Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 27.08.2014 27.08.2014

Líder do Bangalafumenga, Rodrigo Maranhão lança o CD ‘Itinerário’

Por André Bernardo

Quem vê Rodrigo Maranhão tirando o pé do chão no Bangalafumenga, ao som de ritmos vibrantes, como funk, samba e rock, não imagina que, no aconchego do lar, ele gosta de se render a gêneros mais intimistas, como seresta, chorinho e fado.
Por essa razão, os milhares de foliões que, todos os anos, curtem um dos mais eletrizantes blocos de rua do carnaval carioca não vão reconhecer traços de seu idealizador nas 11 faixas de seu terceiro trabalho solo, Itinerário (MP,B/Universal).“Quando estou à frente do Banga, me sinto mais empresário e produtor do que propriamente músico. Queria voltar a fazer música como na época em que estudei violão clássico na faculdade. Minha relação com a música era diferente”, observa.
Apesar de não renegar o bloco que ajudou a fundar em 1998, Maranhão admite que, por causa dele, sobra pouco tempo para gravar discos solo. Em sua discografia, só constam Bordado, de 2007, e Passageiro, de 2010.
Em sua nova incursão fonográfica sem o Banga, compôs 11 músicas, 8 delas sozinho. “Iara” e “Rua da Preguiça” foram compostas com PC Castilho, e “Mantra” com Pedro Luís. Das canções novas, não esconde o chamego por “Madrugada”, gravada em dueto com o cantor português António Zambujo. “Um dia, o Zamba perguntou por que eu não compunha um fado. Daí, falou da métrica, tudo em sétima, essas coisas. Quando ele canta, é um fado. Mas, quando toco, é um choro”, acha graça.
Ao contrário do que acontece nos shows do Banga, que reúnem uma média de 180 ritmistas, Maranhão entrou em estúdio com apenas três músicos: Marcelo Caldi, no piano e sanfona; Nando Duarte, no violão de sete cordas, e Pretinho da Serrinha, na percussão. Talvez por isso o álbum tenha sido gravado em tempo recorde: cinco dias.

“A gente já chegou ao estúdio sabendo o que queria fazer”, explica. No dia 20 de setembro, Maranhão faz o show do álbum Itinerário na Miranda, Zona Sul do Rio. Até o fim do ano, deve passar por outras capitais e dar um pulinho em Lisboa, onde tem público cativo. “Até por uma limitação física, não me vejo no Banga por muito mais tempo. Já era para eu ter parado aos 40”, confessa.

Um dos destaques de Itinerário é a faixa “Madrugada”, que conta com a participação de António Zambujo no vocal e de Bernardo Couto na guitarra portuguesa. De onde vem sua ligação com Portugal, onde você já se apresentou três vezes?
Rodrigo Maranhão. Vem do meu avô materno, Seu Lopes. Quando eu era moleque, a gente morava perto um do outro ali no Posto Seis, em Copacabana. A gente morava na Sá Ferreira e ele, na Souza Lima. Eu ia muito à casa dele. Nessas horas, ele falava de Portugal com muita saudade. Dizia que tinha chegado aqui com 15 anos. Mas, infelizmente, nunca mais conseguiu voltar para casa. Herdei dele a paixão pelo mar. Seu Lopes é um pedacinho de mim que veio de longe. “Madrugada” não deixa de ser uma homenagem a ele.
Você compôs “Maria das Graças” depois de assistir a um show da Gal no Circo Voador, no Rio. A Gal nunca pediu para gravar uma de suas músicas?
Rodrigo Maranhão. Confesso que, nesse sentido, sou um pouco incompetente. Sei que a Gal está gravando um disco novo agora. Sei também que, por causa disso, eu podia entrar em contato com ela, mandar algumas inéditas para ela ouvir, essas coisas. Mas o Banga me ocupa tanto tempo que acabo deixando outras coisas de lado. Algumas cantoras, como Maria Rita, Roberta Sá e Verônica Sabino, quando vão gravar disco, ligam para mim, pedindo música. Daí, eu mando 15 e elas escolhem uma 16ª… (risos). Quanto à Gal, assisti ao show dela no Circo. Quando o show acabou, fiquei com uma vontade louca de compor. Como eu queria que, um dia, ela cantasse alguma música minha…
Em sua discografia constam os álbuns Bordado, de 2007, Passageiro, de 2010 e Itinerário
Você já foi gravado por inúmeras cantoras, como Maria Rita, Roberta Sá, Zélia Duncan, Fernanda Abreu e Verônica Sabino. Na maioria das vezes, como surgem essas composições? Você trabalha por encomenda?
Rodrigo Maranhão. Nas poucas vezes em que trabalhei por encomenda, errei. A pessoa ouvia a música e dizia: “Ah, mas não é bem isso o que eu queria. Mas tem uma música sua que…”. Daí, ela acabava gravando a outra (risos). Quando componho, não penso nessa ou naquela intérprete. Penso em mim ou no Banga. Para mim, escrevo canções. Para o Banga, música. Parece preconceito, mas não é. Uma coisa não é melhor do que a outra. Sou apaixonado por canção, melodia, harmonia. Gosto de compositores que cantam suas próprias músicas. Por isso, mesmo não tendo grandes dotes vocais, eu me aventuro a cantar. Nesse aspecto, o Chico (Buarque de Hollanda) é um grande exemplo.
Das 11 canções do álbum Itinerário, três foram compostas em parceria. No caso de “Iara”, o que tem de ficção e realidade na letra dela? A personagem-título é inspirada em alguém que você conheceu em suas andanças pelo subúrbio do Rio?
Rodrigo Maranhão. Diria que ela é uma junção das várias Iaras que conheci nos tempos em que trabalhava em Madureira. Quando faço parceria, geralmente boto a música. No caso de “Iara”, é das poucas canções que escrevi letra. A música não passa de uma brincadeira. É como se fosse uma “Garota de Ipanema” suburbana. O balanço da menina do subúrbio é diferente do da garota de Ipanema. A Iara da canção é completamente fictícia. Isso acontece também em outra canção, “Eu Não Sei Seu Telefone”. O amor platônico é meio recorrente na minha obra.
Só este ano, o Bangalafumenga atraiu um público estimado em 90 mil pessoas, segundo a Riotur. Esse público vai ter interesse de ouvir o álbum Itinerário?
Rodrigo Maranhão. Alguns, sim. Outros, não. Confesso que, às vezes, esse gigantismo do Banga me incomoda um pouco. Quando você menos espera, o público que está ali não é mais aquele que queria ouvir uma poesia ou estava aberto a experimentações. Então, o Banga fica um pouco refém disso. Mas veja bem: não estou renegando o Banga. Preciso dele. Sei que foi graças ao Banga que conquistei coisas que até pouco tempo pareciam inimagináveis. Mas sei também que, sozinho, ele não me basta. Ainda sinto falta de algo. Em algum momento da minha carreira, vou ter que optar. Até por uma limitação física, não me vejo no Banga por muito mais tempo. Saio do palco completamente encharcado.
Não é todo artista que pode se dar ao luxo de ter um Grammy em casa. O fato de ter ganhado um em 2006, na categoria melhor canção brasileira, por “O Caminho das Águas”, não aumenta a responsabilidade em torno de suas novas músicas?
Rodrigo Maranhão. “O Caminho das Águas”foi um marco na minha carreira. Jamais vou fazer outra igual. A Maria Rita resolveu gravar essa música numa época em que eu já estava quase desistindo de compor. Até então, eu compunha para tocar em casa, para a minha mulher, na hora do jantar. Quando comecei a divulgar meu trabalho solo, tive vergonha de convidar as pessoas para assistir ao meu show. Na minha cabeça, aquelas canções eram muito íntimas e pessoais. Hoje, superei isso (risos). Tive outras canções, como “Rap do Real”, “Baile da Pesada” e “Samba de Um Minuto”, que, por diferentes motivos, me marcaram tanto ou mais que “O Caminho das Águas”. Já trilhei esse caminho, sabe? Agora, chegou a vez de explorar outros.
Em seu terceiro álbum solo, o cantor e compositor de 43 anos se arrisca a compor fado, presta homenagem a Gal e diz que não se vê tocando no carnaval por muito mais tempo
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