Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 11.02.2017 11.02.2017

Ler, ver, pesquisar… A vida de um cool hunter

Por Sarah Corrêa
As roupas que você veste, as músicas que tocam nas pistas das baladas, os livros dispostos nas prateleiras de livrarias, um destino turístico surpreendente, os assuntos discutidos na mesa do bar e as personalidades estampadas nas capas das revistas.
Antes mesmo de você pensar em consumir qualquer coisa, há um time de profissionais empenhados em entender suas escolhas e captar ideias criativas que aparecem nas ruas todos os dias.
Esses especialistas, que vivem para pesquisar os gostos culturais e antecipar o comportamento da humanidade, são os pesquisadores de tendência (do termo em inglês ‘cool hunter’). Sua missão? Encontrar aquilo que é original e forte o suficiente para despertar a atenção das pessoas no futuro.
Cool hunting é selecionar informação pela sua relevância, com base no impacto que ela tem, pelo seu frescor, sua beleza, seu poder de inspirar. Todo mundo hoje tem muito mais acesso à informação. A grande diferença do cool hunting para a análise de tendências é saber interpretar e correlacionar todo esse mar de conteúdo”, explica Lucas Liedke, diretor de pesquisa de tendência da agência paulistana Box 1824.
Com o lema “de olho em tudo”, a rotina de Lucas inclui muita leitura de revistas e livros, passeios em diferentes bairros com uma câmera à mão, a escuta atenta de histórias, cliques em vídeos na internet, idas ao cinema e até viagens com foco na visita de espaços culturais e galerias de arte. E, sempre que possível, vivenciar experiências reais que ajudem a abrir a cabeça.
“Muito conhecimento prévio também ajuda. Para imaginar o amanhã, tem que se ter uma boa ideia do que aconteceu ontem. É preciso sempre um grande cuidado em entender quem é o nosso cliente e qual é a sua realidade. Pois uma tendência sempre é tendência para alguém, mas para outra pessoa ou marca pode não ser mais, ou pode estar muito distante do seu espaço de atuação”.
Olhos abertos, mentes em ebulição!
Ainda considerada uma nova área no Brasil, com maior atuação desde o início dos anos 2000, a prática da pesquisa de tendência ou – cool hunting – existe há quase duas décadas no exterior.
Uma das consultorias mais renomadas nessa área é a italiana Future Concept Lab, que começou a se interessar pelo assunto no final dos anos 80. Há dois anos, sua equipe desembarcou de Milão para São Paulo, onde inaugurou seu primeiro escritório brasileiro.
Sabina Deweik é a coordenadora das atividades da agência por aqui e também dá aulas sobre o assunto na Escola São Paulo. No currículo, ela carrega um curioso caminho acadêmico: graduação em jornalismo e dois mestrados, em Comunicação & Semiótica e Comunicação de Moda. Muitos estudos, muitas leituras
“Uma vez cool hunter, sempre cool hunter”, diz Sabina, que enxerga sua profissão como a arte de ver coisas que não são percebidas no mundo de hoje e que podem virar uma tendência de comportamento. Apesar de o termo remeter diretamente ao mundo da moda, Sabina explica que o universo desses “caçadores” vai muito além.
Para ela, qualquer campo da sociedade pode se beneficiar desse profissional, que bebe da fonte de diversos conhecimentos como psicologia, sociologia, artes visuais, marketing, história e muita cultura pop.
Sabina Deweik, coordenadora do escritório brasileiro da agência italiana Future Concept Lab
“As pesquisas analisam grupos, que podem definir valores sociais em micro e macro tendências. Não é um estudo que se prende ao campo estético da moda. Pelo contrário. Essas pesquisas abordam diferentes esferas”.
E se o campo de conhecimento é vasto, não por acaso, as habilidades que um cool hunter precisa ter são relacionadas a entender e ouvir as pessoas, cruzar informações dos quatro cantos do planeta e ter uma boa bagagem cultural, mantendo a mente e as estantes sempre atualizadas.
“Curiosidade, observação, grande capacidade de comunicação, poder intuitivo e atitude tolerante. Além de uma boa capacidade fotográfica, já que trabalhamos também com a análise de muitas imagens”, enumera Sabina, sobre as qualidades de um bom especialista nessa área.
Além de estar sempre lendo muito, Sabina revela ser uma profissional multifacetada. Ela também faz atendimento aos clientes e desenvolve projetos para novos parceiros. Essa personalidade multidisciplinar deve ser uma forte característica de um pesquisador de tendência, como reconhece Lucas Liedke.
“É necessário que a pessoa tenha alto senso crítico, seja extremamente criativa, sensível às novas linguagens e comportamentos, e multidisciplinar”, avalia.
Leitura Antenada
Os cool hunters entrevistados pelo SaraivaConteúdo indicam alguns livros encontrados em suas prateleiras:
Diferente – Youngme Moon
O que faz um negócio ser diferente dos outros? Em seu primeiro livro, a professora de Harvard propõe uma reflexão sobre a inovação em marketing e posicionamento das marcas.
Observatório de Sinais – teoria e prática da pesquisa de tendências – Dário Caldas
O universo da moda é o ponto de partida para o autor avaliar questões que influenciam a análise de uma tendência.
Modernidade-Mundo – Jean Chesnaux
Uma leitura fundamental para entender, através da visão de um historiador, as dinâmicas e diferenças sociais das grandes metrópoles.
Lógica do Consumo – Martin Lindstrom
Eleito uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, este dinamarquês estuda assuntos como a influência do cérebro no consumo e mostra como uma pesquisa deve ir além da entrevista e das respostas dadas.
Consumo Autoral – Francesco Morace
Organizado pelo diretor da pioneira agência de pesquisa de tendência, a Future Concept Lab, o livro traz a ideia de que o consumidor é independente e totalmente responsável por suas escolhas na hora de consumir.
Uma obra que oferece um panorama de vários movimentos e escolas artísticas ao longo da história da humanidade.
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