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Livro conta a trajetória de 20 anos do cinema de Quentin Tarantino

Por Andréia Silva e Sarah Correa
 
Em 1992, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo projetava o segundo filme de um cineasta norte-americano até então desconhecido do grande público: Quentin Tarantino.
A película em questão era Cães de Aluguel, que começava com uma discussão sobre uma música de Madonna e, minutos depois, ‘presenteava’ o espectador com uma das cenas de tortura mais célebres do cinema. Por ocasião da exibição, Tarantino estava no Brasil, mas passou quase em branco pelas poucas pessoas que escolheram assistir ao filme. O crítico de cinema Cid Nader era uma delas.
“Olhe, não é história de pescador, não. Eu estive na sessão em que o filme foi exibido. Um filme independente, de um ‘moleque’ norte-americano, não fazia muito o perfil do pessoal mais velho, e na exibição havia uns dez espectadores. Sentaram-se bem atrás de mim o Tarantino, a tradutora do evento e mais uma mulher que o acompanhava. Terminado o filme, quase todos saíram voando da sala e ele ficou lá fora, sem que nenhuma pergunta tivesse sido feita a ele. Fui cumprimentá-lo e ele, todo tímido, agradeceu, feliz da vida”, relembra.
Vinte anos se passaram desde Cães de Aluguel. E nessas duas décadas não faltaram sangue e muita violência nos filmes do diretor, que acabou se tornando popular e ícone cult. Toda essa trajetória é recontada por Paul A. Woods no livro Quentin Tarantino – Arquivos de um Fanático por Cinema. Nele, Woods reúne uma seleção de críticas, entrevistas e perfis sobre Tarantino e suas produções, pontuando bem as diferentes fases da carreira do diretor. Os textos foram todos publicados à época do lançamento dos filmes.

Cena de 'Django Unchained', próximo filme de Tarantino
Woods é um desses escritores fanáticos por cinema. Em 1997, lançou nos Estados Unidos O Obsessivo Universo de David Lynch, e, em 2011, O Estranho Mundo de Tim Burton. Sobre o livro de Tarantino, o próprio Woods avisa: “Compre o livro, sente-se na primeira fileira e prepare-se para os borrifos de sangue”.
Repassando a obra do cineasta, Nader diz que Tarantino soube refinar seu cinema ao longo dos anos. "Tão óbvio quanto qualquer artista de verdade estar sempre em processo de evolução é notar que suas obras ganham aspectos mais 'refinados', que a idade, a bagagem e, obviamente, os maiores investimentos são parte do processo. Os motes de Tarantino sempre foram numerosos – a cultura popular que o abastece é muito ampla e de distâncias geográficas –, e percebê-lo aproveitando os anos para incorporá-las mais e mais finamente acaba sendo um grande benefício", comenta.
Talvez por isso, Tarantino tenha conseguido se tornar um dos queridinhos de Hollywood. "Ele representou uma virada no cinema de entretenimento. O cinemão dos EUA costumava apostar e investir forte para atrair públicos em quantidade. Tarantino mostrou que, com pouca grana (era a época do surgimento das produções independentes por lá) podia angariar públicos".
Tarantino parece ter um plano para continuar conquistando o público e manter sua obra viva. Como ele mesmo escreve em um dos textos do livro: "Não quero que meus filmes sejam descartáveis. Espero que eles durem por centenas de anos. Essa é a grande coisa dos filmes, poder fazer um que os críticos digam que 'é uma merda!', mas se você fez um bom filme e ninguém viu na época em que saiu, a história será o teste final e você será reconhecido alguma hora, em cinco anos, dez anos, daqui a 25 anos, e vai encontrar seu público, se for bom".
O TARANTINISMO, EM ALGUMAS PALAVRAS:
CULTURA POP – As referências culturais do diretor são parte importante do fio condutor de suas produções. Mangás, filmes trash, artes marciais – em Kill Bill, ele faz uma verdadeira homenagem à prática –, faroestes à mexicana, terror… Todos esses elementos aparecem em seus filmes como odes à cultura pop.
Em Pulp Fiction, por exemplo, o diretor ampliou suas "referências moderninhas", como diz Woods. Só Tarantino para fazer com que assassinos e criminosos, após cometerem crimes, debatessem sobre o personagem Fonzie – da série de TV Dias Felizes – e kung fu. Como diz um dos textos do livro, “nesta era pós-moderna, ele [Tarantino] é o coreógrafo que mescla a evocação barata do imaginário pop com atrocidade”.

A atriz Uma Thurman em 'Kill Bill Vol.1'. O filme mescla artes marciais, mangás, sangue e vingança, elementos-chave na produção de Tarantino
MUSICAL SEM SER MUSICAL – Essa é uma característica bem tarantinesca. A música é elemento tratado com zelo em seus filmes, e não raramente cenas totalmente musicais são incorporadas a suas produções, promovendo momentos inesquecíveis.
Quem não se lembra da cena da dança entre os personagens de John Travolta e Uma Thurman em Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994), ao som de “You Never Can Tell”, de Chuck Berry, ou da lap dance em À Prova de Morte (2007), embalada pelo grupo The Coasters, com “Down in Mexico”? O próprio diretor fala sobre o uso da música em suas obras:
“Sempre adorei as cenas musicais em filmes, particularmente adoro quando os filmes não são musicais. Minhas cenas musicais favoritas sempre foram as de Godard, porque elas vêm do nada. É tão contagiante, tão simpático. E o fato de que não é um musical e ele para o filme para ter uma cena musical torna tudo mais doce”.
GRIND HOUSE – O termo americano dava nome aos teatros que exibiam, principalmente, os chamados “filmes de exploração”. Mas o que seria isso? Uma produção que abusa de cenas de sexo, violência ou de temas bizarros.
Kill Bill é uma homenagem ao estilo. Mas os filmes Planeta Terror, de Robert Rodriguez, e À Prova de Morte, de Tarantino, lançados juntos com o nome de Grind House, são considerados as obras-primas do gênero.
BLACKSPLOITATION – Gênero que nasceu nos Estados Unidos, nos anos 70, e era nada mais do que as produções de grind house feitas para o público negro. Tarantino também se inseriu neste universo com Jackie Brown, de 1997.
"Muito do clima de filmes apelativos negros que eu gostava trouxe para Jackie Brown. É como a dívida que Pulp Fiction tem com faroestes-espaguete. Jack Brown deve a filmes blacksploitation. E a relação que a surf music tem com Pulp Fiction, a soul music da velha guarda dos anos 1970 tem com Jackie Brown: é o ritmo e a pulsação do filme", diz Tarantino.
VINGANÇA – Em Kill Bill, o personagem Hanzo Hattori, vivido pelo ator Sonny Chiba, faz um discurso curto que diz: "A vingança nunca é uma linha reta, é uma floresta, é fácil de se perder e de se esquecer por onde entrou".
A vingança é peça-chave da trama de diversas produções de Tarantino. À Prova de Morte, onde as mulheres destroem o serial killer Stuntman Mike (Kurt Russell), e Bastardos Inglórios, no qual ele foge totalmente do que se acostumou a ver nos filmes com temática judaica/Segunda Guerra Mundial, são alguns exemplos. No imaginário de Tarantino, como ele mostra na obra, o judeu é um sujeito vingativo.
Seu próximo filme, Django Unchained, segue a mesma inspiração. O personagem Django se une a um matador e parte em uma trilha de vingança em busca da mulher, raptada por um fazendeiro. E claro, onde há vingança, há muito sangue.

Kurt Russel como Stuntman Mike, o predador que acaba destruído pelas mulheres em 'À Prova de Morte'
O gosto de Tarantino por tramas vingativas começou cedo, assistindo a filmes de blacksploitation. Ele diz que essas produções são suas referências, e não o mainstream.
"Os filmes de vingança eram grandes nos anos 1970. Eles funcionavam. Você via um e era fisgado. É quase impossível assistir a Coffy (filme de 1973 sobre uma enfermeira que vê a irmã viciada em drogas morrer e decide se vingar de traficantes) com uma plateia e ela não ser fisgada. Quando estreou, as pessoas ficavam de pé e gritavam a plenos pulmões para que ela explodisse aqueles caras. Filmes de vingança foram os primeiros em que fui totalmente tomado dessa forma".
MULHERES NADA FRÁGEIS – Há espaço para lágrimas e tristeza, mas não para meninas frágeis nos filmes de Tarantino. Sobre a personagem vingativa de Kill Bill, ele fala: “É o que eu penso do gênero de meninas fodonas, que é uma peça básica do cinema asiático, que realmente adoro. Estou meio torcendo secretamente para que Kill Bill inspire alguma menina de treze anos a colocar um pôster de Uma Thurman em seu macacão brilhante, ou talvez faça com que alguma adolescente asiática que não tem um modelo a seguir se inspire por Lucy Liu na tela e se sinta fortalecida”, diz ele.
 
 
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