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Livro revela a história de Ronald Soares, o brasileiro que se tornou o economista do tráfico

Por Andréia Silva
Durante uma viagem a Recife, em 2007, o escritor e antropólogo Luiz Eduardo Soares, mais conhecido pelos leitores pela autoria do livro Elite da Tropa, ao lado de André Batista e Rodrigo Pimentel – que deu origem aos dois filmes da série Tropa de Elite –, ouviu de um amigo que um primo do mesmo gostaria de contar a sua história.
Soares então imaginou que algo de muito curioso haveria nela a ponto de o primo, Ronald Soares, querer contá-la em um livro. Mas nem de longe ele poderia ter imaginado o que viria pela frente.
Economista com uma bem-sucedida carreira no mercado financeiro, Ronald largou tudo em meados dos anos 70, motivado por uma desilusão amorosa,para dar a volta ao mundo em um veleiro. Acabou se tornando uma peça central no tabuleiro do tráfico internacional, na conexão Colômbia-Caribe-Inglaterra. Do horizonte aberto do mar, foi parar em uma cela, primeiro em Londres, depois no Rio de Janeiro, em Bangu.
Quando a história chegou ao ouvido de Luiz Eduardo, em 2007, Ronald acabara de ser transferido para o Brasil, onde cumpriria o final de sua pena. Ele havia sido condenado, na Inglaterra, a 24 anos de prisão por associação ao tráfico de duas toneladas de cocaína, no mais longo julgamento da história inglesa (14 meses, em tribunal), e ficara vários anos na penitenciária de segurança máxima por ter sido considerado o prisioneiro mais perigoso do país – apesar de jamais ter pegado numa arma.
“Essa classificação de periculosidade extrema tinha sido a reação da Justiça britânica a uma tentativa de fuga. Esse meu amigo pernambucano fez um resumo das aventuras e desventuras de seu primo e eu logo compreendi que se tratava de uma extraordinária história”, diz Soares, que acaba de lançar Tudo ou Nada, contando todos esses acontecimentos.
 
Entre 1996 e 1999, Lukas (pseudônimo de Ronald no livro) atuou como uma espécie de representante comercial de um grupo ligado ao Cartel de Cali, onde ficou conhecido como “o economista”. O esquema ia das negociações em plena selva colombiana à chegada à Europa, passando pela logística montada para o transporte da droga, que, dividida em centenas de caixas de cigarro, era lançada ao mar do Caribe e resgatada por iates e veleiros – com a experiência, Ronald poderia traçar as melhores e mais seguras rotas. Mas no dia 12 de fevereiro de 1999, em Londres, a casa caiu.
Nesse dia, segundo conta a obra, Ronald “acordou às cinco da manhã num estalo, como se não tivesse nem cochilado. Nunca tinha se sentido tão alerta”. Poucos minutos depois, policiais da Customs and Excise, uma das mais eficientes forças investigativas do mundo, invadiram o quarto do hotel onde ele estava hospedado e acharam dezoito mil libras e dez mil dólares.
Mais de dez anos após a prisão, Ronald diz que não sentiu nada na hora, nem medo, embora afirme que seu corpo se encontrava em prostração absoluta, imóvel.
“Vou ter medo de quê?”, diz ele, que na hora não imaginou que fosse pegar uma condenação tão severa. Tal foi sua surpresa quando, durante o julgamento, descobriu que os últimos anos de sua vida haviam sido registrados e seguidos pela polícia inglesa. “Eles estavam investigando tudo”, relembra.
Divulgação
Capa do livro Tudo ou Nada
 
Da prisão a um plano de fuga frustrado – e denunciado por uma senhora que percebeu uma movimentação suspeita na vizinhança –, Ronald ganhou o título de prisioneiro mais perigoso da Inglaterra. Na prisão, era observado a cada 40 minutos por um guarda, que deveria entregar um relatório sobre os movimentos do preso em uma solitária. As curiosas descrições geralmente se resumiam a frases como “está sentado na cama com as mãos sobre o joelho, olhando para baixo”.
A vida no mar o ajudou a sobreviver à prisão. “A alma você esquece, mas a disciplina do mar me ajudou. Mesmo no mar você tem um espaço limitado, então a disciplina mental, prevenir e evitar problemas, isso me ajudou”.
Hoje, aos 61 anos, Ronald está de volta ao Rio de Janeiro, zerado com a justiça e trabalhando para uma empresa que vende cabos para embarcações de petróleo. O retorno ao país para uma prisão brasileira foi uma conquista da filha, Anuska, a quem ele chama de “pequena heroína”. Ronald foi o primeiro caso de um preso transferido do Reino Unido para o Brasil por meio de um acordo entre ambos os países.
Um livro aberto
Luiz Eduardo diz que nunca soube ao certo o que motivou Ronald a contar sua história. “Era uma necessidade. Até hoje ele não foi capaz de me explicar por quê. Ele mesmo não compreende muito bem esse desejo. Seu primo, como é psicanalista, não tem dúvida: faz parte do processo de elaboração psíquica e de superação. No fundo, de meu ponto de vista, é uma busca de aceitação, de afeto e de perdão, inconscientemente”.
Para Ronald, era mais simples. “Conselho, como diz, se fosse bom, ninguém dava, vendia. Mas eu penso que se esse livro ajudar uma ou duas pessoas a pensarem bem antes de seguirem esse caminho, já valeu”.
Embora não seja uma ficção, o autor tomou a liberdade de trocar nomes dos personagens, inclusive o do protagonista, que passou a se chamar Lukas Mello. Escolha estética, diz Luiz Eduardo.
“Ainda que eu tenha procurado ser o mais fiel possível aos eventos e aos sentimentos do ser humano, de carne e osso, Ronald Soares – é claro que, entre a realidade vivida por ele e as palavras que estão no livro, há a mediação de minha subjetividade e da construção literária. Marcar essa diferença é uma questão de honestidade intelectual e estética”.
O livro aproximou Luiz Eduardo e Ronald, que conviveram durante cinco anos, passaram tardes e tardes conversando e, hoje, participam de alguns debates sobre o livro juntos. De lá para cá, acabaram ficando amigos.“Eu passei a admirar a coragem e a honestidade de uma pessoa que, tendo passado tudo o que passou, me deu liberdade absoluta para dizer a verdade, sem dourar a pílula”. Ronald diz que o encontro com o autor foi “empatia à primeira vista”.
Curiosamente, desde que reconquistou a liberdade e voltou para o Rio, onde mora perto do mar, Ronald ainda não saiu para velejar.“Para mim, velejar é sair 15 dias, um mês… Sair no mesmo dia e voltar não tem graça. Mas depois de tudo que aconteceu, está tudo ótimo”.
Assista ao booktrailer de Tudo ou Nada:
Parte 1

 
Parte 2

 
 
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