Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.04.2013 26.04.2013

Ken Follett conta histórias com ajuda das ciências exatas

Por Maria Fernanda Moraes
 
Entre os leitores, Ken Follett é praticamente uma unanimidade. As mais de 800 páginas de seus dois livros mais recentes (que fazem parte da trilogia O Século) não intimidam os fãs; pelo contrário, eles se dizem órfãos cada vez que terminam uma leitura e aguardam ansiosamente pelo próximo volume.
 
O escritor galês tem 35 anos de carreira, lançou 29 livros e já vendeu mais de 500 milhões de exemplares em 35 idiomas. É formado em Filosofia e começou a carreira como jornalista. Ficou conhecido mundialmente pelo livro Pilares da Terra, lançado em 1992 no Brasil. Sua trilogia mais recente, O Século, já tem dois volumes publicados – Queda de Gigantes e Inverno do Mundo –, e o terceiro livro (Edge of Eternity) será lançado em 2014.
 
Follett é fã de Stephen King, Richard North Patterson, Lee Child, Jane Austen e Ian Fleming (o criador de James Bond) – "Gosto de personagens vilões", diz. Ele conquista leitores que gostam de temas históricos ao narrar fatos reais misturados a personagem fictícios. Em meio a esse cenário histórico, ainda traz histórias de amor, fala sobre intrigas políticas e aposta em descrições com muito terror psicológico e espionagem.
 
Em seu site, o autor conta que a trilogia O Século é uma obra de ficção, mas tem o cuidado de não violar a história. Assim, os livros sempre passam pela revisão de especialistas (neste caso, historiadores) antes de serem publicados. “O único modo de escrever uma obra assim é olhar a história sob múltiplos pontos de vista. O século 20 foi um período marcado pela mudança enorme nas relações sociais e de classe", declara o escritor.
 
Na trilogia, Follett narra a história de cinco famílias com nacionalidades distintas (norte-americana, alemã, russa, inglesa e galesa) ao longo de três eventos centrais do século 20 (cada livro corresponde a um período): Primeira e Segunda Guerras Mundiais e a Guerra Fria. Inverno do Mundo, o mais recente, começa em 1933, quando os bebês nascidos no primeiro volume já são adolescentes, e segue até 1949, quando os adolescentes de 1933 já se tornaram adultos com suas próprias famílias – que devem assumir papeis centrais no terceiro título.
 
Inverno do Mundo
 
LONGE DO ESTEREÓTIPO DE ESCRITOR
 
Follett afirma em sua página pessoal que, apesar de ser apontado por muitos como um contador de histórias nato, ele foi “treinado para ser escritor”. Isso porque começou a ler desde muito cedo, incentivado pela mãe, que lia muitas histórias, e logo passou a ser frequentador assíduo da biblioteca pública. “Se não pudesse ler de graça, eu não teria me tornado um leitor voraz e, se você não é um leitor, não pode ser escritor”, diz.
 
O site pessoal, inclusive, é um grande canal de comunicação com os leitores mantido pelo autor. Lá, ele responde a dúvidas sobre a carreira e os próximos livros, além de publicar os e-mails enviados pelos fãs.
 
Da mesma forma que Follett agradece educadamente um leitor que questiona se ele está aberto a ideias para seu novo trabalho, o escritor abre espaço no site para que os leitores possam apontar possíveis erros em suas obras.
 
Em Inverno do Mundo, por exemplo, há cinco registros de correções: a localização exata de um restaurante, o nome de um time de baseball de Washington no início do século 20, a premiação de uma bolsa de estudos Rhodes a uma mulher (que não seria elegível na época), o número correto de porta-aviões construídos nos EUA e a nomeação do Exército da Força Aérea desse mesmo país.
 
O autor também toca baixo numa banda chamada Damn Right I’ve Got The Blues e associa os dois processos criativos. “Tocar em uma banda é muito sensorial, e escrever é completamente racional. Meus livros são minuciosamente planejados, como toda ficção popular, por isso estou sempre pensando na mecânica da história. Tocar em uma banda é diferente. Há uma conexão dos ouvidos à ponta dos dedos que não passa pelo cérebro consciente”.
 
Queda de Gigantes
 
EXCEL E GOOGLE EARTH NO PROCESSO CRIATIVO
 
Follett revela que sua rotina de criação começa antes do café da manhã e segue até as cinco da tarde: “Sou uma pessoa matinal. Assim que me levanto, vou para a escrivaninha. De noite quero comer, beber e relaxar”.
 
Ele conta que levou seis meses para preparar Queda de Gigantes e pelo menos um ano e meio para escrevê-lo.
 
No segundo livro, Inverno do Mundo, precisou de dois anos para organizar em 880 páginas as quase duas décadas de histórias dos 98 personagens da obra (reais e fictícios), que passaram por dez países diferentes. O trabalho torna-se mais minucioso, já que ele não poderia cometer deslizes históricos e nem contradizer o que já havia narrado sobre os protagonistas no livro anterior.
 
O segredo? Fugindo do convencionalismo, Follett usa ferramentas como o Excel, programa para criar tabelas e calcular dados no computador. Segundo ele, cada vez que um personagem aparece na história, ele insere nome e idade na tabela, junto com uma descrição física. Assim, não corre o risco de errar, já que a planilha também calcula as idades em relação ao tempo que passa.
 
O escritor também revela que, apesar de conhecer a maioria dos cenários de seus livros, vez ou outra ele recorre ao Google Earth e verifica alguma paisagem via satélite.
 
Apesar de parecerem técnicas pouco convencionais na criação literária, o escritor se explica na sua página, dizendo que são essenciais para quem se propõe a escrever sobre episódios históricos tão recentes. “Diferentemente do livro Os Pilares da Terra, que se passa na Idade Média, nos volumes da trilogia O Século ainda temos muitas testemunhas oculares dos fatos. Preciso estar mais atento”.
 
 
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