Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.05.2014 30.05.2014

Livro mostra como os anti-heróis da TV caíram no gosto popular

Por Andréia Martins
 
O jornalista Brett Martin nunca foi crítico de televisão, mas sempre gostou de passar tempo em frente à telinha. E é com um olhar de espectador e contador de histórias que ele reuniu cenas de bastidores, dilemas pessoais de roteiristas e apresentou as mentes por trás dos programas que vêm revolucionando a TV norte-americana, desde 1999, com a estreia da série A Família Soprano.
Homens Difíceis (Editora Aleph) é um livro sobre as histórias por trás dessas séries. Não é algo acadêmico ou crítico. Nunca fui um crítico de TV. Gosto de ser espectador”, diz ele em entrevista ao SaraivaConteúdo.
O livro levou três anos para ser escrito e aborda as transformações pelas quais a televisão norte-americana vem passando com as produções dos canais a cabo, como HBO, FX e AMC, que apostaram em diferentes formatos de séries e num novo tipo de anti-herói, que faz o que é preciso para sobreviver e tenta se aproximar da sua própria natureza.
Entre essas produções se destacam A Família Soprano, Breaking Bad e Mad Men, principais expoentes da chamada Terceira Era de Ouro da Televisão nos EUA – cuja filosofia se resume em uma frase: “a vida é assim”–, e seus protagonistas, o mafioso Tony Soprano, o ex-professor de química Walter White, que começa a fabricar e vender metanfetamina, e o publicitário frio e mulherengo Don Draper. Em comum, são personagens infelizes, moralmente comprometidos, complicados, profundamente humanos.
“Durante muito tempo não houve espaço para esses personagens na TV. A exceção foi Tony Soprano. A TV, por ser controlada por anunciantes e por chegar na sala da sua família, no seu quarto, tinha uma ideia de não trazer problemas ou pessoas difíceis porque os anunciantes não autorizavam e o público também não aceitaria bem esses personagens. Até que alguém arriscou”, comenta Martin.
Esse alguém foi o roteirista David Chase, inspirado um pouco em seu contexto familiar, criador de Família Soprano, exibida pela HBO. A série inovou no roteiro e na forma de desenvolver uma série dramática. A intensidade dos personagens também era apresentada em um novo grau. O papel do roteirista nunca mais seria o mesmo.
 
O jornalista Brett Martin, autor de Homens Difíceis
“Na TV os diretores costumam ser estrelas, mas a televisão também é sobre escritores. Há essa necessidade de conteúdo. E essas mudanças na forma de contar uma história são sobre escritores”, comenta Martin, destacando o papel dos roteiristas nessa nova leva de programas.
Curiosamente, ele conta sobre o episódio em que viu, ainda numa fita cassete, os primeiros episódios de A Família Soprano e não ter dado o devido valor por achar muito parecido com filmes sobre máfia que ele tinha assistido. Anos depois, ele não só seria fã do programa como aceitou escrever um livro sobre a série. 
 
O ator James Gandolfini na pele de Tony Soprano
Um dos pontos fortes de Homens Difíceis é revelar bastidores, sejam eles das negociações entre roteiristas e emissoras, das cenas da sala dos roteiristas, hoje, o local mais cobiçado e interessante de uma série de TV, e de como produzir um piloto. Além disso, ele conta um pouco da história pessoal dos roteiristas por trás desses programas inovadores, como Chase, David Simon e Ed Burns (The Wire), Matthew Weiner (Mad Men), David Milch (Nova York Contra o Crime, Deadwood), Alan Ball (A Sete Palmos) e Vincent Gilligan (Breaking Bad). É possível descobrir muitas coincidências entre vida pessoal e os produtos de sucesso que eles criaram para a TV.
“Não se pode separar o homem e a mulher do show. Eles estão muito ligados a esses programas e acredito que isso ajudou. Mas é curioso que a maioria deles nunca sonhou em fazer essa transformação na TV, e sim no cinema”, diz o autor.
Outro reflexo desses programas foram a presença de personagens femininas mais fortes, não apenas secundárias, e do interesse de astros do cinema pelas séries. Uma das primeiras foi a atriz Glenn Close, que depois de uma participação em The Wire ganhou o papel de protagonista na série Damages. “Isso é algo que ainda vai melhorar, mas já vemos reflexo de mais espaço para mulheres protagonistas, por exemplo, com Claire Danes em Homeland, as meninas de Orange is The New Black e em outras séries”, comenta o jornalista.
 
Walter White, de Breaking Bad, vivido pelo ator Bryan Cranston
Com o fim de Breaking Bad, em 2013, e Mad Men caminhando para o seu final, previsto para 2015, Martin não sabe afirmar se a Terceira Geração de Ouro da TV está encerrada. Ele confessa que depois de tanto tempo se dedicando ao tema está de férias das séries – embora demonstre gostar bastante de Game of Thrones – e anda assistindo a muitos jogos de baseball. No entanto, ele reconhece que uma nova mudança pode acontecer a qualquer momento.
“As mesmas condições do início dessa terceira geração existem hoje para uma nova etapa. Mas não sei dizer o que uma nova geração traria de novo. Num tempo onde as audiências são cada vez menores, sempre haverá alguém tentando fazer algo diferente. O grande prazer, como espectador, é ser surpreendido”.
 
O personagem Don Draper, protagonista de Mad Men
 
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