Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.04.2013 18.04.2013

Livro Infantil: Relembre os autores que ficaram na memória das crianças

Por Maria Fernanda Moraes
 
Se o livro infantil tem um dia só dele para comemorar, o mérito é de Monteiro Lobato. Afinal, quem não conhece ao menos um personagem do famoso Sítio do Pica-Pau Amarelo? O dia escolhido para a comemoração – 18 de abril – também é em sua homenagem: coincide com a data de nascimento do escritor de Taubaté, interior paulista.
 
Para entender um pouco a importância desse gênero e como ele foi evoluindo no Brasil com o passar das décadas, o SaraivaConteúdo conversou com duas especialistas no assunto:Maria Zilda da Cunha e Maria dos Prazeres Santos Mendes, professoras de Literatura Infantil e Juvenil da USP.
 
Maria Zilda explica que, depois da tradução e adaptação dos contos maravilhosos de Perrault, Grimm e Andersen no Brasil, as primeiras produções genuinamente nacionais foram criadas na passagem do século 19 ao 20, e a obra mais conhecida desse período é Contos da Carochinha (1896), de Figueiredo Pimentel. “Era uma época em que a literatura se preocupava com o nacionalismo, o intelectualismo, tinha ênfase no moralismo e religiosidade. É por isso que Monteiro Lobato é considerado um divisor de águas, já que seus livros chegam para mudar isso”, afirma.
 
Acompanhe os destaques das especialistas em cada período:
 
1920: O NASCIMENTO DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL NO BRASIL  
 
É em 1920 que Monteiro Lobato publica A Menina do Nariz Arrebitado (que depois ganharia novos episódios e passaria a se chamar Reinações de Narizinho). A obra privilegia a função lúdica da literatura e é responsável por produzir um novo universo literário para crianças. 
 
Capa de Reinações de Narizinho
 
Maria dos Prazeres: “Lobato inova ao adotar a linguagem coloquial, próxima à criança, dá vazão ao espírito curioso, criativo e também crítico de seu pequeno leitor, ao fazê-lo aderir às aventuras e identificar-se com as personagens bem brasileiras ou trazidas de outros espaços.”
 
Maria Zilda: “Outra novidade trazida por Lobato foi a presença de ilustrações nos livros para crianças, que até então apresentavam edições pouco cuidadas nesse sentido. Ele preocupava-se muito com a recepção prazerosa do livro.”
 
DÉCADAS DE 30 A 40
 
Maria dos Prazeres: “Nos anos 30, já estava em pauta a luta pela escolarização, e com ela veio a propagação da leitura, embora ainda houvesse a imposição aos leitores dos valores morais. Nessa época temos José Lins do Rêgo com Histórias da Velha Totonha (1936), Graciliano Ramos com A Terra dos Meninos Pelados (1944), Érico Veríssimo e as As Aventuras do Avião Vermelho (1936), Viriato Correia com Cazuza (1938).”
 
Cazuza
 
Maria Zilda: “Ocorreu também a expansão da produção de histórias quadrinizadas. Começam a fazer sucesso as novelas de aventuras, narrativas policiais, detetivescas, influenciadas por Sherlock Holmes.”
 
ENTRE 40 E 60 
 
Maria dos Prazeres: “Nessa época, acentua-se a força das editoras, com grande produção literária.  Autoras como Lúcia Machado de Almeida (No Fundo do Mar, 1943) e Maria José Dupré (A Ilha Perdida, 1946),  preocupadas  em passar ensinamentos – que hoje chamaríamos de ecológicos aliam-se a Francisco Marins  (Nas Terras do Rei Café, 1945). Nos gêneros ficção científica e romance policial que atraem crianças e jovens até hoje, citamos o pioneiro Jerônimo Monteiro (A Cidade Perdida, 1948)."
 
ANOS 70 
 
Maria dos Prazeres: “Nos anos 70 acontece o ‘boom’ da Literatura Infantil/Juvenil: investimentos do Estado, veiculação do livro como paradidático nas escolas, criação de instituições que favoreceram o ato de ler. Autores empenham-se em histórias nem tão lineares, paródias, metalinguagem e a dialogia de vozes narrativas, como em Lygia Bojunga (A Casa da Madrinha, 1978, e Corda Bamba). Também há espaço para a narrativa experimental de Clarice Lispector (com quatro obras para crianças) e Bartolomeu Campos Queirós (O Peixe e o Pássaro, 1974).
 
Corda Bamba
 
Maria Zilda: “Destaque para autores como Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos Queirós, Ganymedes José, Ruth Rocha, Ziraldo, Sérgio Caparelli, João Carlos Marinho, Vivina de Assis, Joel Rufino, Lucia Pimentel Góes. Lygia Bojunga traz três obras independentes: Livro: um encontro, Fazendo Ana Paz e Paisagem, que constituem uma das mais inventivas formulações de nossa época.”
 
ANOS 80 E 90
 
Maria dos Prazeres: “Dos anos 80 até nossos dias, convivem tendências que seguem o realismo-denúncia ou os romances em série, como em Pedro Bandeira, Stella Carr, Odete de Barros Mott,  Ana Maria Machado.”
 
Maria Zilda: “Autores em destaque: Luis Camargo, Pedro Bandeira, Tatiana Belynki, Ricardo da Cunha Lima, Lino Albergaria, Marina Colassanti, Mirna Pinski, Regina Chamlian, Elias José. São obras que propiciam aos jovens leitores estímulo ao olhar – ao explorar as relações do cotidiano e o mundo da linguagem, como os livros de Eva Furnari, de Mary e Eliardo França (Coleção Gato e Rato) ), de Rogério Borges e Ziraldo. Merece destaque a inovação das ilustrações e narrativas imagéticas com artistas como Angela Lago, Ciça Fitipaldi, Tato Orthof e Ziraldo.”
 
TENDÊNCIAS ATUAIS E FUTURAS
 
Maria dos Prazeres: “Hoje em dia há uma tendência de intersecção de linguagens e códigos, da linguagem da informática, exigindo a cumplicidade do leitor, sua interatividade. É um leitor que se torna autor, como Angela Lago propõe em seus livros, que são depois operados em sua página na Internet: OH! (um jogo assombrado), A Interminável Chapeuzinho, História para Dormir Mais Cedo."
 
A literatura interativa na internet
 
Maria Zilda: “Nos textos em hipermídia tão populares hoje – que ainda têm muito a explorar futuramente o autor não constrói propriamente a obra, mas concebe seus elementos e o algoritmo combinatório, ficando a cargo do leitor a realização da obra, ainda que cada um o faça de forma diferente. Outros exemplos que têm a configuração labiríntica e de hipertexto: O Problema do Clóvis, de Eva Furnari;  Zubair e os Labirintos, de Roger Mello; Lancelote e Lampião, de Fernando Vilela.”
 
Zubair e os Labirintos
 
 
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