Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.06.2013 21.06.2013

Lendo o livro e o gibi, vendo a série e jogando o RPG

Por Marcelo Rafael
 
Na década de 1970, surgiu um novo tipo de diversão. Os jogos de interpretação (Role Playing Games, no original em inglês), mais conhecidos como RPGs, logo se tornaram fortemente influenciados pela literatura.Décadas depois, o caminho inverso foi traçado, e muita literatura surgiu a partir desses jogos.
O lançamento mais recente e de maior repercussão foi o primeiro volume de Wild Cards, de George R. R. Martin, lançado, no Brasil, em maio pela editora portuguesa Leya.
A série de livros do mesmo criador de As Crônicas de Gelo e Fogo foi concebida como um cenário de RPG, ou seja, a ambientação onde se passa a história do jogo. Martin fez isso apenas para se divertir com os amigos escritores de fantasia e ficção científica.
A ideia cresceu e, em 1987, veio a publicação do primeiro romance que utilizava o cenário. Agora, a obra chega ao Brasil. Já se vão 22 volumes, organizados por Martin, que contam várias histórias de muitos personagens em um mundo pós-II Guerra, infectado por um vírus extraterrestre desconhecido – as "Cartas Selvagens" do título.
“A série foi construída por diversas mentes inteligentes e organizada por um gênio”, afirma Raphael Draccon, responsável pela coleção no Brasil.
Os livros da franquia contam com todos os princípios de um bom jogo de RPG: várias classes de personagens (cada Carta corresponde a um tipo diferente), um ambiente rebuscado (pós-Guerra) e muito espaço para ação e aventura.
NO BRASIL
Mas não é de hoje que a literatura derivada dos jogos está nas prateleiras. Desde os anos 1990, a Devir Editora publica livros com histórias que expandem o universo dos RPGs lançados por ela.
Os romances de clãs contam as aventuras de personagens que protagonizam histórias do RPG Vampiro, A Máscara. As séries Vale do Vento Gélido e Dragonlance transportam o leitor para os cenários de fantasia medieval, semelhantes aos mundos de Caverna do Dragão e O Senhor dos Anéis.
 
PARA JOGAR SOZINHO
No meio do caminho entre o RPG e a literatura estão as aventuras-solo, como Curumatara, de Volta à Floresta e Conspiração Dumont, ambos da Devir.
Aventuras assim funcionam como uma boa introdução para quem quer se inserir no mundo de ação e emoção antes de pular para as regras mais complexas de um cenário de RPG.
Nesses obras, há uma narrativa central, como em um romance comum; porém, em determinado ponto, o leitor é instado a fazer uma escolha pelo protagonista ou determinar o desfecho de uma cena. Dependendo da decisão, a história pula algumas páginas e toma um caminho diferente.
Foi essa emoção de decidir os rumos da trama que levou Guilherme Dei Svaldi a se apaixonar por RPG e afins. “Meu irmão Rafael comprou pra mim A Cidadela do Caos, no início dos anos 1990. Foi minha porta de entrada para o mundo de fantasia e literatura nerd. Desde então foi uma coisa que eu sempre quis trazer de novo para o Brasil”, conta.
Após se tornar adulto, ele e o irmão resolveram fundar a Jambô, uma pequena livraria em Porto Alegre que acabou se transformando em uma editora. E Guilherme realizou seu desejo de infância: como editor-chefe, adquiriu os direitos de publicação da antiga série Aventuras Fantásticas, publicada no Brasil, nos anos 1990, pela Marques Saraiva.
Sob o nome de Fighting Fantasy, os livros foram lançados em edição especial de comemoração dos 30 anos de criação da série pelo norte-americano Ian Levingstone.
QUADRINHOS
Outro tipo de literatura saída dos cenários de jogos são as HQs. No Brasil, a mais famosa, sem dúvida, foi publicada a partir de 1999 e ultrapassou 40 edições. Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, fez tanto sucesso que ganhou duas vezes o Troféu HQMix e foi finalista no International Manga Award, para mangás publicados fora do Japão.
A popularidade fez com que a Jambô reeditasse, no final de 2012, as primeiras histórias da série, em edição de luxo, com extras. Ainda este ano, deve sair o volume 2.
Holy Avenger é ambientada no cenário nacional conhecido como Tormenta, criado pouco antes de 1999, nas páginas da extinta revista Dragão Brasil, por Marcelo Cassaro, Rogério Saladino e J. M. Trevisan.
“Eles (os criadores) produziam muito conteúdo (na revista). E Tormenta foi justamente a junção de vários desses conteúdos: cenários, personagens, aventuras. Mas aquilo tudo não era coeso, e Tormenta foi justamente a ideia de criar um mundo onde tudo isso podia interagir”, conta Guilherme.
Desse mesmo cenário surgiram, também com roteiro de Cassaro e traço de Awano, DBride: A Noiva do Dragão, em 2011, em grande formato, reunindo as histórias publicadas na revista Dragon Slayer, e a série Ledd, de J. M. Trevisan e Lobo Borges, atualmente no Vol. 2.
 
                                                                                                                               Lobo Borges
Ledd se vale do mesmo ambiente em que os personagens de DBride e Holy Avenger desenvolvem suas histórias

Em ambos os casos, os personagens são completamente diferentes de Holy Avenger. Mas estão lá os mesmo locais, os mesmos deuses, os mesmos monstros, a mesma magia e a mesma História.

E o cenário ainda gerou as Crônicas de Tormenta, livro com uma série de contos de autores como Leonel Caldela, Ana Cristina Rodrigues, Douglas MCT, Rogério Saladino e o próprio Raphael Draccon, além do prefácio de Eduardo Spohr.
Tudo para que os fãs do RPG possam continuar próximos do mesmo universo fantástico onde rolam os dados e atuam como aventureiros.
CAMINHO INVERSO
Algumas vezes, porém, a lógica segue o caminho inverso e grandes obras da literatura, como O Senhor dos Anéis, acabam sendo adaptadas para que os fãs possam, de fato, “entrar” na história. Em 2002, quando a adaptação cinematográfica explodia nas telas do cinema, a Devir publicou, no Brasil, a versão em jogo.
Já a Jambô, para a alegria dos fãs da série, publicou a versão RPG de A Guerra dos Tronos. E Guilherme avisa: vem mais por aí!
 
 
Recomendamos para você