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José Luiz Passos explica seu rigoroso método de composição literária

Por Zaqueu Fogaça
 
Há 18 anos morando nos Estados Unidos, onde leciona Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Literatura Hispano-Americana na Universidade da Califórnia (UCLA), José Luiz Passos não perdeu seu simpático sotaque pernambucano. Durante sua passagem rápida pelo Brasil, ele se encontrou com o SaraivaConteúdo para uma conversa sobre sua composição literária.
 
Em uma cafeteria na região da Avenida Paulista, o encontro aconteceu imerso na leitura de Ar de Dylan, romance do espanhol Henrique Vila-Matas, que o escritor havia comprado na manhã da entrevista. A serenidade presente no tom de sua fala o deixava alheio à cerimônia do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, que naquela noite o consagraria com a premiação de melhor romance pela obra O Sonâmbulo Amador (2012).
 
Especialista em Machado de Assis, a quem dedicou dez anos escrevendo um ensaio extenso, reunido no livro Machado de Assis, o Romance Com Pessoas (2008), que será relançado no início de abril deste ano pela Editora Alfaguara, Passos parece ter se inspirado na narrativa e nos personagens machadianos para conceber suas obras; marcadas pelo ceticismo, pelos diálogos desconcertantes e pela ironia ambígua.
 
Nesta entrevista, o autor comenta sua maneira de escrever ficção, fala da importância dos diálogos em seus trabalhos ficcionais e explica sua predileção por uma literatura mais densa e complexa.
 
Uma característica muito presente em suas obras é a descrição. Você se entrega à narrativa e a explora em diferentes camadas, do sonho, da loucura e das memórias. É um processo incomum hoje, não?
 
Passos. Recentemente, li um texto crítico que dizia que o romance moderno não podia mais descrever as coisas, que a descrição havia morrido e que era uma coisa do romance do século 19. Fiquei impressionado com isso. Para mim, a grande coisa do romance é que na descrição você tem a possibilidade de falar coisas, localizar pessoas e consciências. Eu tento descrever as coisas desde que elas sejam importantes para a ação. Para mim, a descrição tem que trazer um enigma. A rigor, há nesse romance [ O Sonâmbulo Amador] quatro tipos de textos: Jurandir [protagonista da obra] narrando o que está acontecendo no presente, narrando seus sonhos, escrevendo suas memórias e as evocações que irrompem o plano presente sem que ele tenha controle sobre isso. Deixei o texto corrido, sem diferenças entres essas narrativas. Isso para que o leitor navegue nesse labirinto, que é do leitor e ao mesmo tempo de Jurandir.
 
Tanto em seu primeiro romance, Nosso Grão Mais Fino (2009), quanto em O Sonâmbulo Amador você confere uma atenção especial ao diálogo. A que se deve esse interesse e quais são os riscos ao trabalhá-lo na narrativa?
 
Passos. Para mim, o aspecto mais difícil da composição do romance é o diálogo. Porque é onde você corre o risco do falseamento total, de tornar o personagem ridículo, de descolar a consciência da voz. Essa modulação da fala, da frase, é muito complicada para o romancista brasileiro, de modo que essa questão sempre me angustiou. Em Nosso Grão Mais Fino, eu queria um romance que fosse um diálogo; mais do que um diálogo, que fosse uma espécie de colóquio sentimental, quase no estilo do recitativo, das óperas do século 18, que reforçasse o plano lírico. Em O Sonâmbulo Amador, queria que o meu burocrata do interior desejasse soar educado, mas muitas vezes não conseguisse refrear o coloquialismo da frase.
 
A narrativa de O Sonâmbulo Amador é incógnita e exige persistência do leitor para seguir adiante. Na verdade, essa lentidão se arma como um ensejo para criar laços mais profundos com o leitor?
 
Passos. Fiz isso intencionalmente. Eu queria que o personagem Jurandir não se entendesse, que ele não fosse claro e transparente para ele próprio, e que ele carecesse também dessa linguagem do eu, que nós temos. Aí ele se redescobre, mas tão lentamente que muitas das redescobertas são mais ou menos claras para o leitor e não tanto para ele. A narração é muito cadenciada, o ritmo de Jurandir é um ritmo de um burocrata prestes a se aposentar; então, ele não tem pressa de revelar nada. Portanto, demora até que o leitor encontre um fio condutor.
 
Seus personagens são complexos, vivem fora do seu tempo. De que maneira você procura desenvolvê-los e como eles contribuem para a narrativa?
 
Passos. Eu adoro personagens. Quando penso em um livro, penso primeiramente numa personalidade, a impressão de uma pessoa. Para contar a história de Jurandir, tive que lançar mão de pessoas que estão ao redor dele que me ajudassem a contar essa história. Comecei a conceber esse primeiro núcleo, que seria esse núcleo de cidade do interior: ele e o amigo de infância; ele e a esposa; ele e o filho ausente; e ele e Minie, sua amante. Depois desse quarteto, ele se desloca à clínica de Belavista, onde outros personagens servem de pano de fundo para essa transformação dele. Tive o cuidado na preparação dos vários níveis para que a consciência de Jurandir pudesse aflorar em sua verossimilhança mais complexa.
 
Afora o ofício de escritor, você também é crítico literário e professor de Letras. De que maneira essa base teórica o ajuda enquanto desenvolve a narrativa ficcional?
 
Passos. Minha consciência da estrutura literária ajuda, mas desde que eu não me permita ser colonizado pelo conceito, pelo teórico. Ser professor de Letras e conhecer crítica literária permite uma consciência maior dessas possibilidades para a estrutura, para a expressão dessa obra.
 
 
 
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