Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.06.2012 13.06.2012

Lesley Pearse se prepara para lançar ‘Belle’, seu segundo livro no Brasil

Por André Bernardo
Sobrevivente. É assim, em apenas uma palavra, que a escritora britânica Lesley Pearse se define. Desde que a mãe morreu, quando ela tinha apenas três anos, peregrinou por diversos orfanatos. Em alguns deles, foi vítima de maus-tratos físicos e psicológicos. Na adolescência, colecionou algumas experiências amorosas malsucedidas e, já adulta, pelo menos três casamentos fracassados. Hoje, aos 68 anos de idade e 19 de carreira, Lesley gosta de cantarolar a música “I Will Survive”, sucesso na voz da cantora Glória Gaynor. “Atualmente, posso dizer que levo uma vida feliz. Tenho três filhas, dois netos, 20 livros e alguns cachorros. Depois de tudo o que vivi, ainda gosto de me beliscar às vezes para ter certeza de que não estou sonhando”, brinca a autora.
 
No exterior, Lesley Pearse já vendeu 7 milhões de exemplares e foi traduzida para mais de 30 idiomas. Por aqui, apenas um de seus 20 livros já foi publicado: Roubada, em agosto de 2011, pela Editora Novo Conceito. Diante da repercussão favorável, outra obra já está a caminho: Belle, que vai chegar às livrarias em julho deste ano. “Olha, até pouco tempo atrás, eu diria que meu livro predileto é ‘Never Look Back’, mas, hoje em dia, já não tenho tanta certeza assim. Modéstia à parte, ‘Belle’ também é um livro muito bom…”, garante a autora. Ao que parece, Belle é tão bom mesmo que já encorajou a escritora a criar uma continuação, A Promessa, ainda inédito no Brasil. “Puxa, eu me afeiçoei tanto a Belle que simplesmente não consegui me despedir dela”, admite.
 
A primeira das 20 publicações de Lesley, Georgia, foi lançada em 1993, quando a escritora já tinha 49 anos. Em quase duas décadas de carreira, manteve a espantosa produção de publicar um livro por ano. Por isso mesmo, é de estranhar que nenhum deles já tenha sido adaptado para o cinema. “Já ouvi pessoas alegarem que meus livros são grandes demais para virarem filmes. Pessoalmente, não acredito nessa versão”, minimiza Lesley, que já contratou um agente para negociar os direitos de Belle com algum estúdio de Hollywood. “Antigamente, eu ficava horas imaginando quais atores poderiam interpretar meus personagens. Hoje, não perco mais tempo com isso. Espero que, um dia, meus livros virem filmes. Mas, pelo jeito, esse dia só vai chegar quando que eu já estiver morta…”, ironiza Lesley.
 
 
Você já vendeu sete milhões de exemplares e foi traduzida para 30 idiomas. Acredita que seria a escritora bem-sucedida que é se não tivesse enfrentado as turbulências que enfrentou?
Lesley. É difícil saber, mas eu arriscaria dizer que não. Pode até ser que, na hora em que tudo aconteceu, eu tivesse outros caminhos a percorrer, outras decisões a tomar, mas, às vezes, a impressão que se tem é que o caminho é um só. Agora, é fácil olhar para trás e pensar: “Ah, eu poderia ter feito assim ou assado…”. Mas, na hora, eu não tinha alternativa. Meu primeiro marido era um sujeito muito sensível e maduro. Ele pedia para eu não sentir ciúmes de coisas que aconteceram a ele no passado. Explicava que nós somos um somatório de tudo o que vivemos. Sou obrigada a concordar com ele. Eu não seria a pessoa que sou hoje em dia se não tivesse vivido o que vivi ou trilhado os caminhos que trilhei. O meu passado me deu munição suficiente para escrever os livros que escrevi.
 
Alguns temas são recorrentes em sua obra, como maus-tratos na infância e adoção de crianças carentes. Você acredita que suas histórias ajudem os leitores a superar os dilemas que você superou?
Lesley. Tenho certeza que sim. Quando escrevi meu terceiro livro, Camellia, eu comecei a receber cartas de fãs, que me contavam histórias que você não é capaz de imaginar. Acredito que tenha feito muito bem a eles escreverem aquelas cartas para mim. Deve ter sido libertador colocar no papel histórias que eles nunca contaram para ninguém. Eu me sinto feliz e recompensada. Muitos dos meus leitores foram crianças adotadas. E alguns deles escreveram para mim agradecendo por eu ter dedicado o livro a elas, crianças adotadas. Eu só queria que soubessem que nenhuma criança é abandonada porque suas mães querem. As pessoas não fazem ideia de como era difícil, naquela época, para uma mãe solteira criar seu filho. Não havia apoio financeiro ou psicológico. Era marginalizada pela sociedade. Em muitos casos, as mães solteiras eram praticamente obrigadas a entregar os filhos para adoção. Se não o fizessem, sofriam ameaças e chantagens.
 
 
Das muitas cartas que recebeu, qual delas chamou mais a sua atenção?
Lesley. Quando ouço alguém dizer que amou um dos meus livros, tenho a certeza de que estou fazendo um bom trabalho. Gosto de pensar que faço as pessoas rirem, chorarem, se emocionarem. Você acredita que cheguei a ser pedida em casamento por um leitor da Tailândia? Provavelmente, ele se encantou com a foto da modelo na capa de um dos meus livros e, coitado, achou que aquela foto fosse minha. Tirei uma foto de verdade, quando tinha acabado de acordar, para ele ver como eu era realmente. Você sabe que ele nunca mais tornou a me escrever? (risos) Por que será? O que terá acontecido a ele? (risos)
 
Você perdeu sua mãe muito nova, aos três anos. Na ocasião, você e seu irmão, Michael, foram mandados para orfanatos diferentes. Qual é a lembrança mais forte que você guarda dessa época?
 
Lesley. Sim, perdi minha mãe em circunstâncias trágicas, quando eu tinha três anos. Como meu pai trabalhava na Marinha e não tinha condições de criar dois filhos pequenos, eu e meu irmão, Michael, fomos mandados para orfanatos. As experiências que vivi naquele lugar estão retratadas em Trust Me, meu sexto livro. Não guardo boas recordações de lá. Também, pudera! Na primeira noite em que dormi no orfanato, acordei de noite e fui ao banheiro. No caminho, me deparei com um crucifixo enorme que me deixou apavorada. Estava com tanto medo que urinei no chão. Quando souberam disso, as funcionárias do orfanato fizeram questão de esfregar meu nariz na urina. Essa é a lembrança mais remota – e também a mais horrível – que guardo daquele lugar. O orfanato onde meu irmão ficou, pelo que ele me conta, era ainda pior. Felizmente, meu pai não desistiu de nós e se casou de novo, alguns anos depois, só para nos tirar de lá. Ele era um homem bom…
 
 
Pode-se dizer que a literatura seja uma forma de livrar-se dos fantasmas do passado?
Lesley. Ah, com certeza! Não é à toa que já escrevi sobre orfanato em dois dos meus livros. Foi o jeito que encontrei para exorcizar os meus demônios. Sempre que possível, aconselho os outros a fazerem o mesmo. Escrevam sobre aquilo que os entristece. Quando você coloca para fora as coisas ruins da vida, consegue visualizá-las melhor. Logo, consegue enfrentá-las melhor também.
 
 
Você saberia dizer qual foi a fase mais feliz de sua vida? E também a mais difícil?
Lesley. Ah, a fase mais feliz da minha vida foi quando meus filhos eram pequenos. Meu marido trabalhava fora de casa de segunda a sexta, e eu e as crianças tínhamos todo o tempo do mundo para brincar no jardim. Foi nessa época que comecei a escrever. Eu gostava de sentar com eles no jardim e contar histórias que eu mesma criava. Sempre gostei de contar histórias. Quando era criança, costumavam dizer que eu tinha uma imaginação fértil. Bem, quanto à época mais difícil da minha vida, não é fácil escolher… Foram tantas… (risos) A pior delas foi quando eu tinha 50 anos. Havia acabado de lançar meu segundo livro, Tara, quando me senti obrigada a me separar do meu marido. Para piorar a situação, meu tio morreu nessa mesma época… Puxa, estava tudo ruindo ao meu redor. Felizmente, sobrevivi. Exatamente como na música da Glória Gaynor… (risos) Hoje, levo uma vida feliz. Tenho três filhas, dois netos, 20 livros e alguns cachorros. Depois de tudo o que vivi, ainda gosto de me beliscar às vezes para ter certeza de que não estou sonhando.
 
 
Se pudesse voltar no tempo e mudar algo, o que seria?
Lesley. Ah, essa é fácil… Eu não perderia tanto tempo com homens ridículos… (risos) Passei grande parte da minha adolescência me sentindo sozinha e isolada. E, acredite: você toma muitas decisões erradas quando se sente desse jeito… Meus namorados iam e vinham. Meus empregos também… Se pudesse voltar no tempo, acho que teria cursado uma universidade. Naquela época, eu não tinha muita paciência para estudar. Mas tento não me arrepender de nada do que fiz ou do que deixei de fazer. É perda de energia!
 
 
Escritores costumam dizer que livros são como filhos: todos são amados por igual. Você tem um predileto entre os 20 que escreveu?
Lesley. Olha, até pouquíssimo tempo atrás, eu diria que meu livro predileto é Never Look Back, mas, hoje em dia, já não tenho tanta certeza disso. Modéstia à parte, Belle também é um livro muito bom… (risos) Para escrever Never Look Back, tive que pesquisar a fundo a história dos EUA. Só de livros, foram mais de 200. Passava dias e dias visitando museus e bibliotecas. Gosto muito da Conquista do Oeste. Cresci assistindo a filmes de cowboy… (risos) Antes de escrever Never Look Back, tive a curiosidade de refazer o caminho traçado pelos pioneiros norte-americanos. Só que, em vez de diligência, usei carro… (risos)
 
 
Você costuma emprestar muito de si para as personagens que cria? O que a Belle tem da Lesley Pearse?
Lesley. Gosto de pensar que sou tão corajosa quanto algumas de minhas personagens, mas não estou certa disso. O mais perto que uma personagem chegou de mim foi Camellia, protagonista do meu terceiro livro. É a mais autobiográfica de todas. Hoje em dia, prefiro criar personagens da minha imaginação a buscar inspiração em mim mesma. Até hoje, minha irmã acredita que tudo o que está escrito nos meus livros já aconteceu comigo… Quando ela leu Belle, ambientado num bordel de Paris, ficou realmente impressionada. “Puxa, Lesley, me diga, por favor, que isso não aconteceu com você!” “Pode ficar tranquila. Nunca tive coragem para isso…”. (risos)
 
 
Lá fora, você já publicou a continuação de Belle. O que motivou você a escrever The Promise?
Lesley. Puxa, eu me afeiçoei tanto a Belle que não queria me despedir dela. Daí, tive a ideia de escrever uma continuação. Além disso, sempre quis ambientar uma das minhas histórias na Primeira Guerra Mundial. Como a história de Belle terminava em 1914, pensei: “Acho que chegou a hora!”.
 
 
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