, muito próximo do que seria um homem-tronco de Hieronymus Bosch.
Os mais críticos apontam a ausência de depoimentos de Rita Lee como o principal calcanhar de Aquiles do documentário. Penso que eles têm razão. Mas, ao final, pouco nos importa. Como pouco nos importa saber se Simonal agiu certo ou errado durante o episódio do contador. O artista sempre sobreviverá ao homem. Talvez a família Castro precise deste atestado de inocência. Talvez o contador precise de sua verdade para continuar vivendo em paz com a própria consciência. Mas para o público e para a história recente da música popular brasileira o que interessa neste momento é a homenagem que se faz tanto do artista Simonal quanto do gênio Arnaldo. Da mesma forma, não nos interessa agora saber o que Rita Lee acha ou deixa de achar do comportamento juvenil de seu ex-marido. O filme o consagrará. O público o consagrará. A história o consagrará. Em ambos os casos, o veredicto do filósofo: “Teu castigo será a tua glória!” O filme traz o sopro das obras-primas, tem a delicadeza translúcida dos objetos raros, vem chancelado pelo crivo das coisas duradouras. Arnaldo se enquadra na categoria de artistas como Artaud, Van Gogh, Bosch, Bispo do Rosário, Fernando Diniz e Camile Claudel, dentre outros. Artistas que sovaram na massa fértil de seus corpos o estigma da loucura, e fundiram homem e artista, vida e arte, sofrimento e inspiração numa só obra, deixando-nos um legado sem precedentes.

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