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Juliana Reis e sua relação com a sétima arte

Por Diandra Renesto
 
“Eu gosto do que vem bater de frente com a voz corrente. Sou completamente vulnerável ao que seja considerado paradoxal, e vai ser sempre isso que me instiga nos eventos, nos temas e assuntos.” 
 
Essa foi a resposta de Juliana Reis quando perguntada sobre a ambiguidade do protagonista de Disparos, seu primeiro longa-metragem, que estreou em circuito nacional no dia 23/11.
 
O filme em questão conta a história de Henrique (Gustavo Machado), um fotógrafo que é vítima de um assalto, mas que se envolve em uma situação pela qual pode ser que ele tenha uma parcela de culpa, onde ele talvez seja um algoz.
 
“Penso que ele é o espelho da elite de sociedade que estamos correndo o risco de nos tornar, e sei que pensei nele o tempo todo como sendo eu também, pra não fazer dele um personagem incapaz de despertar compaixão no espectador.” 
 
Antes dessa obra, Juliana trabalhou como jornalista, morou na França por 15 anos, fez mestrado em cinema, dirigiu curtas-metragens, tornou-se professora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro e da Faculdade de artes do Paraná e se especializou no que constitui o cerne de sua carreira: roteiro.
 
“Minha pegada, antes de tudo, foi o texto; e o cinema veio pra mim como um consolo de não me sentir à altura do romance literário, de não dominar o floreio do subjetivo e da metáfora. Me conforto no descritivo; no verbo e no substantivo, mais próprios da dramaturgia”, declara.
 
Juliana escreveu roteiros e projetos de ficção para diretores como João Jardim (A Vida de Julia), Murilo Salles (O Fim e os Meios), Henrique Saladini (ALtobio), Guto Bussab (Junk jet – SulAfrica) e Kim Chapiron (L’homme rouge –França).
 
Por isso, o caminho para alçar um novo voo como diretora aconteceu em uma espécie de sequência natural, e ela explica como foi o processo de construção do trabalho: 
 
“Eu aprendi tudo, e tudo aconteceu. Aliás, o que eu achava que sabia, joguei fora para aprender de novo. Aprendi a bater pé numa ideia e depois aprendi a abrir mão dela. Aprendi a ouvir todo mundo e aprendi a ficar surda pra não ouvir mais ninguém; a ensaiar e preparar tudo e depois fazer tudo de improviso, porque choveu ou porque o ator quebrou o pé no dia de filmagem.” 
 
                                              Crédito/Ricardo Azoury 
Juliana Reis
 
“Acho que aprendi também (ou ao menos entendi algo de muito precioso) sobre a direção do ator. Como nos tempos em que o vídeo monitor não existia, é com o ouvido que a gente acha o tom certo do personagem.”
 
E depois desse passo tão importante na profissão, Juliana analisa seu atual momento:
 
“Sinto-me no meio do caminho entre o contentamento de ter conseguido botar o filme na tela e toda a ansiedade e angústia de não poder oferecer a ele todas as chances de viver. Só desapego quando penso em partir para o próximo set de filmagem.”
 
Ela também afirma que gostaria de “construir uma filmografiazinha” (3 ou 4 longas ) e, ao tentar se definir, não se limita a algo padrão.
 
“Eu sou roteirista profissional e adoro cinema (consumo cinema sem nenhuma moderação). Agora, ainda me pergunto se tenho aquilo que chamo ‘visão’ para poder me considerar uma diretora… às vezes me excito e digo que sim, já outras vezes (sobretudo quanto vejo um filmaço, muito maior do que eu), me acovardo e a mão sua…”
 
Mas na hora de ensinar, sua versão educadora tem um ponto de vista bastante concreto sobre o aprendizado dos jovens na área cinematográfica hoje em dia.
 
“Me desespero ao constatar que tantos jovens ainda pensam o cinema como um meio (e sobretudo como fim) de expressão de si, ou quando ouço em sala de aula a seguinte afirmação: ‘Não quero que o meu filme seja visto por 1 milhão de pessoas, pois isso significaria que fiz um filme de público.’”
 
                                                                                              Crédito/ Ricardo Azoury 
A roteirista Juliana Reis
 
“Acho que já passou do tempo de o Brasil sair desses paradigmas caducos e aprender que dramaturgia nada tem a ver com literatura (a não ser talvez pelo uso das letras e do computador); que público não é sinônimo de dinheiro e mediocridade, mas sim de interlocução; e que falar com o outro não significa necessariamente dizer o que o outro quer ouvir, mas sim falar COM ele.”
 
Juliana Reis é, portanto, uma realizadora. Uma pessoa que transita por várias áreas, que sai de sua zona de conforto e que tem motivações de sobra para criar cada vez mais.
 
Quem trabalha com ela concorda: “Juliana traz o ator pra ser cúmplice do seu delírio. Espero delirar muitas outras vezes com ela!”, diz o ator Gustavo Machado.
 
Caco Ciocler completa: “É sempre instigante testemunhar o aparecimento de uma artista potente. Ter feito parte do primeiro longa-metragem desta diretora foi vivificante para mim, e tenho certeza de que muitos outros futuros trabalhos vão confirmar seu lugar singular no panorama do cinema brasileiro”.
 
E, dessa forma, o cinema brasileiro agradece. 
 
 
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