Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.09.2013 23.09.2013

Juan Pablo Villalobos e sua tragicomédia mexicana

Por Maria Fernanda Moraes
 
É com xingamentos e palavrões que o mexicano Juan Pablo Villalobos abre seu segundo romance publicado no Brasil: Se Vivêssemos em um Lugar Normal (ed. Companhia das Letras). Os insultos e palavrões fazem parte da atmosfera de humor corrosivo que beira o tragicômico criada pelo escritor e que se revela uma arma contra o poder. O livro faz parte da trilogia iniciada por Festa no Covil, que já foi adaptado para o teatro em São Paulo e agora seguirá para o cinema.
 
A história da nova obra se passa nos anos 1980, no México, numa cidade pequena onde o autor ressalta que há "mais vacas que pessoas e mais padres que vacas". Orestes é o filho adolescente de uma família pobre e o responsável por contar como fazem para lidar com a realidade opressiva do país e as mazelas sociais.
 
“Nada que se diferencie muito da realidade brasileira ou latino-americana em geral”, diz Juan Pablo. Casado com uma brasileira, vive há dois anos no Brasil e contou que, quando chegou por aqui, estava na fase final de escrita do romance. “A última versão dele eu escrevi já morando no Brasil”.
 

Nesta conversa (em ótimo português) com o SaraivaConteúdo, o escritor mexicano falou sobre o humor na sua escrita, a mistura de ficção, a autobiografia e, ainda, sobre o último romance da trilogia:

 
Juan Pablo Villalobos
 
Em 2013 você já participou de dois festivais literários importantes aqui no Brasil (Flipoços e Flip) e agora também estará presente na Pauliceia Literária. Como tem sido essa aproximação maior com o público brasileiro?
 
Juan Pablo. O Brasil está "bombando", como se diz, nos festivais literários. E para os autores é uma oportunidade muito legal de ter contato com os leitores. Eu acredito na existência de “leitores reais”, ou seja, acho que o leitor não é uma entidade abstrata. Muitos escritores dizem que não pensam no leitor quando estão escrevendo, mas no meu caso eu estou sim pensando num tipo de leitor que é parecido comigo, que teria preferências de leitura similares às minhas, porque, no final das contas, eu estou tentando escrever livros que eu gostaria de ler.
 
Você já afirmou que não te agrada muito essa classificação de surrealismo que aferem aos seus romances e também esse clichê de se olhar para o México como um país surrealista. Suas histórias, entretanto, têm diversos trechos "nonsense" e se aproximam da Estética do Absurdo. É proposital?
 
Juan Pablo. Quando eu falo que não me sinto confortável com a etiqueta surrealista é porque muitas vezes, quando se fala “é surrealista”, refere-se a algo difícil de classificar, é quando uma coisa não "entra nas caixinhas". Acredito que a minha obra tenha mais a ver com a Estética do Absurdo, com a paródia de alguns gêneros. Estou muito interessado pela literatura policial, pela literatura fantástica, mas para tentar fazer uma paródia desses gêneros. No caso do México e da América Latina em geral, acho que houve uma percepção no exterior de que a nossa literatura tinha que ser exótica, tinha que responder a um clichê, um estereótipo criado nos anos de 1960, 1970, que veio do Realismo Mágico. Então, Se Vivêssemos em um Lugar Normal é uma paródia desse olhar estrangeiro e uma paródia da realidade que nós, mexicanos, acabamos assumindo.
 
Sua obra é marcada por um humor corrosivo, usado para fazer denúncias sociais e políticas. Você acha que o público aceita melhor esse tipo de reivindicação quando vem acompanhada de humor?
 
Juan Pablo. Para falar a verdade, escrevo assim porque é o que eu posso escrever. Como leitor, não gosto de uma literatura solene, “séria”. Acho que o humor é um mecanismo muito interessante, porque ele precisa de um distanciamento da realidade. Quando o leitor faz esse exercício e depois volta à realidade, ele a vê sob outra perspectiva. É o caso do tragicômico, que não se restringe apenas ao humor de entretenimento; por trás dele há situações muito sórdidas e nefastas, como diria Tochtli, o protagonista de Festa do Covil.
 
Em Se Vivêssemos em um Lugar Normal aparecem muitos palavrões. Na tradição literária, esse artifício está ligado ao que chamam de Convenção do Insulto. Você acredita que a tendência atual do politicamente correto vem minando isso?
 
Juan Pablo. Estamos numa sociedade hoje muito preocupada com essa questão do politicamente correto, o que, a princípio, é uma conquista importante. No entanto, em alguns momentos, há um exagero dessa postura. E, no caso da linguagem, estamos ficando muito preocupados em fazer uma linguagem asséptica, neutra, que está desprovida de toda violência. Em certo ponto, isso é positivo. Mas por outro lado, quando a gente passa por situações políticas e sociais graves, acho importante que a palavra recupere o valor que tem, inclusive esse valor simbólico alcançado pelos insultos. É importante fazer uma defesa do poder da linguagem, da palavra na sociedade. Resgatar a palavra como arma de resistência, de defesa, de subversão.
 
Livro Festa no Covil
 
Você também trabalha muito com a mistura de memórias e confissões pessoais nos seus romances. A busca dos leitores pela intersecção entre o que o autor escreve e suas experiências pessoais incomoda?
 
Juan Pablo. Acho que é uma tendência na literatura de hoje essa mistura de autobiografia e ficção. No meu caso, as questões autobiográficas são detalhes, não chegam a ser experiências. Trabalho com três materiais, falando de modo simplificado. Primeiro com material autobiográfico, depois histórico (contexto político e econômico) e, por fim, com ficção. Se me perguntassem qual a fórmula, eu diria que é 10% autobiográfico, 10% histórico e 80% ficção. O que me interessa é colocar essas três coisas num liquidificador e ver no que dá, chegando a uma “ficção hiper absurda”, exagerada.
 
O que esperar do último volume da trilogia?
 
Juan Pablo. Estou trabalhando nele agora, e é um romance um pouco diferente dos outros dois, com a voz narrativa de um velho. No entanto, tem algumas semelhanças: é uma história de uma família e se passa no México também. É um livro que tenta entrar nos grandes temas do México (questões políticas, sociais), mas também fala do mundo da arte. Estou na quinta versão e torcendo para que seja a definitiva.
 
 
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