Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.10.2011 10.10.2011

Livros infantis politicamente incorretos são sucesso entre crianças e adultos

Por Luciana Stabile
 
João Vitor tem 4 anos de idade e ainda não fala direito. Ele teve um probleminha quando nasceu e vai precisar de alguns cuidados especiais com a educação. Mas nada disso importa enquanto o garoto segura forte seu exemplar de Quem Soltou o Pum (Companhia das Letras), de Blandina Franco e José Carlos Lollo.
 
Ele ainda vai demorar para aprender a ler, mas João olha as ilustrações do Pum com curiosidade, dá risada e pede para que eu, tia dele, leia esse livro mais de 15 vezes durante um fim de semana juntos. E eu leio. E ele presta atenção.
 
A história é simples. O simpático e travesso cachorro Pum bagunça a vida de uma família correndo de um lado para o outro. É Pum para lá e Pum para cá. As crianças adoram e, aparentemente, os papais também. O livro foi o terceiro mais vendido da editora durante a Bienal do Rio de Janeiro, e desde que foi lançado alcançou a tiragem de 12 mil exemplares. Também é o primeiro título da Cia das Letrinhas para o tablet.
 
O sucesso pegou a autora, Blandina Franco, de surpresa. “Meu marido é o ilustrador. Quando a gente namorava, conversava muito sobre essa história. Mas ela ficou um tempão guardada na gaveta, até que um dia resolvi passar para algumas editoras”, conta. Pergunto se ela tem um cachorro e se ele chama Pum. “Eu tinha um cachorro, o Ênio, e ele soltava pum como todos os cachorros, mas o livro foi uma brincadeira minha e do Lollo mesmo”.
 
E brincadeira é o que é. “O livro é para as crianças se divertirem. Eu procuro leveza, não uma mensagem. Quando está se divertindo, a criança se comunica mais fácil. Acho o conto de fadas importante para os pequenos resolverem algumas questões, mas minha idéia é diversão. E, para mim, o politicamente correto é chato”, explica a autora, mãe de três.
 
A terapeuta infantil Mara Regina Cássia concorda. “Os livros infantis politicamente incorretos são muito bacanas porque alegram as crianças e tiram as máscaras que as princesas são perfeitas, por exemplo. Ela está mencionando Até as Princesas Soltam Pum (Brinque-Book), de Ilan Brenman. “Quando o modelo de perfeição cai, tudo fica mais humano”, explica.
 
A diretora da escola infantil Miniatura, Carmen Rahal vai além. Não só ela tem livros politicamente incorretos na instituição, como bate o pé quando o assunto é mudar canções infantis tradicionais. Quando pequena tinha o ‘atirei o pau no gato, mas o gato não morreu’. Hoje em dia, a grande maioria das escolas vem mudando as letras da minha infância para adequá-las ao politicamente correto. ‘Não atire o pau no gato, porque isso não se faz, o bichano é nosso amigo, não devemos maltratar os animais’”, diz a nova letra.
 
“Não é uma letra assim que vai transformar a criança em delinquente. Isso não está na música, mas nos valores que vêm de casa”, afirma a diretora. “Essa canção faz parte da cultura da nossa terra”. Em relação aos livros para crianças, ela explica que é assistida por um time de psicólogos que aprovam suas escolhas. “A escola tem a fábula, mas também recebe a literatura moderna. O que é importante é que os livros, mesmo os politicamente incorretos, sejam adequados à faixa etária correspondente”, finaliza.
 
Bernardo Pietro, de 2 anos e 6 meses, agradece. No colo do pai ele finge ler Ceci Tem Pipi (Companhia das Letrinhas), de Thierry Lenain. E me contam que quando a irmã nasceu, sua primeira reação quando ela veio para casa foi procurar o seu pipi.
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