Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.06.2010 22.06.2010

Laurentino Gomes, best seller atípico

Por Bruno Dorigatti
Foto de divulgação

> Assista à entrevista exclusiva de Laurentino Gomes ao SaraivaConteúdo  

Um livro sobre história entre os mais vendidos há mais de dois anos. Sim, isto acontece no Brasil, o autor da façanha é o jornalista Laurentino Gomes e a obra é 1808. Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil (Planeta) e aborda a chegada família real portuguesa naquele ano, quando fugiu de Napoleão Bonaparte e do exército francês prestes a tomar a capital Lisboa.

Repórter e editor da revista Veja há mais de 15 anos, hoje ele deixou a publicação para dedicar-se exclusivamente ao projeto, que o levou ao país inteiro para falar sobretudo a crianças e adolescentes sobre sua pesquisa, além de editar edições especiais da obra, ilustrada e com DVD. Atualmente Laurentino prepara outra livro que será uma continuação do primeiro e vai abordar os desdobramentos do retorno da corte portuguesa, em 1821 e as conseqüências que ela trouxe, com a Independência do país no ano seguinte. O título, claro, será 1822

Em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, realizada no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier (SP), no final de maio, Laurentino falou sobre a origem do livro, a repercussão que ele teve e o andamento do próximo projeto. Confira os principais trechos da conversa. 

 

ideia

Há mais de 15 anos que trabalhava na Veja, como repórter e editor e vinha os 500 anos do Descobrimento do Brasil. O meu diretor de redação, Thales de Menezes, decidiu fazer uma série de especiais sobre história, que iria circular de brinde para os leitores. Iriam abordar o Descobrimento do Brasil, Tiradentes, a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, a Independência e a República. 

Eu fiquei encarregado de coordenar uma equipe que faria a apuração do especial 1808. Depois de algum tempo ele desistiu do projeto, o que em jornalismo, no jargão, a gente chama de “derrubar a matéria”. Mas eu tinha começado a ler e pesquisar sobre o assunto e fiquei fascinado com a história de D. João VI e Carlota Joaquina e achei que na época dos 200 anos da chegada da corte no Brasil haveria oportunidade de lançar o livro, e foi o que eu fiz. O livro saiu em 2007, mas não imaginava essa resposta do leitor.

O interesse por história 

Por que as pessoas estão lendo história do Brasil com a mesma ferocidade com que lêem autoajuda, literatura barata, esoterismo etc.? Pois é esse o fenômeno, se você pegar as vendas dos livros, é comparável. Acho que tem a ver com o Brasil de hoje. Pelo menos, encontrei essa resposta nas palestras que tenho feito Brasil afora. As pessoas querem saber se a corrupção veio junto com a corte, se a herança colonial portuguesa foi boa ou ruim para o Brasil, se o Brasil seria melhor se fosse colonizado por ingleses, se os holandeses tivessem ficado em Pernambuco daria um país melhor. 

Houve um fenômeno interessante. Depois do fim do regime militar, com a redemocratização, houve uma certa ilusão no Brasil de que seria possível resolver os problemas brasileiros muito rapidamente. Bastaria você eleger um presidente, de preferência um presidente populista, um messias, como um Collor, e pronto, estaria tudo resolvido. E aí acho que hoje as pessoas estão assustadas com a persistência da corrupção, da criminalidade, da ineficiência no serviço público, e se perguntando “Por que nós somos assim?”, “Por que é tão difícil consertar o Brasil?”, “Por que é tão difícil acordar este gigante adormecido?”. 

Aí que entra a história, ela serve para iluminar o passado, para você entender o presente e aí ficar mais bem preparado para construir o futuro. Uma sociedade que não estuda história não consegue entender a si própria. Mas quando você olha o presente o país vem, pela primeira vez na sua história, exercitando a democracia de forma continuada durante duas décadas e meia. É a primeira vez que acontece isso em 500 anos de história. E é assim que se constrói o Brasil. O país melhora, ele tem raízes que são complicadas, mas dá para melhorá-lo desde que as pessoas participem, estejam dispostas a votar, eleger, errar, trocar o presidente, trocar o governador, trocar o deputado etc. 

Jornalismo x história

A beleza do jornalismo está na possibilidade de você entrar em qualquer assunto, sem ser chamado. A única exigência é que faça isso direito, tem que fazer reportagem, ser bem orientado, fazer uma pesquisa profunda, correta, não pode misturar ficção com não ficção, não pode preencher lacunas do conhecimento histórico com ficção. 

Hoje o livro é bastante bem aceito na academia, até porque tomei os cuidados necessários. Para cada informação que uso no 1808 (Planeta) e também no 1822 (Planeta), faço as referências bibliográficas. Não sou um historiador acadêmico de ficar mergulhado em arquivos, como o Arquivo da Torre do Tombo [em Lisboa] ou no Arquivo Nacional. O que faço é pegar a bibliografia já construída pelos historiadores e consolidá-la, organizá-la, fazer uma narrativa nova do ponto de vista jornalístico. 

Então, por exemplo, eu fui visitar, para o próximo livro que estou escrevendo, 1822, o local da Batalha do Jenipapo, no interior do Piauí, que ninguém conhece. 99 entre 100 brasileiros nunca ouviram falar da Batalha do Jenipapo, onde morreram 400 brasileiros lutando na guerra da Independência. Você chega lá e vê todas as tumbas abandonadas no meio do mato. É um jeito de você observar como o Brasil trata o seu passado. 

Se você vai hoje ao Palácio da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, onde D. João VI morou, está tudo abandonado, não tem nenhuma referência à presença da corte portuguesa no Brasil. Acho que é uma forma de você observar como o Brasil de hoje, 200 anos depois, avalia sua própria história. Isso é um olhar jornalístico, diferente do olhar de um historiador acadêmico, tradicional.

próximo livro, 1822

Os acontecimentos de 1822 são uma conseqüência natural de 1808. D. João VI. Quando vem ao Brasil, planta as raízes da independência. É a vinda da corte que realmente transforma o Brasil de forma muito acelerada e torna a volta à condição de colônia praticamente impossível. Quando o rei volta para Portugal em 1821 e as cortes constituintes tentam recriar o sistema colonial, não dava mais. O Brasil tinha realmente se transformado e a única possibilidade era independência. No próximo livro vou contar qual foi realmente a conseqüência do livro anterior, a vinda da corte portuguesa para o Brasil. A fórmula é a mesma, uso capítulos curtos, linguagem acessível, jornalística, focando nos personagens, ou seja, em D. Pedro I, na Imperatriz Leopoldina, na Marquesa de Santos e assim por diante, e abrange um período de 13 anos. Começo em 1821, o não da volta da corte para Lisboa e vou até a morte de D. Pedro I, em 1834.

 

retorno dos leitores

Tenho dado palestras para estudantes e adolescentes. Aí, primeiro, você vê nos olhos da criança olhando você como se você fosse uma celebridade da novela das oito, é uma coisa incrível, eles te tratam como uma celebridade por ter escrito um livro que mexeu na vida delas. Recebo muitofeedback assim: “Olha, por sua causa decidi ser jornalista, por sua causa decidi fazer história”. 

A uma responsabilidade muito gratificante, mas tem que tomar cuidado com ela, porque nesse tipo de literatura nós estamos mexendo com uma área muito sensível, muito estratégica e fundamental para o Brasil, que é educação. Então tem que trabalhar com muito cuidado, ou seja, você está mexendo na formação de um adolescente, de uma criança, passa pelo filtro de aprovação do pai, do professor, do orientador educacional. Aí até a postura do autor é importante. É importante que você tome cuidado com a sua imagem, a forma como faz seu livro, se relaciona com seu público pelo fato de estar lidando com uma área muito sensível, que é a educação.

> Assista à entrevista exclusiva de Laurentino Gomes ao SaraivaConteúdo 

 
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