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Kledir Ramil apresenta o seu universo da prosa

Por Priscila Roque
 
“Um dos maiores cantores da história da Música Popular Brasileira, com 1 metro e 80 de altura”, é assim que se identifica Kledir Ramil na crônica “Um Breve Currículo”. Com tamanho bom humor, ainda acrescenta: “É um escritor de enorme talento, mas atualmente abandonou a literatura para se dedicar à culinária. Só escreve abobrinhas”.
 
Brincadeiras a parte, Kledir tem uma carreira na música reconhecida desde os anos 1980, ao lado de seu irmão, com a dupla Kleiton & Kledir. Entretanto, há pouco mais de 10 anos se dedica também aos textos.
 
Com centenas de crônicas publicadas nos jornais Zero Hora e Brazilian Voice, ele lançou, em 2003, uma coletânea desse material em Tipo Assim (RBS Publicações). Depois, veio o convite da editora Objetiva para produzir uma narrativa mais longa: surgiu O Pai Invisível. Agora, foi a vez de entrar para o seleto grupo de escritores da coleção Crônicas Para Ler Na Escola (Objetiva), ao lado de nomes como Marcelo Rubens Paiva, Ignácio de Loyola Brandão e Moacyr Scliar.
 
Tamanha dedicação ao universo dos livros não se encerra nesse terceiro título. Kledir já tem novos projetos, e o SaraivaConteúdo o convidou para um bate-papo sobre essa sua mais recente paixão.
 

Como você descobriu o gosto pela escrita?

 
Kledir Ramil. Eu tenho uma formação de música popular e passei a vida inteira escrevendo letras de canções. Sinto um amor pela palavra desde a juventude. Esse amor é, principalmente, pelas sonoridades que escuto na rua. Gosto muito da melodia da nossa língua. Escrever canções é uma atividade de um rigor muito grande. A gente trabalha com algumas regras: a métrica, a prosódia e a rima. Depois de muito tempo, comecei a escrever prosa e, para mim, isso teve um sentido de libertação grande, porque eu não tinha mais que me preocupar com essas regras, era somente a gramática e a concordância.
 
Algumas de suas crônicas saíram do papel e foram parar em áudios e vídeos. Como foi essa transformação?
 
Kledir Ramil. Eu gosto desses desdobramentos. Você cria uma canção e ela vira videoclipe – uma outra maneira de apresentar aquela canção. Quando comecei a escrever textos, recebi um convite do Canal Brasil. Eles queriam fazer umas coisas de literatura em um programa chamado Cantos Gerais e pegaram alguns escritores, como o Ferreira Gullar e a Martha Medeiros, e me convidaram. Na época, eu estava começando a escrever e adorei. Fiz uns 60 programas e os chamei de videocrônicas. É um autor falando o seu próprio texto. Acho muito legal, porque consigo dar o tom de como eu gostaria que as pessoas escutassem o que estou escrevendo. Tenho vontade de voltar a fazer isso para o rádio e a TV.
 
Este é o terceiro livro lançado pelo autor
Com relação ao seu processo criativo, você tem um ritual?
 
Kledir Ramil. Eu criei o hábito de escrever um texto toda semana. A minha prática normal é acordar, fazer o meu chimarrão, ler o jornal e, no computador, começar a escrever. Às vezes eu vejo uma notícia, uma ideia, algum assunto, também já saio escrevendo e deixo para lapidar depois. Atualmente, me policio para não ter esse compromisso semanal, porque estou em um projeto de narrativa longa.
 
Em entrevista, certa vez você disse que ouve vozes durante esse processo…
 
Kledir Ramil. [risos] Não é porque sou maluco, não! Na verdade, é o meu ouvido interno, de músico. Para mim, as palavras são sons. Eu não tenho uma formação acadêmica em Letras ou Literatura e me apaixonei pelas palavras, principalmente por nosso idioma oral. Sempre escrevi canções – que são palavras para serem ouvidas. Então, passei a minha vida inteira trabalhando essa linguagem oral. Quando leio um romance, também escuto as palavras na cabeça. Então, no meu processo criativo, as palavras vêm em forma de sons. Se elas soam bem, se a frase funciona bem, vai para o computador. Eu adoro quando leio pessoas que têm essa preocupação com o ritmo e a sonoridade das palavras, como nos livros de Chico Buarque. Você vê que é um músico escrevendo. É como se tivesse uma melodia subliminar.
 
Em seu novo livro, algumas crônicas parecem interligadas – não somente pelos capítulos, claro, mas porque recuperam reflexões anteriores. Como foi criado esse círculo?
 
Kledir Ramil. Esse meu processo não é muito racional. Como a crônica é sempre um texto curto e a maioria foi feita para publicação em jornal, eu tinha um espaço determinado. Muitas vezes, começava a escrever e tinha que parar. Só que os assuntos transbordam. Então, eu retomo uma ideia porque continuei refletindo, e isso se transforma em uma nova crônica. Em outras, para esse livro, cheguei a fazer uma fusão – como é o caso de “Quadrúpede”. Esse texto é um pouco maior do que a maioria porque eram duas crônicas. Em uma, escrevi sobre o cachorro chegando em casa. Depois de um tempo, continuei, porque esse cachorro – até hoje – inferniza a minha vida [risos]. Mas, enfim, achei que seria mais legal fazer uma fusão deles. A seleção do livro ficou interessante, em blocos. São assuntos que têm afinidades entre si. E, pela primeira vez, eu também publico textos falando dos bastidores da minha vida de cantor e compositor.
 
Por você escrever sobre fatos tão pessoais, faltava abordar esses bastidores da música?
 
Kledir Ramil. Muita gente que compra os meus livros quer me ouvir falar de música, mas não tem nada a ver. Nos livros anteriores, não tem nenhuma ligação ou informação de que sou cantor ou compositor. Isso não importa, mas é inevitável. Eu achei que nesse novo livro caberia um bloco sobre os bastidores das minhas atividades. Coloco o que é a minha vida, histórias com o nosso produtor – que é divertidíssimo –, o Kleiton me falando umas coisas… Achei que caberia dessa minha maneira. Não importa muito, mas a minha atividade é essa.
 
Por seus textos terem uma relação direta com a melodia, você já pensou em musicar, por exemplo, a crônica “Gente do Brasil”? Ela parece uma canção completa, com refrão e tudo…
 
Kledir Ramil. Algumas coisas já aconteceram nesse sentido. Mas acho que essa eu vou mandar para o Criolo [risos]. Ela tem um refrão, aquela frase que parece um refrão. Você vê que ela tem uma estrutura e uma influência da minha vida musical. Mas vou pensar no seu caso… Vou mandar para o Criolo e vai ficar legal. Ele já fez um looping com a introdução de uma música do Kleiton & Kledir [risos].
 
Kledir Ramil apresenta a videocrônica “Língua Brasileira”, texto também presente em Crônicas Para Ler Na Escola
 
 
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