Bel Sanmax por Bel Sanmax Livros 30.08.2019 30.08.2019

Laurentino Gomes: “estudar a herança africana e escravagista é fundamental para entender a história do Brasil”

A relevância de Laurentino Gomes no cenário da literatura brasileira vai além do fato de ele ser um dos top 3 autores com mais livros vendidos no Brasil nos últimos cinco anos.

Os livros de autores brasileiros mais lidos pelo público

Laurentino, jornalista com mais de três décadas de carreira – quinze anos parte da redação da revista Veja, é também quem “desbravou” o campo da História do Brasil como tendência literária (cada vez mais crescente) entre os best-sellers no País. Com as obras 1808, 1822 e 1889, Laurentino relembrou aos brasileiros os fatos cruciais que permeiam a formação da Nação após a conquista pelos portugueses, em 1500.

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Da chegada da família real portuguesa, em fuga da invasão napoleônica na Europa, 3oo anos depois do Descobrimento, à subsequente elevação do País ao status de Estado autônomo, o autor e historiador desmascarou mitos e esclareceu detalhes sobre a até então desprestigiada – e verdadeira – história da construção do Brasil.

A urgência do conhecimento

Escravidão – Vol. 1 – Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares

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Se o período de quase cem anos, coberto por Laurentino nos títulos, demandava uma imprescindível ressignificação quanto à maneira como a biografia do Brasil era conhecida por seu povo, a próxima trilogia do autor é talvez o tema de maior relevância da nossa história, em todos os sentidos: a escravidão. “Tudo que já fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com as nossas raízes africanas e a forma como nos relacionamos com elas. E essas raízes são mais profundas do que se imagina”, explica o autor paranaense, que conduziu pesquisas em três continentes e em mais de doze países, como os Estados Unidos, Portugal e Angola, em um processo de estudo e realização que durou mais de seis anos.

“Uma sociedade, ou um país, que não estuda história é incapaz de entender a si mesmo porque desconhece as suas raízes. Como não sabe de onde veio, provavelmente também não saberá o que (ou quem) é hoje e muito menos o que será no futuro. Por isso, estudar história é uma tarefa. Só pelo estudo e pelo conhecimento de nossas raízes e de nossas características como nação será possível preparar, ou qualificar, os cidadãos brasileiros para a difícil tarefa de fazer escolhas e organizar a realização do país dos nossos sonhos” – Laurentino Gomes em entrevista ao blog da Saraiva

O primeiro volume da obra, cujo lançamento se dá em setembro de 2019, cobre um período de 250 anos, entre o primeiro leilão de cativos africanos registrado em Portugal, em 1444, até a morte do mais notório líder da resistência escrava, Zumbi dos Palmares, em  1695. Com caderno de imagens e mapas, o livro faz parte de uma trilogia, cujos próximos volumes, a serem publicados em 2020 e 2021, têm como foco o auge do tráfico negreiro, no século XVIII, o movimento abolicionista e fim da escravidão, além de um ensaio sobre a a prática escravagista desde os primórdios da história.

Entrevista: Laurentino Gomes

Em conversa com o blog da Saraiva, Laurentino Gomes discorre sobre as consequências políticas, econômicas e sociais da escravidão no Brasil, como o racismo perdura na cultura brasileira em todos os níveis, a triste realidade da escravidão contemporânea, que chega a superar os números do tráfico dos povos africanos do século 18, o papel de países como a França e a Holanda na propagação da prática e os pormenores da pouco conhecida “indústria” escravocrata da época, que até o século 19 foi  “o maior e o mais internacional de todos os negócios do mundo”. Confira.

Qual é a mais nefasta consequência da escravidão quanto aos rumos políticos e socioeconômicos no Brasil contemporâneo?

O racismo é uma consequência histórica, resultado da escravização de milhões de africanos de pele negra, mas também uma forma de hierarquização de poder. Essa é uma das consequências mais profundas e duradouras da escravidão africana nas Américas: o nascimento de uma ideologia racista, que passou a associar a cor da pele à condição de escravo. Por essa ideologia, usada como justificativa para o comércio e a exploração do trabalho cativo, o negro seria naturalmente selvagem, bárbaro, preguiçoso, idólatra, de inteligência curta, canibal, promíscuo, “só podendo ascender à plena humanidade pelo aprendizado na servidão”, na definição do africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva.

Sua vocação natural seria, portanto, o cativeiro, onde viveria sob a tutela dos brancos, podendo, dessa forma, alçar eventualmente um novo e mais avançado estágio civilizatório. Essa ideologia, no meu entender, permanece ainda hoje oculta nas formas preconceituosas de relacionamentos entre brancos e negros no Brasil. Isso faz com que, por exemplo, nas 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência sejam ocupados por negros. 

Os brancos são também a esmagadora maioria em profissões qualificadas, como engenheiros (90%), pilotos de aeronaves (88%), professor de medicina (89%), veterinários (83%) e advogados (79%). No meu entender, só a persistência de uma ideologia racista, que recusa oportunidades aos negros, explica essas diferenças.

Você acredita que o povo brasileiro vive em uma espécie de negação quanto à influência do período da escravidão na formatação da sociedade moderna?

O tema costuma ser muito popular no carnaval e outras manifestações populares, como se vê nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Apesar disso, são poucas as obras no mercado editorial que expliquem o assunto em detalhes e linguagem acessível ao leitor comum. Mesmo nos livros didáticos o assunto é geralmente tratado de forma secundária, como se não fosse um traço essencial e fundamental da construção da identidade nacional brasileira.

Estudar a herança africana e escravagista é fundamental para entender a história do Brasil e as dificuldades e características do país atualmente. Infelizmente, em vez de refletir sobre ele, sempre procuramos disfarça-lo construindo mitos a respeito de nós mesmos. Um desses mitos diz que somos uma ‘democracia racial’ e que a escravidão entre nós foi mais branda, patriarcal e tolerante do que eu outros territórios da América. Tudo isso é ilusório e desmentido pelas estatísticas, que mostram um fosso enorme de desigualdade entre negros e brancos no país em todos os itens analisados.

A escravidão sempre existiu na história humana. Dos romanos aos vikings, a prática era frequente durante as conquistas de poder e territórios da história contemporânea. Há algum modelo de país ou nação, que, a seu ver, que tenha conseguido superar tais práticas e equilibrar a sociedade local?

Infelizmente, isso nunca aconteceu. A escravidão é parte do código genético do ser humano. Existiu desde sempre e continua a existir ainda hoje, no Brasil e no mundo todo sob outras formas, mais sutis e disfarçadas de exploração do trabalho, desumanas, indignas e inaceitáveis para os padrões éticos que julgávamos ter atingido neste início de século 21. Uma organização britânica, a Anti-Slavery International (mais antiga entidade de defesa dos direitos humanos, fundada em 1823 para combater o tráfico negreiro), afirma que existem hoje mais escravos no mundo do que em qualquer período nos 350 anos escravidão africana nas Américas.

Seriam 20 milhões de pessoas vivendo hoje em condições de vida e trabalho análogas às da escravidão – ou seja, quase o dobro do total de cativos traficados no Atlântico até meados do século 19. Ainda segundo a Anti-Slavery Internacional, a cada ano cerca de 800.000 pessoas são traficadas internacionalmente ou mantidas sob alguma forma de cativeiro, impossibilitadas de retornar livremente e por seus próprios meios aos locais de origem. E lamentavelmente, o nosso Brasil aparece sempre com destaque nesta lista suja. 

Qual a influência de outros povos “não oficialmente” considerados colonizadores do Brasil, como os holandeses e os franceses, no tráfico negreiro? Qual era a postura desses líderes?

Todos esses povos se envolveram no tráfico de escravos e até guerrearam durante muito tempo pelo seu controle. Até o início do século 19, o tráfico negreiro era o maior e o mais internacional de todos os negócios do mundo. A rede de interesses envolvia milhares de pessoas, incluindo agentes comerciais e controles contábeis das transações, uma estrutura de fornecimento de água e comida, e até instituições religiosas para batizar e catequizar os cativos.

Abrangia ainda seguradoras, estaleiros e armadores, bancos de crédito, empresas de transporte que forneciam navios, tripulações e apoio logístico às viagens, além de uma complicada estrutura burocrática para supervisionar as transações e cobrar impostos e tarifas.

Quase todos os países europeus estiveram envolvidos com o tráfico. A guerra entre holandeses, portugueses e brasileiros no século 17, por exemplo, foi mais do que uma disputa pelas terras férteis da Zona da Mata nordestina, onde floresciam as ricas lavouras de cana-de-açúcar. Foi acima de tudo uma queda de braço decisiva pelos mercados fornecedores de mão-de-cativa africana. No século 17, quem controlasse o fornecimento de escravos no Atlântico seria igualmente o dono do mundo.

Franceses e holandeses foram grandes traficantes de escravos. No ranking das nações que mais transportaram cativos da África para a América, ocupam as principais posições, com, respectivamente, 1,4 milhão e meio milhão de cativos comercializados. Perdem apenas para os ingleses, portugueses e brasileiros, campeões absolutos no comércio de gente.

O que você pretende provocar em seus leitores com este estudo e análise sobre a escravidão? O que você, como autor e pesquisador, acredita que sejam pontos factuais de compreensão quase obrigatória? 

A escravidão é o fenômeno mais importante da história brasileira. Existiu desde o início da ocupação portuguesa até quase final do século 19. Envolveu tanto indígenas brasileiros quanto africanos escravizados. A primeira carga de cativos a cruzar o Atlântico não partiu da África, mas do próprio Brasil. Eram indígenas escravizados e levados para a Europa. A viagem aconteceu apenas uma década após a chegada de Cabral à Bahia. Em 1511, a nau Bretoa atracou em Portugal com uma carga de papagaios, peles de onça pintada, toras de pau-brasil e 35 índios cativos.

Um dos donos do navio era o português Fernando de Noronha, em sociedade com o genovês Bartolomeu Marchionni. Noronha, que hoje dá nome ao famoso arquipélago reserva ambiental situado na costa nordestina, era um cristão-novo, ou seja, judeu recém convertido ao cristianismo. Foi um dos iniciantes “empreendedores” do Brasil colônia. Não existem documentos sobre a data precisa da chegada dos primeiros africanos escravizados ao Brasil, mas acredita-se que isso tenha acontecido por volta de 1530, ou seja, apenas três décadas após a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral à Bahia.  

Uma caravela encontrada por Martim Afonso de Sousa na própria Bahia, em 1531, estaria empregada no tráfico negreiro. O historiador Afonso d’Escragnole Taunay afirma que o primeiro desembarque de teria ocorrido em 1538, em um navio de propriedade de Jorge Lopes Bixorna, o mesmo que tinha já enviado escravos indígenas ao rei Dom Manuel I em 1514. Nos quatro séculos seguintes, o Brasil seria o maior território escravista das Américas, destino de quase cinco milhões de cativos africanos, cerca de 40% do total de 12,5 milhões traficados para todo o continente, também o último a abolir a escravidão, em 1888.

Se os brasileiros entendessem mais sobre este capítulo da história do Brasil, o que, na sua opinião, poderia mudar na dinâmica de como a sociedade atual se relaciona entre si?

Tudo o que fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com as nossas raízes africanas e a forma como nos relacionamos com elas. Acho que a melhor maneira de enfrentar os desafios é pelo estudo da história. Precisamos entender e refletir sobre o que aconteceu. Uma sociedade, ou um país, que não estuda história é incapaz de entender a si mesmo porque desconhece as suas raízes. Como não sabe de onde veio, provavelmente também não saberá o que (ou quem) é hoje e muito menos o que será no futuro.

Por isso, estudar história é uma tarefa. Só pelo estudo e pelo conhecimento de nossas raízes e de nossas características como nação será possível preparar, ou qualificar, os cidadãos brasileiros para a difícil tarefa de fazer escolhas e organizar a realização do país dos nossos sonhos. Isso inclui o racismo e o passivo social resultante da escravidão.

Outra grande colônia movida pela escravidão como pilar da força de trabalho foi os Estados Unidos. Quais os paralelos e diferenças entre a escravidão no Brasil e nos EUA que podem justificar, hoje, traços de ambas as sociedades, atualmente governadas por presidentes com visões políticas similares?

Existem diferenças significativas na história da escravidão no Brasil e nos Estados Unidos. A começar pelos números. O tráfico de escravos para a América do Norte foi relativamente pequeno comparado com o do Brasil. Os Estados Unidos receberam, no total, cerca de 750 mil cativos africanos, aproximadamente 15% dos cinco milhões que chegaram para trabalhar nas lavouras, cidades, minas de ouro e diamantes brasileiras. Apesar disso, a escravidão prosperou muito entre os norte-americanos. Nas vésperas da Guerra da Secessão, em 1865, havia cerca de quatro milhões de cativos.

Isso ocorreu por dois motivos principais: nos Estados Unidos as taxas de reprodução no cativeiro eram maiores do que no Brasil e, principalmente, houve um número muito reduzido de alforrias, ou seja, conquista da liberdade pelos escravos, o que, em contrapartida, era muito comum na escravidão brasileira. A segregação racial estipulada em lei, pela qual brancos e negros tinham de frequentes lugares diferentes, também foi maior entre os americanos, características, na prática, que permanece ainda hoje, mesmo depois da luta pela igualdade de direitos civis nos Anos 60.

Por fim, resta como legado comum nos dois países o racismo. Nos Estados Unidos é mais explícito e bastante discutido. Entre nós, mais disfarçado, embora igualmente intenso.

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