Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.03.2013 22.03.2013

Konstantinos Kaváfis: poeta de uma Grécia Moderna

Por Zaqueu Fogaça
 
Quando o assunto é literatura grega, inevitavelmente vêm à tona escritores clássicos como Homero, Eurípedes, Sófocles, dentre tantos outros da Grécia Antiga. No entanto, ao contrário do que se imagina, a criação literária do país não se limita apenas a esse período mundialmente cultuado; muito pelo contrário, sua moderna literatura se encontra entre as mais expressivas, cativantes e influentes do mundo.
 
Apesar de ser pouco conhecida entre leitores brasileiros, a literatura moderna da Grécia tem conquistado destaque no país graças à recente publicação da obra Poemas de Konstantinos Kaváfis (Cosac Naify). “A poesia de Kaváfis pode ser considerada, num sentido, fantasmagórica. Isso não decorre propriamente de traços deformantes do universo onírico, mas do exotismo de seus personagens”, define o poeta e tradutor Trajano Vieira.
 
Para o professor de Literatura e Língua Grega da Universidade de São Paulo, Bruno Sebastiani, o acesso a escritores desse período da literatura produzida na Grécia ainda é muito restrito. “No país, o conhecimento de autores gregos modernos se restringe a pouquíssimos interessados, e isso é fruto de dois fatores majoritários: a pequena quantidade de traduções disponíveis e a raridade dos cursos de grego moderno nas universidades brasileiras”, explica Sebastiani.
 
Nessa obra, que agora chega aos leitores brasileiros, constam 15 poemas de Kaváfis, um poeta criterioso que nem mesmo editou o único trabalho publicado em vida. Seus poemas eram publicados apenas em revistas literárias de Alexandria, em papéis avulsos e folhetos distribuídos a um restrito círculo de amigos. Sempre à margem das badalações literárias, o poeta morreu praticamente ignorado em seu próprio país.
 
Transcriados diretamente do grego pelo poeta concretista Haroldo de Campos, que preservou a sonoridade da poesia kavafiana, os poemas foram selecionados por Trajano Vieira, que, na nota final da obra, exalta a grandeza da tradução. “Haroldo nos deixou a presente coletânea, dificilmente superável na fidelidade ao que Kaváfis tem de mais raro: sutileza coloquial, imaginação sintática e remissões irônicas a personagens excêntricos que despontam da esfumatura do tempo”.
 
KAVÁFIS NO BRASIL
 
Konstantinos Kaváfis é, certamente, o poeta mais revisitado pelos tradutores e estudiosos brasileiros. Sua obra, tão pequena quanto notável (apenas 154 poemas curtos), necessitou de uma vida inteira para ser retocada até ganhar a forma definitiva com que o autor desejava que o mundo a conhecesse.
 
 
Em sua tradução do poeta alexandrino, José Paulo Paes seguiu a linha da tradução italiana feita por Felippo Maria Pontani, respeitando o esquema rimático e estrófico da obra original, mantendo-se fiel à sua métrica. Na obra, além dos poemas, Paes também traz um estudo criterioso do complexo universo poético do autor, destacando diferentes temas que alimentam suas composições.
 
 
Haroldo resolveu seguir o caminho inverso ao das demais traduções brasileiras existentes. Dessa forma, se esforçou para manter a essência dos poemas do alexandrino, preservando em língua portuguesa a sonoridade e ressonância dos poemas kavafianos que as demais traduções não se preocuparam em manter. O livro ainda conta com um poema intitulado “O alexandrino”, que Haroldo escreveu em homenagem a Kaváfis e que integra a obra como um poema-prefácio.
 
 
Assim como José Paulo Paes, Isis Borges da Fonseca encontrou em Pontani o caminho ideal para realizar sua tradução, seguindo a corrente dos que consideram que a poesia kavafiana não se distingue pela musicalidade, mas sim pelo conteúdo dramático que apresenta e pela semelhança com a prosa. Publicado em 2006, o livro reúne os 153 poemas editados pelo poeta em folhas avulsas, além de um último, que escreveu já doente.
 
 

Um dos mais recentes tradutores de Kaváfis no Brasil, Trajano Vieira reuniu 60 composições do poeta grego nesta coletânea, que procurou preservar o estilo alexandrino do original e sua requintada caracterização dos personagens. Nos poemas, Trajano resgata o sensualismo característico dos personagens, expresso por uma linguagem que perambula entre o erudito e o chulo.

 
OUTRAS DICAS DE LEITURA
Poemas – Giórgos Seféris (Nova Alexandria) – Giórgos Seféris
Primeiro escritor de língua grega a ser laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1963.
Vida e Proezas de Aléxis Zorbás (Grua Livros) – Nikos Kazantizákis
Esta obra fez com que Kazantzákis se tornasse o escritor da literatura grega do século XX mais lido no mundo.
Poesia Moderna da Grécia (Guanabara) – José Paulo Paes
Nesta antologia, Paes reuniu os principais poetas do período, dentre eles: Karyotákis, Kostas Varnális e os prêmios Nobel de Literatura Seféris e Elýtis.
 
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