Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 17.01.2014 17.01.2014

Leandro Hassum e o trabalho como dublador

Por Cintia Lopes
 
Como se não bastasse levar o título de melhor estreia nacional em 2013 com o longa Até Que a Sorte Nos Separe 2 – conquistando um público de mais de 2 milhões de espectadores e tendo a oportunidade de contracenar com o ídolo Jerry Lewis -, Leandro Hassum, protagonista da sequência, também comemora o feito de ter ficado em cartaz praticamente durante todo o ano passado nas salas de cinema. Isso graças à função de dublador, que exerce desde 2008, quando estreou no longa Bolt – Supercão, da Disney, interpretando o divertido hamster Rhino.
De lá para cá, os convites foram surgindo e Hassum virou um dos nomes mais disputados pelos estúdios. Entre os trabalhos mais recentes estão a dublagem do peru Jake da animação Bons de Bico, junto com o parceiro Marcius Melhem, e o vilão Gru, de Meu Malvado Favorito 2.
Atualmente, além do cinema, ele também marca presença no humorístico Divertics, da Globo, e na dublagem do desenho Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma, exibido no Gloob e na TV Cultura. Nessa animação brasileira, Hassum dá voz a Stevie, uma baguete amassada que mora de favor no apartamento do amigo Osmar (voz de Melhem). “É mais um filão da minha profissão e que me dá muito prazer. Adoro dublar”, admite.
O ator de 40 anos credita a assiduidade nos estúdios ao fato de conseguir imprimir uma marca em cada trabalho. “Acho que tenho uma boa voz para dublagem. Nunca fiz curso específico, mas sempre procuro dar um tom diferenciado para cada personagem. Acaba dando certo”, explica ele, fã dos clássicos Caverna do Dragão, He-Man e Herculóides. “Sou fã mesmo. De alguns, sei até as falas de cor. Acho que assisti a todos os episódios. Os três marcaram muito a minha geração. São referências até hoje”, confessa.
Como é fazer um trabalho cinematográfico para o público infantil em que você não aparece em cena?
Hassum. Muitas vezes, o público realmente nem sabe que sou eu quem estou dublando. As crianças, então, não têm esse discernimento. É maravilhoso. Me divirto da mesma forma. Em 2013, fiz novamente a voz do Gru, do Meu Malvado Favorito 2. Adoro esse personagem. Gosto do sotaque dele, do jeito meio ranzinza. Também me chamaram pra fazer Turbo, da DreamWorks, mas eu já estava comprometido com outra dublagem e tive de recusar. Já fiz muito teatro infantil, então isso ajuda demais na composição. Sou formado pelo Tablado [tradicional Escola de Teatro do Rio de Janeiro] e acostumado com essa linguagem. Curto muito falar para criança.
A sua parceria com o Marcius Melhem acontece no teatro, na TV e no cinema. Qual a vantagem de “contracenar” com quem tem um estilo já conhecido?
Hassum. O trabalho de dublagem de animação é solitário. Gravamos as falas separadamente.  O que pode acontecer é que, talvez por uma possível falta de intimidade com o outro ator, o trabalho acabe sendo um pouco mais demorado. No caso do Marcius, como já temos anos de parceria, eu já até sei qual o tom que ele dará ao personagem ou como vai conduzir determinada cena. Nem preciso conferir ou conversar antes com ele. Nós temos uma química muito boa mesmo não estando de corpo presente. São 14 anos de trabalho juntos. Dublamos o primeiro Meu Malvado Favorito, Bons de Bico e o desenho animado Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma, que agora em 2014 deve virar longa também.
 
  Divulgação/Juliana Coutinho
Hassum e Melhem: sintonia até na dublagem
Bolt: estreia ao lado de Maria Clara Gueiros

Você tem liberdade para criar o tom da voz, o “jeitão” do personagem, ou precisa seguir à risca a orientação do estúdio?

Hassum. No caso das animações de grandes estúdios, há sempre uma supervisora de dublagem, geralmente norte-americana, que acompanha todo o trabalho no Brasil. Eles avaliam se está no padrão da original. Durante a dublagem do Gru (Meu Malvado Favorito 2), eu não estava conseguindo a entonação certa. No meio da dublagem, soltei um palavrão e dei uma surtada. A supervisora adorou! Ela disse: “Perfeito! É isso mesmo. Vamos manter dessa forma”. O estúdio todo caiu na gargalhada, porque ela insistia que estava “great”, e logicamente nunca poderia manter o meu palavrão no desenho [risos].
Qual a dica para fazer uma boa dublagem? Você utiliza alguma técnica especial?
Hassum. O grande barato, pelo menos para mim, é criar uma entonação diferenciada. Não acho que seja necessário para o público que vai assistir a uma animação dublada reconhecer a minha voz. Muitos realmente não me identificam. Acho ótimo, e talvez por isso surja tanta oportunidade nessa área para mim. Imprimir uma voz e tom diferenciados é muito legal. Um grande exercício também.
Muitos dizem que comediantes e humoristas não gostam de ser dirigidos. Isso é verdade?
Hassum. Eu prefiro ser dirigido. Existe essa falsa ideia de que comediante só trabalha no improviso, é muito autoral. Não é verdade. É claro que, com os anos de experiência, é possível dar uma "mexida" no texto, sugerir alternativas. Tudo é válido para uma boa contação de história. Além disso, a dublagem no Brasil é uma das melhores do mundo. Os atores e profissionais são realmente muito bons, e principalmente os diretores de dublagem, que dão toda a orientação e ótimas dicas.
Como é o processo de criação e o trabalho de dublagem nas animações?
Hassum. No início, é sempre mais difícil nas primeiras cenas. Até encaixar o personagem com o tipo que você criou é mais complicado. No Brasil, o trabalho é diferente, porque a gente dubla em cima de uma coisa que outro ator criou. Por exemplo, o Steve Carell faz o Gru na versão original. Então é preciso colocar a nossa marca, mas não pode destoar da interpretação que o ator norte-americano criou. Mas depois que você encaixa, se solta, brinca… fica muito divertido. Mas quando me convidam, as pessoas esperam que eu coloque um "molho", um humor a mais também.
Você já chegou a dublar até games como o jogo Allods, da Level Up. Como foi a experiência?
Hassum. É bem diferente. Foi uma experiência muito louca. É um processo doido. Para você ter noção, fiz a dublagem sem mesmo conhecer a animação do jogo. Então você entra no estúdio e grava falas e expressões como gritos, uivos, berros… Não foi "do c******" não [risos]. Eu dublava um ser de uma raça estranha chamada Gibberlings. Acredita? [risos]. Também, depois dessa, nunca mais fiz nada nessa área.
Até Que a Sorte Nos Separe 2 é um sucesso de público. Como foi a experiência de contracenar com o ídolo Jerry Lewis?
Hassum. Fiquei bem nervoso ao conhecê-lo e antes de gravar as primeiras cenas. Foi o momento mais importante da minha carreira. Foram apenas três cenas, mas todas muito marcantes para mim. Foi a primeira vez que Jerry participou e contracenou com atores sul-americanos. Uma grande honra para mim. Há um ano, fui assistir ao show dele em Las Vegas, e a partir disso surgiu a ideia. Foram meses de negociações, ajustes de agenda, mas no final deu tudo certo. No término das filmagens, ele me deu uma foto com dedicatória. Fiquei muito emocionado. Até fiz uma tattoo em homenagem a ele para marcar esse momento inesquecível.
E os próximos projetos para este ano?
Hassum. Acho que vou ficar nos cinemas durante boa parte do ano de novo [risos]. Teremos a estreia de Vestido para Casar, com direção do Gerson Sanginitto, no primeiro semestre. Em maio, começam as filmagens de Um Candidato Honesto, do Roberto Santucci. É uma espécie de versão brasileira do filme O Mentiroso, com o Jim Carrey. Estou muito animado com esse projeto. Depois, outros dois longas muito bacanas: Capitão Gay, em que vou fazer o próprio, claro! [risos]. Esse personagem incrível do Jô Soares, que eu adoro. Em seguida, Cinco Contra Um, com direção do Beto Silva. E também quero fazer as dublagens! Fico cansado só de falar.
 
Encontro com o ídolo Jerry Lewis em Até Que a Sorte Nos Separe 2
 
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