Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.11.2011 30.11.2011

Livros trazem relatos de sobreviventes

Por Luma Pereira
Na foto, o autor Flávio Tavares
 
Os regimes totalitários, ditaduras militares, guerras civis e até a experiência na cadeia são acontecimentos que podem ser relatados em livros por pessoas que testemunharam/ vivenciaram essas situações e podem falar sobre elas melhor do que ninguém.
 
Anne Frank escreveu um diário contando detalhadamente como era sua vida na época do Nazismo de Hitler. Os escritos foram publicados em 1947, e o diário ficou tão famoso que virou até filme, lançado em 1959, com direção de George Stevens.
 
Em É isso um homem? (1947), o escritor italiano Primo Levi descreve os horrores do campo de concentração de Auschwitz, para onde foi levado em 1944. Ele é uma das três pessoas que sobreviveram – das 650 que passaram pela mesma situação.
 
Uma temporada de facões (2005), do jornalista Jean Hatzfeld, fala sobre o genocídio de Ruanda, a guerra entre os Tútsis e os Hútus. Retratada também no filme Hotel Ruanda, de 2004, dirigido por Terry George.
 
António Lobo Antunes escreveu Os Cus de Judas (1979), sobre sua experiência como médico de campanha na Guerra Colonial Portuguesa de Angola. O jornalista Humberto Rodrigues escreveu Vidas do Carandiru (2002), narrando o tempo em que esteve preso.
 
Estação Carandiru (1999), de Drauzio Varella, também é obra de testemunho. Em Quarto de Despejo (1960), Carolina Maria de Jesus fala sobre sua experiência como catadora de papel.
 
Retrato Calado (1988), de Luiz Roberto Salinas Fortes, e O que é isso, Companheiro? (1979), de Fernando Gabeira, falam sobre a experiência desses dois autores na época da Ditadura Militar brasileira.
 
Este último até virou filme em 1997, com direção de Bruno Barreto. Memórias do Esquecimento (1999), de Flávio Tavares, também é um relato de quem presenciou aquela época de repressão.
 
“Este livro foi minha catarse pessoal. Eu o escrevi por necessidade interior de exteriorizar o que a dor me havia estagnado na memória, como um tumor incômodo que não podia permanecer em mim. Memórias do Esquecimento foi minha terapia e libertação interior”, conta Tavares, que redigiu o livro 30 anos após o ocorrido.
 
Relatos individuais
 
O que essas obras têm em comum? Fazem parte da inicialmente chamada “literatura de testemunho”, termo criado/ utilizado a partir de 1997, por Márcio Seligmann, professor de Teoria Literária e de Literatura Comparada do Instituto de Estudos de Linguagem da Unicamp.
 
“Ao reelaborar o conceito de literatura de testemunho, estava tentando trazer para os estudos literários no Brasil a discussão, ampla e complexa, sobre o impacto de Auschwitz no campo literário”, conta Seligmann, primeiro a estudar o tema no Brasil.
 
No livro História, Memória, Literatura: O Testemunho na Era das Catástrofes (2003), porém, ele passa a utilizar o conceito de “teor testemunhal” para livros como os já citados.
 
“Esse segundo conceito me parece mais adequado, pois todo documento da cultura tem seu teor testemunhal”, explica. E completa: “esse tipo de literatura tem características tão diversas que não podemos falar de um gênero”.
 
“O termo surgiu como uma necessidade de tentar designar relatos em que o narrador assume um compromisso com a verdade – pelo menos, com a ‘sua’ verdade”, comenta Fabrício Flores Fernandes, que escreveu sua tese de doutorado sobre o assunto.
 
Uma das características desse tipo de texto é a tendência à repetição de cenas mais traumáticas e à literalidade. Além disso, as metáforas são pouco utilizadas, a narrativa não é linear e a riqueza de detalhes pode impedir a construção da narrativa.
 
“Não existe uma linha divisória entre o que é criação e o que é relato”, afirma Seligmann. A estética de testemunho é fragmentada, pois tenta se calcar no real – é preciso que o autor busque a verossimilhança.
 
“A literatura, por mais que se aproxime do real, fica sempre no campo do simbólico e do imaginário”, completa o professor.
 
“Nesses livros, predominam situações de violência, seja ela física ou psicológica. Percebe-se um narrador cujo discurso carrega marcas de um trauma – cesuras, hesitações, repetições de termos e, até, alternância entre primeira e terceira pessoas do discurso nas cenas em que narra torturas sofridas”, explica Fernandes.
 
“Trata-se mais de uma estética da metonímia do que da metáfora. É como se o escritor coletasse fragmentos do real”, define Seligmann. “Meu livro começa como uma carta de amor para contar o horror da tortura e da prisão. Foi a maneira com que busquei não me surpreender em reviver a dor, nem surpreender o leitor contando-lhe de chofre o horror. Optei por um início ameno – falar do amor, que é o oposto da tortura e da opressão”, comenta o autor de Memórias do Esquecimento.
 
Tavares conta que, quando escreveu o livro, não se limitou a apenas descrever. “Tentei ir além e contar o que os fatos me provocavam”, diz. “Nada romanceei e não há nenhuma ficção, tudo em verdade ocorreu exatamente como ali conto e relato”, afirma.
 
E completa: “Quando nos aplicavam choques elétricos, não bastava dizer que nos torturavam assim, mas explicar o que isso nos provocava como vítima e o que isso devia provocar no torturador”.
 
Sobre vivências
 
“O testemunho está eminentemente relacionado a um determinado evento: ou trata-se de um trauma pontual ou de uma sequência de traumas. A narrativa testemunhal tem ambiguidade: quer narrar, mas não dá conta do fato, devido à sua enormidade”, explica Seligmann.
 
Além disso, esses relatos são importantes para a História, pois representam fontes de informações sobre o fato ocorrido. Mas a aceitação do testemunho como documento de consulta ainda não é um consenso entre os historiadores – há divergências.
 
No Brasil, dois autores se destacam na produção desse tipo de texto: Graciliano Ramos e Lima Barreto. Este último narra o que passou nos hospícios em que foi internado ao longo da vida.
 
Em Memórias de um Cárcere (1953), “Graciliano reflete sobre sua experiência no período Vargas, dando seu testemunho sobre as atrocidades cometidas nos subterrâneos da ditadura”, comenta Fernandes.
 
Internacionalmente, existem os escritores Primo Levi, Paul Celan, Victor Klemperer, Aharon Appelfeld, Jorge Semprun, Jean Améry, Adam Czerniakow, Calel Perechodnik, Robert Antelme, Art Spiegelman, e muitos outros.
 
Este último não chegou a viver o que narra. Spiegelman escreve sobre os pais – que passaram por Auschwitz – na história em quadrinhos Maus, mas ele nunca esteve em um campo de concentração.
 
E mesmo o “teor de testemunho” é diferente para cada escritor e fato narrado. “Jean Améry, filósofo que sobreviveu à tortura da Gestapo, escreve com um estilo diverso de um camponês latino-americano, torturado e que nunca teve acesso à escola”, diz Seligmann.
 
E completa: “Este último terá de narrar oralmente o seu testemunho a um mediador (o gestor do testemunho), que vai levar sua mensagem ao público”.
 
Viver para contar
 
Primo Levi costumava dizer que o verdadeiro relato é impossível, pois quem de fato viveu determinada época e situação, morreu ou ficou incapacitado de relatar. Mas, segundo Seligmann, essa afirmação foi mal-interpretada.
 
“Não se trata de dizer que o testemunho é o impossível, mas antes, de perceber que o inenarrável faz parte do próprio testemunho. Ele abriga em si o silêncio”, comenta o professor.
 
“Creio que meu livro tem o valor de um testemunho, e – como tal – de uma alerta para que o horror da brutalidade jamais se repita”, diz Tavares.
 
E completa: “tentei dar um testemunho de vida, como sobrevivente que sou de um tempo dominado pela tortura, a morte e a opressão”.
 
Cabe a algumas pessoas o fardo ou a glória de viver para contar a história para a posteridade.
 
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