Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.11.2012 26.11.2012

Livro ‘Laranja Mecânica’ completa 50 anos, ainda atual e com nova edição

Por Andréia Silva
 
Os livros (pouco mais de uma dezena) escritos e publicados pelo autor inglês John Anthony Burgess Wilson, ou apenas Anthony Burgess (1917-1993), permanecem no anonimato, exceto Laranja Mecânica. A obra, adaptada para o cinema pelo cineasta Stanley Kubrick, completa 50 anos em 2012 com direito a uma reedição especial.
O livro foi o 18º da carreira de Burgess e saiu em 1962. Ele narra a história de Alex, líder de uma gangue que acaba preso e submetido a um tratamento de aversão à violência. Ele é tratado com remédios e desafia a terapia. Apesar de “curado”, logo retorna ao que era. Um dos pontos mais curiosos da obra é o dialeto falado por Alex e sua gangue, a linguagem Nadsat, criada por Burgess ao misturar o inglês, o russo e gírias.
Ao lado de 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Laranja Mecânica é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século 20 e que abordava mais uma possibilidade de forma de controle da sociedade. E para os leitores mais jovens, a obra continua atual.
"Cheguei ao livro porque, na época, estava lendo Admirável Mundo Novo e 1984. Adorei o livro: a densidade dos personagens, a crueldade de suas ações e, mais ainda, o sistema de vigilância e punição desenvolvido pelo Estado. Tudo muito atual. Na época, esses mecanismos de controle social me interessavam muito: o soma de Admirável Mundo Novo, a teletela de 1984 e o tratamento ‘médico’ de Laranja. Era uma literatura que misturava a dimensão crítica com o suspense, prendia como uma boa novela policial", diz a estudante de Artes Cênicas Luiza Romão, 20.
Kubrick decidiu adaptar a obra para o cinema em 1971, com um orçamento de pouco mais de US$ 2 milhões, popularizando ainda mais a história. A estética futurista, as cenas fortes e violentas e a terapia da aversão marcaram os espectadores. Uma onda de violência foi desencadeada na Inglaterra, levando o cineasta a pedir que algumas exibições fossem canceladas.
"O toque futurista do filme, mesmo rodado em 1971, não deixa de refletir questões ainda atuais, como o perigo de acreditar que a ciência por si só pode permitir o controle do Estado sob as liberdades individuais e a hiperviolência como sintoma de uma sociedade doente. Existe um humor sarcástico, e a estética das roupas é muito singular. Inesquecíveis são as cenas de ‘correção’ dos hábitos do protagonista Alex, ou as imagens violentas chocando-se com a suavidade da música do alemão Ludwig van Beethoven", diz o cineasta Guilherme Teixeira, 36.
Agora, no aniversário de 50 anos, a obra ganha uma edição especial com ilustrações assinadas por Angeli, Dave McKean (conhecido por colaborar com Neil Gaiman) e pelo argentino Oscar Grillo, além de notas culturais, trechos restaurados, anotações originais e uma entrevista inédita com o autor. Entre as anotações de Burgess, ele questiona se Elvis Presley será famoso na época do lançamento do livro. O rei do rock é citado em um trecho onde Alex e sua gangue se preparam para mais uma invasão no bairro.
Escreve Burgess: "Colocamos nossas mascaretas. Coisa nova, horrorshow mesmo, um trabalho muito bem feito; eram os rostos de personalidades históricas (eles diziam para você os nomes quando você comprava). Eu tinha Disraeli, Pete tinha Elvis Presley, Georgie tinha Henrique VIII e o coitado do bom e velho Tosko tinha um vek poeta chamado PB Shelley (…)".
O trecho citado mostra algumas palavras na linguagem usada pela gangue de Alex. Para alguns leitores, uma forma de autoaprovação. "Quanto à linguagem, acho que reproduz um comportamento próprio de grupos, seja quais forem, que usam e transformam certas palavras, conceitos, como forma de se diferenciar. A gangue de Alex e sua semântica são próprios de um grupo que quer se afirmar, penso nisso como nas gangues de ‘pichos’, cada uma com seus códigos e escritas que identificam", diz Luciano Rodriguez Duarte, 22, estudante de Letras.
 
Capa da nova edição do livro Laranja Mecânica e ilustração de Angeli para a nova edição 
Com o sucesso do livro, o escritor foi questionado várias vezes nos Estados Unidos e também na Europa acerca do significado da obra. Resolveu comentar tudo em um artigo datado de 1973, intitulado “A Condição Mecânica”.
Nele, Burgess explica boa parte da história de Laranja Mecânica, começando pelo nome. “A primeira vez que ouvi a expressão 'laranja mecânica' foi em um pub de Londres, antes da Segunda Guerra Mundial. É uma velha expressão londrina que implica uma estranheza, uma extravagância tão extrema que subverte a natureza, pois qual conceito seria mais bizarro quanto o de uma laranja mecânica?". 
Sobre o tema escolhido (uma forma de conter a delinquência juvenil), ele revela “ter lido em algum lugar que curar a delinquência pela terapia da aversão seria um bom negócio”. “Fiquei espantado”, escreveu.
 
 
 
Recomendamos para você