Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.05.2012 30.05.2012

Julio Reis: o compositor que pretendia ser tão bom na ópera quanto Carlos Gomes

Por Iveilyze Oliveira
 
No fim do séc. XIX e começo do séc. XX, surge um garoto prodígio que já revelava, teimosamente e de forma autodidata, o dom musical compondo, aos 13 anos de idade, “Ave Maria” para pianos e coros.
 
Começa assim a trajetória de Julio Cesar do Lago Reis (1863-1933), um compositor paulista, maestro, pianista e crítico musical que encontrou no Rio de Janeiro a inspiração para sua arte.
 
Isso mesmo em meio ao cenário de transformações da época, como lutas operárias, a chegada dos bondes elétricos e dos automóveis e, principalmente, as mudanças no meio artístico e as novidades na forma de compor.
 
Admirado pelo diplomata e escritor Ruy Barbosa e com pretensões ousadas de um dia ser melhor que Carlos Gomes, Julio Reis defendia de todas as maneiras a prática da harmonia musical incluindo em seu repertório valsas, polcas, habaneras e tangos, ficando popular entre os intelectuais.
 
Apaixonado pelos clássicos como Chopin, Beethoven e Mozart, detestava compositores que queriam modernizar a música, como Villa Lobos, Stravinsky e Debussy, sendo que, para Julio, este último traduzia em sua música “o sono e o vozerio dos sapos num charco”.
 
Fernando Molica, bisneto do compositor, pesquisou as curiosidades do artista. O resultado foi o romance O Inventário de Julio Reis. A obra não é uma biografia, e o enredo é apresentado de forma ficcional.
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Molica descreve como foi se aventurar nesse quarto romance.
 
Como surgiu o projeto de escrever um livro de ficção através de fatos de um personagem real, o seu bisavô e compositor Julio Reis?
 
Molica. Por volta de 2007, quando eu terminava meu romance anterior, O ponto da partida, é que comecei a pensar em transformar o assunto. Não buscava uma biografia, um registro documental de sua vida e obra. Procurei criar um personagem a partir de determinados parâmetros, procurei construir a história de um homem que percebe, assustado, o fim de muitas de suas referências, que tem dificuldades para construir uma relação com os filhos. Um sujeito que se mostrava tão duro em suas críticas e tão sonhador em sua criação. O meu Julio era um homem que se batia entre as limitações de uma vida difícil e o desejo de uma glória artística.
 
Em algum momento o vínculo afetivo prejudicou o processo de O Inventário de Julio Reis?
 
Molica. Acho que não. Não conheci o Julio Reis. Convivi muito com o filho dele, meu avô, Frederico Mário, que acabou virando personagem do livro. Chamávamos meu avô de Mário. No livro, resolvi tratá-lo de Frederico, exatamente para gerar um certo distanciamento. Mário era o meu avô, Frederico passou a ser o personagem. Um nome que até caía melhor, já que remetia a Frederic Chopin, um dos ídolos de JR.
 
Durante a pesquisa no acervo de Julio Reis, qual foi a maior surpresa ao inventariar a história das obras?
 
Molica. Li com atenção todos os livros, todas as críticas de espetáculos que ele escreveu. Isso me permitiu ter uma boa noção de seu pensamento, de suas preocupações para que eu pudesse construir um personagem. Fiquei surpreso com a firmeza com que ele defendia seus pontos de vista. De certa forma, essa insistência acabou sendo responsável por parte de seu esquecimento. Ficou fora do seu tempo, se apegou a um mundo que já não existia.
 
Qual foi a fase de sucesso de Julio Reis?
 
Molica. Ele teve uma atuação importante no início do século 20, quando suas sinfonias e óperas foram montadas. Mas, mesmo antes, conseguiu reconhecimento na produção de peças mais ligeiras, valsas, polcas, mazurcas e tangos brasileiros, que eram publicadas pelas editoras musicais. O Rio era uma cidade cheia de pianos. Para ter música em casa, as pessoas precisavam comprar as partituras e executá-las.
 
O fato de Julio Reis não aceitar as mudanças na forma de compor música clássica no séc. XX colaborou para a sua decadência como artista? Por quê?
 
Molica. Não falaria em decadência, mas em esquecimento. Ele foi atropelado pela modernidade. Tudo isso se refletiu na vida artística. Preferiu ser fiel aos seus princípios, aos compromissos, queria ser um novo Carlos Gomes numa época que apontava para o surgimento de Villa-Lobos.

Julio Reis compôs obras como a “Marcha Triunfal” no jubileu do papa Leão XIII, valsa “Odaléa” para Carlos Gomes, o poema sinfônico “Vigíla D’armas”, entre outros.
 
Quais composições poderiam se transformar na trilha sonora do compositor que era apaixonado pelo modelo romântico da música?
 
Molica. Uma delas, a sinfonia 'A Caravana Celeste', é bem representativa. Na sua introdução, Julio escreveu um texto em que, digamos, narra a composição. A tal caravana era uma reunião de artistas, músicos, pintores, escultores, que viajam em direção à glória, à beleza das artes. Cultivava a ideia da Musa, de uma inspiração divina que iluminava os artistas.
 
Como romancista, quais foram as dificuldades para dar alma ao personagem?
 
Molica. Era preciso injetar humanidade naquele personagem. Precisava quebrar esta couraça de Julio, gerar condições para que se apresentasse desarmado. Alguém que fizesse um balanço de sua vida, de sua trajetória, de seus sucessos e fracassos. Era fundamental que ele estivesse disposto a fazer um inventário mais sincero, como se escrevesse para a posteridade. O personagem Frederico foi a chave para a construção de Julio. Por meio dele busquei fazer um personagem mais humano.
 
Com a publicação de O Inventário de Julio Reis, você considera ter realizado o sonho do seu avô de revelar detalhes de um artista autodidata e crente no poder de suas músicas?
 
Molica. De certa forma, sim. O livro é um romance, mas ele permitiu que o nome de Julio voltasse a circular; conseguimos executar uma sinfonia que não era tocada há quase 90 anos. Isso representa o pagamento de uma espécie de dívida com o meu avô. Ele me levou aos primeiros concertos, despertou meu gosto para uma outra forma de música. É bom saber que O inventário de Julio Reis permite, de alguma forma, a recuperação de alguém que ficou tanto tempo esquecido.
 
 
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