Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.09.2010 27.09.2010

Lima Barreto, entre o hospício e o cemitério

Por Bruno Dorigatti
   Fotos do livro Diário do hospício e Cemitério dos Vivos (Cosac Naify, 2010)


Affonso Henriques de Lima Barreto deu entrada pela primeiravez no Hospital Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, na Urca, na entãocapital federal, em 18 de agosto de 1914. Aos 33 anos, transtornado e comalucinações supostamente provocadas pelo abuso do álcool, ele teve que serdetido e levado na camisa de força, a pedido de seu irmão. A esta altura, jáhavia publicado em livro Recordações doescrivão Isaías Caminha. Editado em Portugal, em 1909, o romance sobre umrapaz do interior do Rio que vinha tentar a sorte na capital, acaba portrabalhar na imprensa e se depara com os maneirismos, trejeitos e vícios donosso jornalismo, é recebido por um silêncio estrondoso, que incomoda o jovemescritor e jornalista. Dono de uma verve crítica e ácida, sem papas na língua,ele criticava abertamente as transformações pelas quais passavam o país e ojornalismo nativo. Esperava a crítica e o confronto e foi recebido com osilêncio. Assim seria por quase toda a sua vida. Editou em folhetim mais umromance, Policarpo Quaresma, onde sevolta contra a República instaurada em 1889, em especial a figura de FlorianoPeixoto, editado em livro em 1915, às suas custas. 

Entre a trajetória errante como jornalista e escritor que batalhavapara conseguir ver seus textos ficcionais publicados, Lima Barreto enfrentoualguns infernos pessoais, como o preconceito que sofreu na EscolaPolitécnica, onde reprovou repetidas vezes, sem conseguir se formar, por contado preconceito de alguns professores. Ou ainda a doença do pai, que enlouqueceue manteve-se doente, em casa, vindo a falecer dois dias depois do próprio Lima,em 1922. Com a vida boêmia nos botequins, movida a cerveja e paraty, bebida abase de cachaça, Lima Barreto buscava esquecer ou minimizar o preconceito e asadversidades que enfrentava. E acreditava na força e no poder da Literaturapara enfrentar com força e vigor os calvários e porres, como homenageia oescritor João Antonio no título do livro dedicado ao mulato de Todos os Santos,subúrbio carioca. 

A degradação física pela qual passou Lima foi veloz, hojesabemos. E graças a duas fotos inéditas até bem pouco tempo. A primeira delas, foi descoberta pela pesquisadora e professora Beatriz Resende, a primeira, em2004, quando organizava, junto com Rachel Valença, Toda crônica, lançada em dois volumes pela Agir, em 2005 e quecobre o período de 1890 a 1922. Presente no livro, a foto mostra Lima Barretono momento da sua segunda internação, em 1919, com a cara inchada e sinais dadegradação que a vida atribulada lhe causou. A segunda, foi descobertarecentemente por Daniela Birman, jornalista e pós-doutoranda em Literatura Brasileira no Iel/Unicamp, com a pesquisa “”Confinados: escrita e experiência do cárcere em Lima Barreto e Graciliano Ramos””. De cinco anos antes, registra o momento da primeira internação, em 1914, de um Lima Barreto ainda jovem, 33 anos, com a barba rala por fazer, o olhar incisivo e que mantémainda a juventude sem maiores traços do que estaria por vir. 

A segunda internação, além de ter sido voluntária, já queLima pede para ser levado ao Hospital dos Alienados, em dezembro de 1919,demonstra a consciência do escritor com a decadência do seu estado não sófísico, mas mental também (A foto acima é da segunda entrada no Hospital dos Alienados, em dezembro de 1919). Além disso, como que para recuperar a sanidade emanter uma ligação, ainda que tênue, com o mundo que engolfava o belíssimopalácio na entrada da Urca, onde se situava o hospício, Lima passa a escreverum diário, exercício para um romance que ele não chegaria a ver editado. 

Agora, chega às livrarias uma nova edição conjunta de ambos, Diário do hospício e Cemitério dos vivos , organizada porAugusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, também responsáveis pelaselucidativas notas de rodapé, que pela primeira vez contextualizam quem eram osmédicos, corrigem falhas de edições anteriores e sugerem interpretações apassagens de Lima Barreto até então não aventadas por outros estudiosos. Alémdisso, o volume conta com fotos de época, um ensaio de Alfredo Bosi comoprefácio e a reunião, ao final, de contos e crônicas do próprio Lima sobre oassunto, e de outros escritores, como Machado de Assis, Raul Pompéia e OlavoBilac, como que a demonstrar a importância que o tema da loucura, ou melhor, doencarceramento dos considerados loucos, teve no período de meados do século XIXaté o início do século XX. Um belíssimo trabalho, a altura do grande escritor ejornalista que Lima Barreto foi, e que ajuda a contextualizar o que teria sido,para alguns daqueles que se dedicam à obra do autor, o seu principal romance,que não chegou a ser finalizado. Para além desta discussão, é mais umaoportunidade de se deparar com a verve pungente e vigorosa de um dos nossosmaiores. 

A seguir, a conversa com Augusto Massi, professor de literaturana USP, editor da Cosac Naify e um dos organizadores do volume, realizadaquando do lançamento do livro, no Rio de Janeiro, em meados de setembro, quecontou com debate entre Massi e Beatriz Resende. 

 

Por que Lima Barreto,e porque editar este livro especificamente agora? 

Augusto Massi. Partiu,na verdade, de um ensaio que o Alfredo Bosi escreveu. Nós não tínhamos o livro,mas um ensaio sobre esse livro. Ele foi meu professor e orientador de doutoradona USP e, como estou na Cosac Naify, ele me perguntou se teria interesse noensaio. Lecionei e leciono período colonial e modernismo na USP. Sempre uso ficção,prosa, crônica e poesia, essencialmente ligado ao modernismo pra cá. Achei queera interessante eu cuidar da edição, por uma coisa afetiva. Chamei o MuriloMarcondes de Moura, que também é meu colega em literatura brasileira e aluno doBosi. 

Mas, à medida que fui estudando, via que tinha muitosespecialistas sobre esse assunto. Muitas estudam Lima Barreto: Antonio ArnoniPrado, Beatriz Resende, entre muitos outros. Pensei então em confrontar asedições e fazer algumas notas. Mas, no fundo, as notas eram um meio de euaprender sobre aquele período. E quando comecei a fazer este trabalho, fui mechocando com o fato de que para as edições anteriores, havia sido estabelecidoum texto, pelo Francisco de Assis Barbosa [autor da biografia A vida de Lima Barreto. José Olympio,2002. 8. ed.], lá na década de 1950. E de lá para cá, houve edições como a daBiblioteca Carioca, uma edição mais cuidada [Diário do Hospício e Ocemitério dos vivos, org. Ana Lúcia M. de Olveira, Diva Maria D. Graciosa eRosa M. de Carvalho Gens. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura,1993]. Saiu uma edição recente pela Planeta [O cemitério dos vivos. Prefácio de Fábio Lucas, org. e notas deDiogo de Hollanda. São Paulo: Planeta, 2004].

  

As supresas 

Massi. Achei quenão fosse encontrar surpresas, mas para minha sorte, num certo sentido, eu batiem algumas notas que tinha que fazer e comecei a achar que tinha assunto. Paradar um exemplo: [Massi apresenta ovolume] este livro de Henrique C. R. Lisboa, A China e os chins, foi publicado em Montevidéu, em 1888 [A China e os chins: recordações de viagem.Montevidéu: A. Godel, 1888]. Um livro de um diplomata brasileiro, que foi emmissão, “ex-secretário da Missão Especial Brasil na China”. O Lima Barreto citaesse livro [p. 212 desta nova edição da Cosac Naify]. Todo mundo menciona, dánome, mas acho que ninguém foi ver, pegar o livro. Francisco de Assis Barbosacitou, está lá. Aí fui atrás, procurei em sebos, e descobri que o livro tinha umasérie de ilustrações. E uma delas, bastante chocante, é a razão de ele tercolocado o nome de O cemitério dos vivos.Esta imagem [mostra a ilustração naedição original do livro, que reproduz uma estrutura precária de palha e bambuparcialmente coberta, com aberturas laterais e doentes moribundos e famélicos]é um cemitério de vivos, em Cantão, são pessoas muito doentes, afastadas doconvívio. Estas imagens certamente impressionaram muito o Lima Barreto, a pontode escolher como título de seu romance. Engraçado, que no primeiro livro comquem fui topar tinha coisa nova. Ninguém havia me dito que o livro erailustrado, com uma imagem do cemitério. E pensei, “bom, deve ter mais coisa”.

  

Jules Verne 

Massi. Continueia minha pesquisa. Tem um trecho no diário onde ele menciona o Jules Verne.  Está no hospício, foi ler o Verne e lembrou-sedo pai [Eis o trecho desta nova edição, p.102-103: “A minha literatura começoupor Jules Verne, cuja obra li toda. Aos sábados, quando saía do internato, meupai me dava uma obra dele, comprando no David Corazzi, na rua da Quitanda.Custavam mil-réis o volume, e os lia, no domingo todo, com afã e prazerinocente.”]. Reproduzi algumas imagens, fui atrás para poder reproduzir tudo oque achava que era possível e que pudesse ajudar o livro. 

As pessoas faziam as edições sem fornecer muitos dados sobrecertas passagens. Achei interessante, já que David Corazzi aparece como DanielCorrazzi em todas as edições anteriores [Mérito, 1953; Brasiliense, 1956; BibliotecaCarioca, 1993; Graphia, 1998; e Planeta, 2004]. Topei depois com esteportuguês, que tinha uma casa editorial em Lisboa, e cujo nome era David, e nãoDaniel. Quando fui ver quem ele era, descobri que havia ganhado um prêmio naExposição Portuguesa, no Rio de Janeiro, e na Exposição Universal, em Paris,pelo esmero das edições, todas ilustradas, coloridas. Isso que parece uma nota,da correção de um nome, interpretativamente, muda aqui a relação. Lima Barreto,garoto, estudante, menino, ainda sem trabalhar, sustentado pelo pai, que nãoera um homem rico, tampouco miserável, que se esforçava para comprar toda aobra do Jules Verne para o filho em edição de capa dura, ilustrada, colorida.Nessa passagem você entende que era uma alegria, quando ele menciona o livro, opreço, o prazer que lhe trouxe. 

No fundo, este erro se repetiu porque ninguém quis desafiaro Francisco Assis Barbosa. A edição dele é máxima, maravilhosa, não tem nem oque discutir: ele salvou Lima Barreto. Só existe Lima Barreto hoje porque elepegou todos os manuscritos e materiais na casa da irmã do Lima, doou para aBiblioteca Nacional, realizou as primeiras edições definitivas. Mas aquilo meintrigou. E comecei a levantar todos os livros. Então, mais que realizar aedição para publicar o ensaio do Bosi, passou a ser uma coisa pessoal, minha edo Marcondes.

O hospício comoassunto 

Massi. E havia ahistória do hospício, muito interessante, que começa no Império, como HospícioD. Pedro II, depois muda o nome na República, o que mostra muito essa concepçãodo Brasil, e vira Hospício Nacional dos Alienados. E, no século XX, viraHospital dos Alienados. Na década de 1940, passa a ser a Universidade doBrasil, que vira depois a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É umacoisa engraçada, o prédio serviu a muitas coisas, e as pessoas não sabem. 

Percebi que ali tinha um assunto: o Brasil foi um dos principaisa países a construir um hospício de primeira. E os psiquiatras estudavam sem consideraro Lima Barreto. Tem estudos sobre o manicômio judicial, tem grandes lances decrimes feitos na época, por tenentes etc. e eles, para não serem presos, eram acusadosde loucos, pagavam uma pensão, ficavam no andar de cima do hospício e selivravam da pena. 

Outro estudo interessante é sobre os médicos e psiquiatrasque atuavam no hospício, como José Carneiro Airosa, Aluísio de Castro, HenriqueBelford Roxo. Eles eram metidos a literatos, o Lima Barreto os odiava, muitosentraram para a Academia [Brasileira de Letras], escreviam livros e eram osmédicos da época. Então o Lima entra desconfiando de todos. Mas procurei saberquem realmente tinham sido estes médicos. Por exemplo, Adauto Botelho, tinha 24anos quando Lima Barreto encontra com ele no hospício, era um residente, estavaterminando o último ano de medicina. Não procurei defender os médicos, mascontextualizar, dar a idade, os dados para as pessoas refletirem. A partir de1930, todos eles desempenharam grandes funções nos governos de Getúlio Vargas,alguns viraram políticos. No meio deles, tem um chamado Humberto Gotuzzo, umdândi. Lima Barreto teria tudo para odiar esse cara, branco, dândi, livresco.Mas ele trata bem o Lima, dá papel e lápis e diz: “Escreva, te empresto meuescritório”, e tira ele dos quartos do hospício. Todos falam do JulianoMoreira, mulato como Lima, figura importantíssima, que merece uma biografia,ainda não realizada. Entrou aos 13 anos para a Faculdade de Medicina, na Bahia,casou com uma mulher que sabia alemão, branca, viajou o mundo todo. E formouuma geração de psiquiatras excelentes, reconhecidos no Brasil. E o LimaBarreto, além de gostar do Juliano Moreira, um homem muito gentil com ele,atencioso, bom médico, gostou do Gotuzzo, que não tem esse perfil. E pouco encontravasobre ele, que aparece no livro do Brito Broca [Vida literária no Brasil, 1900 (José Olympio, 2005. 4. ed.), comoum médico um pouco afetado, que gostava de se vestir bem, conhecido porfreqüentar a alta sociedade. No entanto, ele foi muito humano com o LimaBarreto.

  

Crônicas do hospício 

Massi. E ao finaldo livro, selecionei várias crônicas do Lima Barreto sobre o período em que eleficou lá. Numa das crônicas, ele menciona: “Meu amigo Humberto Gotuzzo, mepermitiu contar um caso de um louco, se eu não desse os nomes…” Então elecontinuou vendo estes médicos, tanto Juliano Moreira como Humberto Gotuzzo. Fuipercebendo que ali tinha uma vida. Não era uma internação só infernal. Edescobri que, depois, alguma vez em que ele sentia que ia ficar mal e quequeria escrever, ele pedia aos médicos para arranjarem um quarto para ele, ondeele voluntariamente ficava lendo e escrevendo. 

Então é preciso relativizar esse lado, muito marcado nosensaístas, todos que seguem uma linha de leitores de [Michel] Foucault, “vigiare punir, a clínica psiquiátrica…” Aqui, esta crítica pode ser feita, só que,pelas brechas e desajustes do Brasil, você tinha um médico que de repente eramulato, baiano e estava dirigindo o hospício. Isso já muda tudo. A simpatia doJuliano Moreira pelo Lima Barreto, que sabia ser ele escritor, um homem culto.Percebi que poderia ser uma edição diferente, que servisse ao psiquiatra, aohistoriador e ao literato. Também achei que não poderia fazer uma edição rica,no estilo da Cosac Naify. Vou falar de uma situação dramática, não era adequadofazer um livro nos padrões que geralmente fazemos. Nós buscamos uma linguagemgráfica que pudesse dar conta desse livro [Tanto o prefácio na abertura dovolume, como o apêndice com as crônicas ao final são impressos em papelreciclado. O livro em si –  Diário dohospício e Cemitério dos vivos  –,em papel branco]. 

 E tudo o quepesquisei, coloquei ao final, em um apêndice, com fotos da época, os contos ecrônicas do Lima, de como foi preso pela primeira vez, a primeira internação,quando é denunciado pelo irmão e vai de camisa de força, num camburão, preso.Isso o revolta e ele escreve este conto, “Como o homem chegou”. Depois, ele fezvárias crônicas, onde dá estes dados. Tem uma entrevista, de quando ele está nohospício. Em outro texto, “A lógica do maluco”, fala de quando foi internado noHospital do Exército. Todos estes textos explicam como ele voltou a esteassunto muitas vezes e isso não é relacionado. 

Pesquisando ainda sobre o período e o tema, descobri queoutros cronistas haviam escrito sobre o tema, especialmente sobre o que causouimpacto no Rio de Janeiro, a inauguração do hospício. Machado de Assis, que vaiescrever “O alienista”, tem duas crônicas espetaculares, uma comentando de umcara que fugiu do hospício. E ele levanta a questão, “como nós vamos lidar comisso?” Além do Machado, Raul Pompéia e Olavo Bilac também escreveram sobre otema. Ou seja, nas outras edições aparece sempre como um drama pessoal do LimaBarreto e, de repente, começo a perceber que a questão do hospício eradiscutida pelos principais escritores do período. Os três grandes, Pompéia,Bilac e machado escreveram. Isso era um tema. Não à toa que Machado escreve “Oalienista”, e não só por conta do tema da razão, mas o hospício era um tema daépoca. E uma das razões era que o prédio era lindo, e isso impressionava aspessoas. Estava mais afastado, na entrada da Urca, uma arquitetura neoclássica,feito com o maior capricho. As duchas eram espetaculares, as camas, de primeira.Ele foi um modelo de um hospital psiquiátrico, que todo mundo elogiava. Sótinha na França e no Brasil, os países de vanguarda, aquela coisa estranha. Eem pouco tempo aquilo entra em decadência. Aí nova reforma, novo espaço paraficar em destaque, depois nova decadência. E a própria sociedade é tão desigualque o hospício, quando surgiu, era para recolher os loucos que eles viam narua. Em pouco tempo, o hospício virou uma prisão. O cara bebia, não é louco,mas manda pro hospício, e os guardas levavam.

  

Os romancespornográficos 

Massi. Em relação às notas, aquilo ajuda a abrir umcaminho, às vezes. Por exemplo, o Lima Barreto tem dois romances pornográficos.Isso nunca foi rastreado. Foi escrito durante a produção dos outros romances,para ganhar dinheiro. Só li uma notinha a respeito, com o nome dos livros, quesaíram sob pesudônimo. Um chama Chamiçoe o outro fica entre Era o homem e Erra o homem. Você não sabe direito, maspercebe a graça. Certamente, estes dois romances não estão no material do AssisBarbosa. Mas como não tem o nome dele e as pessoas que escreveram a respeitonão mencionam o Lima, não se sabe o pseudônimo, nem o nome da editora. OFrancisco de Assis Barbosa menciona isso em uma nota, no meio de outras coisas. 

Isso é um tema interessante, pois se fala que ele não teverelacionamento com mulheres constantemente. Há sempre uma capa sobre isso. Masele fala pra caramba de mulher. Isso, para o moralismo da época, e por eleandar com prostitutas também, não se falou. Quando fazem o relatório da fichade internação, não dizem o que ele teve, como cancro mole, gonorréia, sífilis.Mas hoje temos mais liberdade para ver que ele teve relacionamentos que podemaparecer e dialogar com as questões que estão no Diário íntimo e no Diário dohospício. Isso me chama muito a atenção. 

Beatriz Resende. Podeser até que o Chico [de Assis Barbosa] soubesse, mas ele quer, naquele momento,consolidar as obras do Lima. Mesmo a questão de raça, que não trato no livroque organizei [junto com Rachel Valença. Todacrônica (1890-1922) 2 vol. Agir, 2005], o biógrafo também não abordou. Efoi uma opção, estava tratando de um autor. Esta entrada de 1914 do LimaBarreto no hospício é interessantíssima. Porque o Assis Barbosa reproduz tudo,menos a observação: “Cor: branco”. Já em 1919, ele é considerado pardo. Porqueem 1914, quem faz a anotação é um médico que o conhece, sabe que ele éescritor. Aí é um pouco a história do Machado de Assis, que nasce pardo e morrebranco. É curioso que o Assis Barbosa transcreveu tudo, mas pula a cor. 

Massi. Outra coisaque me intriga são as histórias sobre a aparência dele. Sergio Buarque deHollanda e Monteiro Lobato o teriam visto em situação deplorável, bêbado. Háoutra história de um amigo que o encontro maltrapilho e lhe dá um chapéu novo,que Lima troca pelo de um mendigo. E ele menciona isso em carta a um amigo,“não negociar com esses caras, querem que eu me arrume, não vou negociar”. 

Resende. “O meufigurino esbodegado”, ele dizia. 

Massi. São coisasque me chamam a atenção. Sempre lemos sobre o Lima marginal, oculto e não é bemassim, não corresponde a isso. Ele era um homem que colaborava com revistas,não faltava emprego a ele. 

Mas não era na grandeimprensa, né? Porque no Correio da Manhãé antes de ele se tornar escritor [em 1905]. Depois de lançar o primeiro livro,só escreveu em jornais como ABC, Careta 

Massi. E mesmoassim ele começou, no final, a ter prestígio. Ele tinha adoradores, os carasdavam livros para ele. Muitos escritores estreantes o escreviam pedindo opiniãosobre seus livros. 

Resende. Vale apena mapear essa roda que o cercava ao final, que vai fundar o PartidoComunista, em 1922.

Massi. Se vocêpensar que ele é pobre porque se sentia a ralé da ralé, é uma coisa. Outra éele ter um orgulho de defender o subúrbio, defender o jeito que ele se vestia.Ele é um cara mais complexo do que pode aparentar. E ele poderia negociar, masnão quis. 

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