Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Outros 16.11.2020 16.11.2020

Porque sempre vale a pena ler José Saramago

José Saramago nasceu na Vila de Azinhaga m 16 de novembro de 1922. Filho de José de Souza, um agricultor que depois se tornou policial e de Maria da Piedade, ele se tornou um dos maiores e mais lidos escritores portugueses contemporâneos, recebendo o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e o Prêmio Camões, a maior honraria para escritores em Língua Portuguesa em 1995.

Curiosamente, o nome pelo qual seria imortalizado veio por engano. Como seus pais eram agricultores, o escrivão registrou o menino José pelo sobrenome Saramago porque era assim que a família era conhecida. Saramago é uma raiz forte, comumente usada em temperos por diversos povos europeus.

Porque ler Saramago

A obra de José Saramago é polêmica por excelência, colocando personagens fictícios ao lado de personagens históricos reais, em situações em que jamais os imaginaríamos, desconfortáveis, e por isso mesmo, questionadoras. Fantásticas, mas surpreendentemente conectadas com o real.

Você pode até se incomodar um pouco com a maneira que Saramago tratou figuras históricas, a política e a religião, razão de várias polêmicas, que o escritor certamente esperava que surgissem, porque sua militância e suas opiniões políticas faziam parte de sua arte.

Mas, ao criar uma obra frente à qual é impossível o leitor ficar indiferente, ele estava muito longe de buscar a polêmica pela polêmica. Saramago faz pensar com seu estilo de parágrafos longos, em que ele deixa que o leitor escolha se determinada passagem é uma fala de um personagem ou uma autorreflexão do próprio Saramago.

Para se ter uma ideia da força da obra de Saramago, Harold Bloom, um dos maiores críticos literários de todos os tempos, em 2003 o definiu como o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje, chamando-o ainda de “o mestre” e “um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer.”

Conheça algumas obras de José Saramago

O Evangelho segundo Jesus Cristo

Uma história ficcional e humanizada de Jesus Cristo que o mostra como uma pessoa normal, que inclusive, com Maria Madalena, “conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem”. O livro trata a crucificação como  “uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”.

Saramago explicou que O Evangelho Segundo Jesus Cristo não era somente uma crítica ao Cristianismo ou ao Catolicismo, mas a todas as religiões. Mas a polêmica gerou até mesmo censuras e boicotes em Portugal, fazendo com que Saramago abandonasse o país, se mudando para as ilhas Canárias.

Memorial do Convento

Lançado em 1982, narra a construção do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal, também conhecido como Convento de Mafra. Em uma crítica ao poder, o Memorial do Convento mostra Dom João V, um monarca absolutista, como um soberano falso e dissimulado, que constrói o Convento com o dinheiro do ouro e diamantes que trazia do Brasil.

Em contrapartida, mostra outro personagem histórico, o Padre Bartolomeu de Gusmão, um cientista e precursor da aviação, e Baltasar, chamado de Sete Sois, porque só consegue enxergar à luz do dia, e Birmunda, a Sete Luas, que só consegue ver à noite. Eles são o grupo que enfrenta o poder, representado pelo absolutismo de Dom João V e pela violência e obscurantismo da Inquisição.

Ensaio sobre a Cegueira

Outro clássico de Saramago, que tornou seu Nobel de Literatura “inevitável”, mostra o que acontece quando uma epidemia de cegueira branca toma uma cidade, abalando suas estruturas políticas e sociais. A epidemia começa quando um homem, sentado ao volante de seu carro tem um ataque de cegueira, e todos os que correm ao seu socorro vão sendo infectados.

O governo não consegue impedir que a cegueira branca se espalhe, e logo todo o mundo está cego. Assim surgem novas relações de poder, ganância, carinho, desejo e vergonha. Novos dominadores e dominados. Apenas uma mulher, secretamente, manterá sua visão, e presenciará os horrores desse novo mundo.

Outras obras de José Saramago

José Saramago no cinema

A obra de Saramago mais famosa adaptada para o cinema foi Ensaio Sobre a Cegueira, adaptada por Fernando Meirelles e lançado em 2008, em uma produção conjunta do Brasil, Canadá e Japão.  O elenco conta com nomes como Mark Rufallo, Dany Glover, Alice Braga e Gael Garcia Bernal e abriu o Festival de Cannes de 2008.

Mas outras obras também chegaram às telas como O Homem Duplicado, A Jangada de Pedra e A maior Flor do Mundo.

A morte de José Saramago

Saramago nos deixou em 18 de junho de 2010, vítima de leucemia crônica, aos 87 anos de idade em sua casa na ilha de Lanzarote, onde vivia com sua esposa, Pilar del Rio.  Seu funeral teve honras de Estado e exatamente um ano depois de sua morte, suas cinzas foram depositadas aos pés de uma oliveira em Lisboa.

O grande escritor português morreu, mas sua obra permanece, mais viva e atual do que nunca, para fazer pensar e refletir. Comemore lendo, ou relendo Saramago.

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