Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.01.2013 17.01.2013

Leila de Souza Teixeira escreve contos espelhados

Por Luma Pereira
 
Relacionamentos, morte, criação artística, guerra. Esses são alguns dos temas de Em Que Coincidentemente Se Reincide, primeiro livro individual da nova autora Leila de Souza Teixeira, que já participou de coletâneas.
 
A obra traz um aspecto muito interessante: são onze contos espelhados – o primeiro tem relação com o último, o segundo com o penúltimo, e assim por diante. Cada história está, de alguma maneira, ligada à outra – o livro é cheio de coincidências e reincidências. A capa, de autoria de Krum Chorbadzhiev – galhos se ramificando no espaço azul –, ilustra bem essa maneira que Leila escolheu para escrever as histórias.
 
A autora nasceu em Passo Fundo (RS), no ano de 1979, e é formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, ela conta como seu caminho cruzou com o da literatura, levando-a a escrever esta obra.
 
De onde surgiu a ideia de fazer contos espelhados?
Leila. As personagens de contos que eu já tinha escrito começaram a aparecer nos novos contos que eu estava escrevendo. Percebi que eu estava escrevendo as mesmas histórias, mas sob outras perspectivas. A reincidência das personagens me fez pensar em um projeto de livro, no qual os contos da primeira parte continuavam na segunda parte. Às vezes de modo sutil. Às vezes de forma bem explícita. Mas as histórias continuavam. Cada conto levou a média de seis meses para ser escrito (uns escrevi em dois meses, outros em dois anos).
 
Como você começou a se interessar por literatura?
Leila. Meu interesse por literatura começou na infância. Era muito incentivada a ler pelos meus pais. Amava meus livros, em especial os do Monteiro Lobato – A Chave do Tamanho – e do Ziraldo – O Joelho Juvenal. Tinha vários caderninhos onde escrevia histórias, que eram bem variadas. Na maioria, aventuras nas quais eu e meus primos éramos os heróis. Mas a de que eu mais me lembro é bem diferente das outras. Chamava “A Mata Sementinhas”: era uma versão da gênese do mundo – o mundo tinha surgido de uma chuva de sementes, das quais nasciam os animais, as plantas, os homens. Mas a visão de literatura como “aquilo-que-vou-fazer-quando-crescer” só surgiu depois dos 25 anos, quando comecei a ir a oficinas, debates e eventos literários. Só não vejo a literatura como carreira, até porque, atualmente, exerço uma atividade paralela a escrever: presto consultoria jurídica, sobre direito contratual e direito do petróleo, para uma empresa. Vejo a literatura, sim, como a tarefa que dá significado à minha existência.
 
Por que escolheu relacionamentos, morte, criação artística e guerra como temas?
Leila. Não sei dizer, mas o livro acabou girando ao redor desses temas. Com certeza não foi uma opção racionalizada, tipo “Eu vou escrever sobre isso”, mas, sim, uma escolha inconsciente: quando surgia a ideia de um novo conto, aquela ideia acabava tendo relação com o fato de termos consciência da nossa própria morte, ou com a vontade humana de transformar as vivências em arte, ou com as formas que criamos para lidar com as perdas. Acho que eram temas que me incomodavam na época em que estava escrevendo o livro. Não que não me incomodem mais, porque não é fácil para ninguém de nós saber que vai morrer. No entanto, não sinto mais a angústia que esses temas geravam em mim. Talvez escrever o Em Que Coincidentemente Se Reincide tenha ajudado a diminuí-la.
 
Como foi a escolha dos títulos dos contos? E do nome do livro?
Leila. Os títulos são sempre uma escolha muito difícil para mim. O título “(Ana)”, por exemplo, foi sugestão do Charles Kiefer [escritor brasileiro, vencedor de três prêmios Jabuti], pois a personagem Ana está entre parênteses na história do marido e do melhor amigo dela. O “Corte seco” é um tipo de corte na edição, um corte abrupto, como foi a morte da personagem. O “A outra volta do soldado” e o “Palimpsesto de Sür” são ‘diálogos’ com os contos “A volta do soldado” (Hemingway) e “El sur” (Borges). O “Ato III” faz o mesmo com o ato III da peça Hamlet (Shakespeare). O “Noctiluca” foi uma brincadeira de resposta ao Água Viva, de Clarice Lispector. Escolhi a alga noctiluca, porque é um animal marinho também, mas, por ser unicelular, muito menor que a água viva. Além disso, a visão da noctiluca com o movimento do mar pode fazer parecer que ela acende e apaga, como o personagem do conto, que está entre o deslumbramento e o medo diante da vida. Já Em Que Coincidentemente Se Reincide é o título de um dos contos e se relaciona com a ideia geral do livro: a de que gerações passam, tempos mudam, mas continuamos repetindo medos e angústias, reincidindo em erros e padrões.
 
Em Que Coincidentemente Se Reincide é o título da primeira obra desta nova autora, lançada pela editora Dublinense
 
Como você definiria seu estilo de escrita? Que escritores a influenciam?
Leila. Acho difícil definir o próprio estilo. Os escritores que mais me influenciaram foram Borges, Cortázar e Hemingway. A Clarice influenciou bastante o conto “Noctiluca”. Além de influências literárias, acho que tive muitas influências do cinema também: o modo rápido como as cenas se sobrepõem, os silêncios, a composição das fotografias. O 8 e 1/2 (Fellini), que é meu filme preferido da vida, influenciou a metalinguagem que há em muitos dos contos do livro.Vou citar onze diretores dos quais posso falar que gosto de todos, ou quase todos, os filmes que eles fizeram: Fellini, Godard, Wong Kar Wai, Kubrick, Win Wenders, Hitchcock, Tarantino, David Linch, Woody Allen, Truffaut e Guy Richtie. Mas fazer essas listas é muito injusto, porque sempre acabo me esquecendo de alguém.
 
Como sua vida pessoal influencia o que você escreve?
Leila. Um pôr do sol que eu vi, uma história que me contaram, uma notícia no jornal. Tudo isso pode gerar a vontade de escrever um conto, um romance. Porém, por mais que se tente escrever exatamente o que se viu, o que se ouviu, o que se leu, a ficção nunca será igual à realidade. Então, a vida, não só a minha, é apenas fonte de inspiração. Não há nenhuma experiência direta minha, mas as descrições das ruas de São Paulo, das paisagens de Fernando de Noronha, Israel e Líbano, surgiram a partir da minha experiência pessoal, pois passei por aqueles lugares. O conto “Corte Seco” eu dediquei à Betina Molinos, amiga dos meus amigos, que nem conheci porque morreu muito jovem em um acidente em uma estrada de Minas Gerais. Porém, não considero experiência pessoal minha. Os dois contos que envolvem a guerra de 2006, entre Israel e Líbano, surgiram das histórias que eu ouvia dos meus amigos em Israel, quando morei lá em 2002, mas eu – ainda bem – não vivi diretamente nada daquilo.
 
Quais foram as facilidades e dificuldades que você encontrou para publicar seu primeiro livro?
Leila. Publicar livros, hoje, no Brasil, é muito fácil. A dificuldade maior é depois, na divulgação: fazer um autor novo ser lido é que é complicado. Se pensarmos no livro como um produto e no leitor como um consumidor, é natural que os leitores comprem o que já é consagrado. Nesse contexto, os novos autores têm que ser persistentes, buscar maneiras de divulgar suas obras: se os livros que escreveram forem bons, alguém acabará os ‘descobrindo’. Mesmo assim, não posso reclamar de nada. O livro está circulando bem pelo país: já teve lançamentos em Brasília, Passo Fundo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e duas vezes em São Paulo. Não posso reclamar de nada.
 
Quais são seus projetos futuros?
Leila. Nenhum projeto concreto por enquanto, mas várias ideias indo para o papel. Ainda estou descansando do Em Que Coincidentemente Se Reincide: fiquei cinco anos escrevendo ele, o que foi bem cansativo.
 
 
 
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