Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.03.2013 26.03.2013

Katherine Boo lança livro que desvenda o dia a dia de favela na Índia

Por André Bernardo
 
Um pulmão perfurado, três costelas quebradas e uma viagem para a Índia. Esse foi o saldo do tombo que a jornalista norte-americana Katherine Boo, 48 anos, levou em casa, em Washington, após tropeçar em um dicionário.
Durante o tempo em que permaneceu caída, sem conseguir alcançar o telefone para pedir socorro, a redatora da revista The New Yorker filosofou sobre a precariedade da vida: “Ao provar que era incapaz de conviver em segurança com um simples dicionário, descobri que tinha pouco a perder se fosse atrás dos meus interesses em um algum lugar distante da minha área de conhecimento”.
Definir que “algum lugar distante” seria esse não chegou a ser uma dificuldade para Katherine. “Há dez anos, eu me apaixonei por um indiano e ganhei de presente um país”, derrama-se, em referência ao marido, o cientista político Sunil Khilnani, da Universidade Johns Hopkins (EUA).
Com o seu já peculiar faro jornalístico, que lhe valeu um Pulitzer em 2000, Katherine Boo desembarcou, em novembro de 2007, no aeroporto internacional de Mumbai, ex-Bombaim, a capital financeira da Índia. Em vez de seguir para um dos cinco hotéis luxuosos que rodeiam o aeroporto, tomou rumo inesperado: a favela de Annawadi, cenário de seu primeiro livro, Em Busca de Um Final Feliz
 
Foi lá que, durante três anos e quatro meses, Katherine viveu, ouviu e registrou os relatos mais impressionantes de sua vida. Como o do jovem Abdul Husain, que, aos 16 anos, trabalha como catador de lixo para sustentar uma família de 11 pessoas.
Ou o da estudante Manju Waghekar, que sonha em se tornar a primeira mulher de Annawadi a ter um diploma universitário. Ou ainda o da prostituta Fátima Shaikh, que, em um momento de desespero, ateou fogo ao próprio corpo. “Para fazer este trabalho, você tem que ser otimista e acreditar que pode ajudar a mudar a vida dessas pessoas. Caso contrário, seria muito doloroso”, afirma.
 
Qual a maior dificuldade que você enfrentou em Annawadi? Ganhar a confiança dos moradores, lidar com a truculência da polícia ou trabalhar em condições inóspitas?
Katherine. Sim, as condições de trabalho eram difíceis e os policiais, assustadores, mas a parte mais difícil foi começar. Como forasteira, virei um espetáculo em Annawadi. Multidões se reuniam ao meu redor quando eu começava a entrevistar os moradores. Logo, percebi que seria impossível conhecer a vida delas em todas as suas nuances. Como não podia simplesmente desistir, procurei explicar a todos o que estava fazendo e por que achava importante que outras pessoas soubessem mais sobre suas vidas. No final das contas, eles tinham mais com que se preocupar do que com a minha presença ali.
 
Como era o seu dia a dia em Annawadi?
Katherine. Um dia em Annawadi nunca é igual ao outro. Ao longo dos anos, procurei acompanhar alguns moradores por onde quer que fossem: escolas, delegacias, hospitais. Certa vez, cheguei a seguir meninos de rua que roubavam pedaços de metal para revender como lixo reciclável. Passei dias e dias observando os catadores de lixo separando sucata. Acredite: você pode conhecer muito sobre uma sociedade pelo que ela joga fora.
 
Em algum momento sentiu medo, achou que fosse morrer ou pensou em desistir?
Katherine. Sim, pensei em desistir quando descobri que minhas investigações estavam colocando a vida de outras pessoas em risco. A certa altura, investiguei a morte de um grupo de sem-teto de Annawadi. Quando comecei a pressionar a polícia atrás de respostas, eu e minha intérprete começamos a receber ameaças. Teria abandonado o projeto se ela e os moradores não tivessem me encorajado a continuar. Até meu marido perguntou, na época, se não havia chegado a hora de voltar para casa.
 
Nos últimos 20 anos, você se dedicou a retratar a dura realidade das populações de baixa renda nos EUA. O que pretende com Em Busca de Um Final Feliz?
Katherine. Tento acreditar que, em nossas sociedades, existem pessoas justas que não querem privar crianças pobres, como Abdul e Manju, de desenvolverem seu potencial. Melhorar vidas requer compreender o que não está funcionando bem e por que não está funcionando bem. É nisso que penso quando escrevo. Embora saiba que o jornalismo pode mudar pouco o mundo, toda e qualquer mudança, por menor que seja, já faz diferença.
 
Você já voltou a Annawadi depois que lançou o livro?
Katherine. Sim. Gosto de visitar regularmente os lugares sobre os quais escrevo. Fico feliz quando percebo que um artigo meu fez diferença na vida das pessoas. Em Annawadi, reencontrei as famílias que estão no meu livro. Romper um círculo vicioso de pobreza não é uma tarefa simples. Você tanto pode obter sucesso quanto fracassar. Mas nem eu nem as famílias que me ajudaram a escrever Em Busca de Um Final Feliz estamos pensando em desistir. Todos nós estamos apenas começando.
 
 
 
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