Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 06.12.2011 06.12.2011

Livro coloca a obra de Neil Gaiman no divã

 
Por Carolina Cunha
Na foto, Neil Gaiman
 
Poderia ser um mago de chapéu pontudo. Mas foi um sujeito chamado Morpheus, protagonista da série Sandman, quem colocou o nome do escritor britânico Neil Gaiman no mapa dos quadrinhos. O eterno Morpheus, o Senhor dos Sonhos, tecelão das histórias de todos os seres capazes de sonhar, ainda é o seu personagem mais conhecido no Brasil.
 
Desde que alcançou a fama com a série de quadrinhos, considerada uma das mais influentes do nosso tempo, pouca coisa mudou. O autor de 51 anos continua a se vestir de preto, seu cabelo ainda se parece com o de Morpheus, ele continua colecionando livros (sua biblioteca tem mais de cinco mil volumes) e, o mais importante, escreve sem parar.
 
E foi essa necessidade quase compulsiva de escrever que o transformou num verdadeiro contador de histórias, que saíram dos quadrinhos para ganhar páginas em romances, contos, livros infantis, séries para TV, roteiros para cinema, poemas e até letras de música.

Agora, é ele quem vira personagem no livro Príncipe de Histórias – Os Vários Mundos de Neil Gaiman. Nesse lançamento da Geração Editorial, o escritor recebe um tratamento de “super star”.

 
Com prefácio de Terry Pratchett, o livro dos autores Hang Wagner, Christopher Golden e Stephen R. Bissette funciona como um guia detalhado da trajetória do escritor e de seu complexo universo criativo.
 
Obra por obra, de 1988 a 2008, tudo o que um fã de carteirinha procura está lá: resumos de todas as histórias (dos quadrinhos aos romances), curiosidades, descrição e origem de personagens, entrevistas exclusivas com o escritor, artigos, além de conversas com pessoas que já colaboraram com ele, como os ilustradores Dave McKean e Philip Craig Russell.
 
A paixão do escritor inglês por literatura fantástica vem desde cedo. Na infância nos anos 60, Neil Gaiman devorava livros de fantasia e quadrinhos de super heróis, como Thor e Batman. Mas foi a leitura de C.S Lewis (Crônicas de Nárnia), Michael Moorcock e J.R.R.Tolkien, que despertou sua paixão por histórias. Tanto que ao contrário de muitos garotos, não queria virar astronauta. Queria ser a pessoa que tinha escrito o livro O Senhor dos Anéis.
 
O legado de Sandman
 
Neil Gaiman faz parte de uma geração de escritores ingleses que invadiu a indústria de quadrinhos americana na década de 1980. Um dos primeiros foi Alan Moore, criador das HQs  Monstro do Pântano (1983) e V de Vingança (1981).
 
Naquele momento, o mercado estava adotando o formato graphic novel, que apresenta roteiros bem elaborados e mais densidade psicológica. E foi com Sandman que o selo Vertigo, da DC Comics, consolidou o gênero e o levou a outros patamares.
“Gaiman desenvolveu um estilo de escrita que dialoga com diferentes referências da literatura e da cultura pop. Isso atribuiu à sua produção – e a ele, por extensão – um ar mais maduro, lido pela crítica e pelo público como um novo modo de narrar quadrinhos”, analisa Paulo Ramos, especialista em quadrinhos e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
 
Gaiman faz narrativas sombrias e mágicas, povoadas por seres mitológicos, criaturas e personagens densos. “Gaiman cria mundos ricos e detalhados. Ele está sempre muito bem embasado e vai fundo num universo, resgatando histórias, deuses esquecidos e rituais. Pesquisa muito e sabe usar essas ideias a favor do seu próprio trabalho”, diz Érico Borgo, editor do site Omelete.
 
O personagem Sandman
 
Para criar o reino dos sonhos, Gaiman bebeu da fonte de mitos bíblicos, nórdicos, lendas europeias, árabes e africanas, criando assim uma nova mitologia. Tudo isso sem esquecer as referências da cultura pop como mutantes, jovens góticos e ícones do rock (Lúcifer foi inspirado em David Bowie e as letras de Tori Amos aparecem em algumas de suas histórias).
 
“Ele foi um dos inauguradores de um gênero de fantasia e de ficção. A linha Vertigo é fruto total do trabalho que o Gaiman fez, e ele ajudou a definir outra maneira de escrever quadrinhos”, diz o jornalista Heitor Pitombo, autor de Entes Perpétuos – O Universo Onírico de Neil Gaiman, livro que avalia a carreira do escritor.
 
Outro feito de Gaiman foi alcançar um público até então pouco representado nos quadrinhos – as mulheres. Uma brincadeira comum nos anos 90 é que, para introduzir a namorada no universo dos HQs, bastava presenteá-la com um exemplar de Sandman. “A década de 90 tem a ascensão da estética das super gostosas e dos machões musculosos. De repente, aparece o Gaiman escrevendo sobre mulheres de verdade. Ele sempre fez personagens femininos marcantes”, lembra Borgo.
 
O voo para a literatura
Tem gente que envelhece sem conseguir sonhar. Não é caso de Gaiman. Em 1991, foi o primeiro roteirista de quadrinhos a ganhar um prêmio literário, o World Fantasy Award, por melhor conto – ele havia recontado o clássico Sonho De Uma Noite De Verão, de Shakespeare. Depois, fez obras como Stardust (um conto de fadas adulto), Anansi Boys e Neverwhere. Todas refletindo uma certa “identidade”, encontrada nos quadrinhos.
“Depois de Sandman, ele manteve o mesmo estilo de escrever. O que mudou foi que ele não se contentava em escrever para um formato só. Ele definiu seu estilo na época do Sandman, com uma abordagem onírica, de sonho e fantasia”, diz Heitor Pitombo.
 
Gaiman alcançou o respeito da crítica americana com o livro Deuses Americanos (2001), considerado o seu grande romance. Uma espécie de “roadmovie nos livros”, a história conta a vida de imigrantes nos Estados Unidos que trouxeram seus deuses com eles e, seduzidos pela vida moderna, começam a abandoná-los aos poucos.Em 2012, o livro deve virar um seriado da HBO.
 
Sua primeira obra infantil foi O Dia em que Troquei meu Pai por Dois Peixinhos Vermelhos (1997), depois veio Coraline (2002) e Os Lobos Dentro das Paredes (2003).
 
 
Coraline é o que mais se destaca entre esses. É um conto de fadas sombrio, que foi rejeitado pela primeira editora, temendo que fosse assustar as crianças. Gaiman foi bater em outra porta. Publicado, o livro virou Best-seller nos EUA, com direito a adaptação para os cinemas.
“A última grande obra de Gaiman foi a Coraline. Mas ele ainda pode surpreender e fazer algo de mais impacto”, diz Borgo.

 

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