Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.04.2011 29.04.2011

Literatura futurista, mais uma febre no mercado editorial para os jovens

Por Renata Megale

O mercado editorial brasileiro já começa a viver nova tendência para os adolescentes, ou YA – young adults (jovens adultos, em tradução literal), como são chamados nos Estados Unidos. Depois da febre dos vampiros, que dominou a lista de mais vendidos por vários meses, vislumbra-se a chegada de uma onda de lançamentos sobre cidades futuristas, onde quase tudo é possível.

Até aí, não há muita novidade. Os leitores juvenis já devoraram livros ambientados em um mundo fantástico, como Harry Potter, sucesso mundial de venda e responsável por deixar sua autora J.K. Rowling a mulher mais rica da Inglaterra, ou O Senhor dos Anéis, onde lutas entre o bem e o mal, com magias e feitiços, arrebataram os leitores. Mas nesta nova safra de lançamentos adiciona-se a este ambiente fantástico dilemas e soluções associados à vaidade humana. As histórias passam a trazer cirurgias em busca da perfeição ou mesmo sociedades em que tudo pode ser controlado através de pílulas. É o caso da série Feios (Record), de Scott Westerfeld, e Destino (Objetiva), de Ally Condie.

Esta nova temática fantástico-futurista dos livros reflete certo cotidiano vivido pelos jovens no mundo atual. “Os personagens destes romances passam por dilemas que o próprio leitor se identifica, como a perda de privacidade e a luta com o espelho em busca da perfeição física”, comenta a psicóloga Renata Carolo Nepomuceno.

A série Feios, de Scott Westerfeld, por exemplo, tem suas raízes na beleza estética, uma referência ao culto do mundo das celebridades, à busca pelo corpo perfeito e de um modelo ideal inatingível. A série já foi traduzida para mais de 25 línguas e é considerada um fenômeno de vendas, alcançando o topo da lista dos mais vendidos em muitos países, dando a dimensão de que talvez estas questões sejam realmente  relevantes preocupações no universo dos adolescentes dos dias de hoje.

Feios é protagonizada por Tally Youngblood que, antes de completar 16 anos, fica extremamente ansiosa por se tornar perfeita. No mundo de Tally, a chegada a esta idade significa passar por uma operação que a transformará de “feia” em um ser incrivelmente belo e perfeito, o que lhe dará passe livre para uma vida de glamour, festas e diversão, onde seu único trabalho é aproveitar muito.

Scott Westerfeld, é formado em filosofia no Texas e tem mais de 15 livros publicados. Já ganhou diversos prêmios, como o Victorian Premier e Aurealis, além de ter recebido o título de Melhor Livro para Jovens Adultos pelos livros Vampiros em Nova York (Record, 2008) e Feios (Record, 2010). Ambos entraram na lista de mais vendidos do New York Times desde quando foram lançados. Aqui no Brasil, o selo Galera Record lançou os dois primeiros volumes, Feios e Perfeitos. O próximo, Especiais, está previsto para o primeiro semestre de 2011 e o último, Extras, ainda não tem previsão de lançamento.

Em entrevista por e-mail à revista SaraivaConteúdo, Westerfeld afirmou que a vontade e a ideia para a série vieram através de uma conversa com a sua cunhada, que trabalha com efeitos visuais para o cinema. “Ela estava me contando sobre os efeitos especiais de embelezamento das atrizes nestes filmes e como elas se tornavam praticamente perfeitas nas telas através destes recursos. Isso aguçou uma curiosidade muito forte em mim: até onde a tecnologia vai chegar para nos tornarmos seres perfeitos e atender as demanda do mercado?”, questiona o escritor.

“O que eu gosto na ficção científica é que os temas podem ser simples e superficiais. As mensagens são meros desdobramentos. Por exemplo, os rusties (nossa civilização) destruíram o mundo. Em Feios, as pessoas não têm tempo para filosofar sobre isso, elas têm que simplesmente consertar o estrago. Elas também não têm tempo para pensar no significado da beleza e porque ela é tão importante. Elas estão muito ocupadas fugindo de pessoas que querem arrancar seus rostos e lhes dar outros melhores”, conta  Westerfeld, que acredita ser esta a única série que vai escrever.

Ser adolescente é algo muito intenso e Westerfeld tenta imaginar como isso se dá em um futuro distópico. “Os dias bons na adolescência são mais excitantes do que qualquer outro que você viverá na vida adulta, e os dias ruins são o fim do mundo.” O autor acredita que os adolescentes leem de modo tão intenso quanto vivem: conversam com seus amigos na linguagem dos livros, gritam alto quando algo dá errado. “Então e-mails de fãs adolescentes são igualmente intensos. Eles não hesitam em me dizer onde errei ou onde acertei. Muitas vezes são bastante encorajadores, mas sempre honestos. Acredito que todos os jovens se identifiquem com estas questões pontuais do meu livro. Historicamente, grande parte da ficção é fantástica – mitos, contos de fadas etc. A tendência do chamado ‘realismo’ é a grande novidade, e ela ainda não provou ser algo que irá durar para sempre. Acredito que os adolescentes estejam mais próximos ao modo primordial de se contar uma história, onde alguém é levado a um lugar diferente daquele onde vive”, acrescenta.

Além de Feios, um dos grandes lançamentos aguardados para abril deste ano é o livro da norte-americana Ally Condie, Destino (Objetiva). Primeiro volume de uma trilogia homônima, o livro foi lançado em novembro de 2010 nos Estados Unidos. O segundo volume, Crossed (Encontro), está programado para novembro deste ano e o último volume, ainda sem nome, para dezembro de 2012.

A autora, que abandonou a carreira de professora de inglês do ensino médio para se tornar mãe, começou a escrever por hobby. Antes de Destino, publicou outros cinco romances para jovens. Segundo ela, o universo do livro foi inspirado em uma série de pequenas experiências ao longo de sua vida. “Coisas aparentemente simples, mas que me marcaram de forma profunda, como uma conversa com meu marido sobre o futuro e o meu baile de formatura. Acho que o meu livro é diferente das obras do mesmo gênero exatamente por estar centrado em questões mais introspectivas”, afirma Condie.

Poucas semanas após a publicação nos Estados Unidos, o livro já figurava na lista de mais vendidos do New York Times, e três meses depois os direitos do primeiro livro da série já haviam sido vendidos para mais de 30 países. Na história criada pela autora,
o futuro parece muito tranquilo. Os indivíduos têm acesso à educação, emprego e todo o bem-estar que um governo pode proporcionar – as ruas são extremamente limpas e organizadas e os meios de transporte são modernos. Mas é esse mesmo governo, a quem todos chamam agora de Sociedade, que decide onde se deve morar, o que comer, onde trabalhar, como se divertir, com quem se casar e quando se deve morrer.

A protagonista Cassia tem absoluta confiança nas escolhas que a Sociedade lhe reserva. Como a maioria das meninas, aos 17 anos, ela já está pronta para conhecer seu Par. Quando surge numa tela o rosto de seu amigo mais querido, Xander – bonito, inteligente, atencioso, íntimo dela há tantos anos –, tudo parece bom demais para ser verdade. Mas depois logo outro nome surge como um possível futuro para ela e, a partir deste impasse, o livro cria um clima de angústia e expectativa em função da culpa que a adolescente sente por estar se desviando do que a Sociedade espera.
 
O ciclo das duas obras vai percorrer também o circuito cinematográfico, como virou praxe para os livros que se destacam neste segmento editorial. Destino já está com os direitos vendidos e será produzido pela Disney em associação com a Offspring Entertainment, após uma acirrada disputa com a Paramount Pictures. De acordo com Westerfeld, a adaptação de Feios ainda está sendo negociada. “Essa ainda é uma possibilidade e há financiadores e roteiristas envolvidos. Mas ainda não há diretores ou atores, então nada irá acontecer em breve.” Para se tornar algo ainda mais verossímil com a série, o autor acredita que o ideal seria fazer com atores pouco conhecidos, “porque todos sabemos lá no fundo que as grandes estrelas de cinema são lindas, mesmo quando fingem ser feias”, conclui.

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