Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 31.10.2012 31.10.2012

Livros comentados servem a leitores que buscam ler além das histórias

Por Andréia Silva
 
Este ano, na Flip (Festa Internacional de Paraty), em uma mesa dedicada a analisar estrofe por estrofe os poemas do livro A Rosa do Povo, de 1945, escrito por Carlos Drummond de Andrade, os críticos Alcides Villaça e Antonio Carlos Secchin revelaram detalhes que não haviam saltado aos olhos de todos os leitores. A cada ressignificação de uma palavra no contexto, a plateia se manifestava, como se estivesse embevecida, descobrindo uma nova obra dentro da antiga.
 
Para alguns leitores, qualquer informação adicional que revele algo a mais sobre o estilo ou a história contada pelo autor de determinada obra é como uma mágica que permite ir além da trama. Esse é um dos principais objetivos de uma edição comentada.
 
“A obra comentada vem esclarecer eventuais referências menos conhecidas feitas no texto e ajudar o leitor a entrar na história”, explica ao SaraivaConteúdo o escritor Rodrigo Lacerda, consultor editorial da Zahar e responsável pela coleção Clássicos, uma série de obras adultas e infantis em edições ilustradas e comentadas.
 
Os livros da coleção são divididos em clássicos adultos (Jane Austen, com Persuasão; e Jack London, com O Lobo do Mar, em produção), infantis ou juvenis (Alexandre Dumas, Júlio Verne) e populares (Peter Pan, de James Barrie; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, etc). Para novembro, está previsto o lançamento de A Mulher da Gargantilha de Veludo e Outras Histórias de Terror, de Alexandre Dumas.
 
Falando especialmente de obras clássicas, Lacerda vê os títulos comentados como atrativos, já que "clássicos são livros que, em geral, você não lê uma vez só na vida. Além da história, eles têm sempre um encanto próprio, na visão de mundo do autor ou na maneira como ele usa a linguagem".
 
Entre suas obras comentadas preferidas, ele cita O Conde de Monte Cristo. "Foi ao traduzi-lo e fazer as notas que eu e o André Telles chegamos a um formato e a uma índole própria nas nossas notas. Nada de erudição enfadonha. Fazemos notas esclarecendo algum ponto obscuro do texto ou mencionando fatos curiosos sobre o livro e o autor", disse.
 
A tradutora Fernanda Abreu também foi a responsável pelas notas do livro Persuasão, de Jane Austen, da mesma coleção da Zahar, e conta um pouco sobre como pensou seu trabalho em cima de um título já clássico.
 
Capas de algumas das versões comentadas
 
"O critério foi incluir notas que auxiliassem na compreensão do texto pelo leitor e enriquecessem a leitura, ou seja, para explicar referências específicas à cultura e aos costumes ingleses da época, bem como referências históricas e geográficas. Usei como referência as edições anotadas de língua inglesa e francesa", diz Fernanda.
 
As obras comentadas têm diferentes formatos. Desde as tradicionais notas de rodapés, que em versões mais completas ampliam o leque de informações, a comentários de críticos espalhados dentro do texto ou comentários do próprio autor, explicando melhor seu passo a passo na obra.
 
"Sou uma rata de rodapés", brinca a psicóloga Paola Franceschi. "Acho que, em alguns livros, são esses detalhes que ampliam a obra, como se fossem janelas de conhecimento". Paola conta que lê muitos livros de filosofia, história e psicologia; neles, os comentários e as referências são fundamentais.
 
"Um livro que gosto especialmente pelas notas de rodapé é O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell. Foi ali que descobri que Jung não criou o conceito de arquétipo e que James Joyce cunhou o termo ‘monomito’. É como beber da fonte de referências do autor e descobrir que existem muitos outros textos a serem lidos. As notas também trazem trechos de poemas, explicações e provocações teóricas do autor que vale a pena ler. Existem notas com até 30 linhas", conta Paola.
 
Os autores também comentam suas próprias obras. Uma versão interessante desse tipo de edição comentada é o livro O Olho da Rua, da jornalista Eliane Brum. No título, lançado em 2008, Eliane reuniu dez reportagens de sua autoria e incluiu em cada uma o making of, ou seja, comentários dos bastidores e de como foi produzir as reportagens, revelando como fez algumas escolhas e tomou decisões. Ela chega até a confessar alguns erros.
 
Mas os livros comentados também atraem outro tipo de leitor: o vestibulando. Foi o caso da estudante Mariana Monzani, que cursa o último ano de jornalismo na universidade Mackenzie e recorreu a essas obras em 2008, para se preparar melhor para o vestibular. “Não é um hábito ler livros desse tipo, mas, dependendo da explicação, ajuda muito na leitura”, diz a estudante.
 
Entre as publicações lidas estavam A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, Dom Casmurro, de Machado de Assis, Sagarana, de João Guimarães Rosa, e Esqueleto na Lagoa Verde, de Antônio Callado.
 
“No livro do Antonio Callado, os comentários ajudaram porque falam sobre o autor, e ajudam a entender um pouco mais por que o autor segue por um caminho e não pelo outro, as tomadas de decisão, detalhes da história que às vezes podem ter dupla interpretação dentro do texto”, disse Mariana, que aponta uma obra na qual o estilo do comentarista interferiu de leve no texto.
 
“Quando li Dom Casmurro, achei alguns comentários tendenciosos, e a graça do livro está em você ficar na dúvida se a personagem traiu ou não o marido e tirar as próprias conclusões depois. Nos comentários, ao tentar explicar a estrutura textual, o estilo do autor acaba influenciando um pouco. Mas acho que, na maioria das vezes, essas obras acrescentam muito”, completa a estudante.
 
 
 
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