Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 04.10.2013 04.10.2013

Jovens poetisas falam sobre a inspiração e o papel da poesia hoje

Por Zaqueu Fogaça
 
No poema “Razão de Ser”, Paulo Leminski escreve: “Eu escrevo apenas./ Tem que ter por quê?”. Para o poeta curitibano, escrever era resultado da mesma necessidade orgânica que as aranhas têm em tecer suas teias. Mas, afinal, é preciso ter uma razão para escrever? E é possível apontar o papel exercido pela poesia hoje?
 
Adentrar nesse terreno poético é estar no centro de um labirinto de palavras e tomar contato com infindáveis recursos manipulados por seu criador. Para iluminar esse percurso rumo ao universo lírico, o SaraivaConteúdo conversou com as poetisas Bruna Beber, Alice Sant'Anna, Mariana Ianelli e Ana Martins Marques, que explicam o florescimento de seus retalhos poéticos e falam sobre o papel da poesia hoje.
 
PROFISSÃO: POETA
 
Para a poetisa carioca Bruna Beber, autora de Rua da Padaria (Record), cujo maior prazer em escrever é perder tempo com as palavras e ganhar tempo com as palavras, “ser poeta é insistir em dizer, em cantar o mundo, em se apropriar dele para dar a ele novas formas”. E enfatiza: “Hoje a poesia está circulando mais, ganhando o merecido espaço, e ainda merece mais”.
 
Segundo a paulista Mariana Ianelli, o ofício do poeta é permeado mais por incertezas do que por certezas. “Está aí um desafio seriíssimo e dificílimo, ser poeta. Isso exige dúvida em relação a nós mesmos e a confiança do outro, o que costuma ser muito menos comum que a desconfiança”, adverte a autora do livro O Amor e Depois (Iluminuras).
 
Entre tantos recursos estilísticos, aos olhos da poetisa mineira Ana Martins Marques, tudo se complementa. “Na poesia, todos esses aspectos estão relacionados, de modo que é difícil separar o que é da ordem do som ou do sentido, do tema e do traço. A poesia é como aquele modo de dobrar as meias, em que o conteúdo e o invólucro são a mesma coisa”, explica a autora da obra Da Arte das Armadilhas (Companhia das Letras).
 
Da Arte das Armadilhas, de Ana Martins Marques
Ana Martins Marques
 
 
Para Mariana, não existe tempo perdido e nem subterfúgios. E o ponto de partida para a composição de seus versos se encontra na musicalidade. “Para mim, o que acontece é uma espécie de pensamento musical que vai se desdobrando no poema a partir do primeiro verso. É dentro desse pensamento musical que as imagens aparecem”, revela a escritora.
 
Autora do livro Rabo de Baleia (Cosac & Naify), Alice Sant’Anna não esconde a predileção pelo hiato. “O que mais me interessa quando escrevo é a quebra de versos e os fins dos poemas. Para mim, tentar transformar as quebras em abismos é a coisa mais importante”. Quanto ao papel da poesia, ela é franca: “Não sei qual é o papel, talvez não tenha papel. Acho que a ideia é fazer com que se olhe com mais atenção para uma coisa que sempre esteve lá”.
 
Rabo de Baleia, de Alice Sant'Anna
Alice Sant'Anna
 
 
AMOR ÀS PALAVRAS
 
O amor dedicado à poesia não é recente: ele remonta à infância e juventude das escritoras. “Escrevo poesia desde criança. Assim que aprendi a escrever, a primeira coisa que escrevi foi poesia”, afirma Bruna.
 
Já para Ana, escrever poemas é algo que faz desde os 8 anos de idade. "Um dos livros de que mais gostava na infância era Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meirelles, que foi para mim uma espécie de encontro inaugural com a poesia”, afirma.
 
Para Mariana, o momento de fascínio surgiu durante o contato com os versos de Mario de Andrade, em especial o poema “Entre o vidrilho das estrelas dúbias/Luisito, voas na guerra italiana…”. E acrescenta: “A poesia me acompanha desde a adolescência”.
 
O Amor e Depois
Mariana Ianelli
 
Tal como Mariana, Alice recorda que a poesia entrou em sua vida na adolescência e nunca mais saiu.
 
PONTO DE PARTIDA
 
Entre o computador e o velho papel, os gostos se misturam, mas é quase sempre no segundo que os versos começam a ganhar formas e sentidos. “Escrevo em qualquer pedaço de papel, bloco, caderno, caderneta. Mas essa parte do processo é inicial, de anotações e planos. Eu geralmente finalizo no computador. Em geral, vou anotando tudo onde dá e jogando para dentro do caderno”, revela Bruna.
 
No caso de Ana, também é no papel que tudo começa. “Sempre carrego um caderno na bolsa e vou fazendo anotações. Anoto palavras soltas, imagens, citações, ideias de títulos, um ou outro verso. Depois passo para o computador e vou trabalhando os poemas aos poucos. Alguns versos só vão encontrar lugar em um poema muitos anos depois, outros não encontram nunca”, confessa.
 
Com Mariana isso não é diferente. "Escrevo em folhas avulsas à tinta. Escrevo, rasuro, recomeço e deixo o poema descansar. Isso pode levar semanas. É como trabalhar uma trama muito fina. Isso pede uma disposição de espírito, que vai além de um exercício criativo”, conta.
 
A Rua da Padaria, de Bruna Beber
Bruna Beber
 
Ainda segundo ela, “a poesia hoje, à sua maneira, leva adiante vários aspectos já presentes na poesia do começo do século 20, como o elogio do cotidiano e das pequenas coisas. Mas agora, talvez comece a se configurar uma nova síntese, a possibilidade de um convívio profundo entre pequenas e grandes emoções”.
 
No entanto, como lembra Bruna, nem só de inspiração se faz um poeta: pelo contrário, é preciso muito trabalho. “A inspiração existe, mas [há] também o labor, que se impõe. Vejo os dois com igual importância”, conclui.
 
 
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