Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.11.2010 30.11.2010

José Bechara e o ofício do artista

Por Bruno Duarte

Foto de Tomás Rangel
Fotos de capa e obra (divulgação)

O artista plástico José Bechara está às vésperas de comemorar vinte anos de sua primeira exposição individual, a que ocorreu em 1992 no Centro Cultural Candido Mendes e marcou o início de uma trajetória de sucesso nas artes plásticas do Brasil. Bechara é um dos expoentes da geração 90 e começou na pintura destacando-se por unir audácia à formalidade. Preferiu emulsões de cobre e oxidações a tintas e pigmentos, negociou lonas de caminhão na estrada para sofrerem oxidação em seu ateliê e as transformou em obras de proporções grandiosas, utilizou couro de gado nos quadros da série Pelada e exibiu a intimidade de uma casa que expelia móveis e rotina por suas portas e janelas. Recentemente, passou a observar os desenhos acumulados em seu ateliê com outros olhos, as experiências visuais daqueles trabalhos podiam ser definidos em dois grupos –  os que nasceram como estudo para uma nova obra e os que se constituíam como a obra em si. Essa nova perspectiva se abriu para Bechara durante sua incansável rotina de sair todos os dias de casa, instalar-se em seu ateliê – no bucólico bairro de Santa Teresa – e “procurar coisas que não existem”.

Com inúmeras exposições individuais e coletivas no currículo, em todo o Brasil e em países como Portugal, Espanha, EUA, França e Suíça, Bechara reuniu recentemente sua produção de desenhos e fotografias de suas "esculturas gráficas" no livro José Bechara, desenhos: como piscada de vaga-lume (Editora Réptil). A publicação – que faz referência no título ao preciso momento da faísca criativa – apresenta um panorama dos trabalhos gráficos do artista, confrontados com dois ensaios. No primeiro, o crítico de arte Fernando Cocchiarale disserta sobre a produção recente de Bechara e a ressignificação do desenho na arte contemporânea a partir do fetiche da apreensão do instante, proporcionado também pelo desenvolvimento da fotografia. Uma instigante troca de cartas e-mails entre o artista e o também crítico de arte Paulo Reis, quando este visitou a mostra de Picasso e Cézanne no Museu Granet em Provença, no sul da França, acompanha a coletânea.  A conversa, de ares existencialistas, é iniciada a partir do questionamento de Reis sobre A casa, primeira experiência escultórica de Bechara, explorada em séries como Open House, A casa do Futuro e Ar – seria esta recorrente imagem de uma casa, sem pudores e alicerces, solta a vagar no espaço, como a montanha de Santa Vitória de Cézanne?

A casa tem, de um ponto de vista simbólico, essa metáfora sobre o perdimento, sobre essa inversão da vocação da casa – que é de proteger, de alojar. Essa casa desaloja, ela desprotege, ela desampara. É uma coisa que eu gosto de pensar, uma espécie de perturbação. É uma ideia que me persegue há algum tempo. A casa não pousou ainda, não encontrou um lugar, é um objeto que voa sem direção”, afirma Bechara na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. O artista é celebrado em duas exposições individuais no Rio de Janeiro. Ultramar com onze cabeças exibe na galeria Lurixs trabalhos inéditos e produzidos este ano, como a obra que dá título à exposição – que o artista chama de escultura gráfica – além de desenhos com oxidação de aço carbono sobre papel e pinturas.  A exposição é paralela à que José Bechara realiza no MAM do Rio – Fendas – com curadoria de Luiz Camillo Osório.  As duas mostras comemoram os 20 anos de trajetória do artista.

> Assista à entrevista exclusiva com o artista plástico José Bechara

Confira momentos da entrevista onde o artista fala sobre o recém lançado livro, a exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de suas primeiras esculturas e das novas possibilidades do desenho em sua obra.

Ideias com aparência

A gente tem que ser motivado por riscos, mostrar um trabalho que você ainda não tem um domínio dele, que não está bem compreendido pra mim. Eu acho que você nunca compreende bem o trabalho, ele aponta para um caminho. Eu nunca trabalho com certezas, eu considero uma pintura ou uma escultura como pronta, mas aquilo poderia ter sido feito de outra maneira também. Eu escolhi aquele material, aquelas dimensões, aquela aparência geral, mas isso é uma possível manifestação de uma ideia. Mesmo que você dê como pronto, o trabalho tem sempre uma vibração de dúvidas. O que está me preocupando na exposição do MAM é isso, a ideia é que ela confronte uma produção recente com uma imediatamente anterior e ver qual é o sentindo que eu posso extrair dessa colisão. Eu vou colidir trabalhos, no fundo são ideias com aparência, é assim que eu vejo o trabalho de arte. Eu estou apreensivo por isso, a produção se abriu muito nos últimos anos. Abriu para escultura, abriu para a pintura, abriu para a fotografia, abriu para desenho. O desenho ganhou um valor diferente no dia a dia do meu ateliê, que foi um dos motivadores para fazer o livro.

Rascunhos e desenhos

Eu tenho dois conjuntos de desenhos, o que os difere é a vontade ou a intenção com que cada um foi produzido. Alguns guardam uma força expressiva e têm essa autonomia, não foram produzidos com nenhum outro fim que não fosse a experiência visual no suporte desenho e outros não, foram realizados como estudos para produção de uma coisa no futuro que não tem a ver com aquele suporte, por exemplo, sai de um pedaço de papel e vira uma escultura de oitenta metros quadrados. Eu comecei a pensar um pouco nisso. Depois em um encontro inesperado com o Fernando Cocchiarale, uma conversa de oito segundos na verdade, algo que me chamou a atenção. Ele disse que o desenho era, talvez, o mais poderoso e democrático dos meios porque com um simples pedaço de grafiti e uma folha de papel você podia expressar muita coisa. Eu fiquei pensando naquela frase e, de volta ao ateliê, pensei naquele conjunto de desenhos que eu havia reencontrado no meio daquela bagunça, aí fiquei com vontade de fazer o livro, porque esse conjunto de desenhos dado como autônomos estavam desaparecendo. O meu ateliê não é um lugar preparado para a preservação, é um local vocacionado para a produção, eu já tinha feito duas restaurações nesse conjunto de desenhos – essas restaurações não são baratas – e a cada vez que você restaura o assunto vai se apagando um pouco. Guardar essas experiências, mais uma razão de produzir o livro. Não são os originais, mas eu estou com o registro deles.


Esculturas gráficas

Eu senti vontade de discutir o desenho junto com as outras coisas que eu normalmente faço no ateliê. Aonde mais o desenho aparece, para o que mais ele serve, de que outras maneiras eu posso produzir uma experiência e chamá-la de desenho? Isso deu no trabalho mais recente, que o Fernando [Cocchiaralle] nomina de “esculturas gráficas” ou “desenhos espaciais”. São experiências que, embora numa primeira visada você reconheça como escultura, eu quero propor que você veja aquilo como um desenho. Um desenho no espaço, com geometria rigorosa e cálculo preciso no espaço. Eu queria que essa reunião de trabalhos revelasse essa experiência nova, que é uma pergunta, uma tentativa, uma experiência mesmo. Nasce da vontade de mostrar mais um caminho, não um caminho novo, mas mais um caminho dentro da produção do ateliê, por exemplo.

“Todos os dias faço a mesma coisa: procuro coisas que não existem”

Eu dediquei esse livro para os meus filhos [Luísa, Tereza e José Roberto]. Eles passam a vida escutando eu dizer assim “eu tenho que ir para o ateliê”. Eu tenho uma saudade permanente deles e queria estar mais presente. Eu trabalho todos os dias, de domingo a domingo, só não venho ao ateliê se eu estiver doente ou fora do Rio de Janeiro. Eu sei que eu não falto com eles, vamos ao cinema, vamos à praia, vamos ao teatro, mas são eventos mais raros. A frase de abertura do livro foi a forma que encontrei de explicar para eles o que significa “agora não dá, o pai tem que ir para o ateliê”. É isso, você chega no ateliê e faz o quê? Claro, eu continuo trabalhos que eu interrompi ontem, mas, de um modo geral, é procurar o que não existe. Seria mais fácil você procurar uma coisa que existe, só não sabe onde está [risos]. E é todo dia, todo dia eu faço a mesma coisa, todo dia eu abro a porta do meu ateliê para procurar o que não existe – que na verdade é inventar o trabalho e esperar que pelo menos um dê certo.

A casa

Eu estudei na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, saí de lá em 1990. Em 1992 eu faço a minha primeira exposição em pintura e só em 2002 eu realizo minha primeira experiência escultórica – A casa. Imagine que um dia você chega em casa e a casa se cansou de você. Ela cospe móveis, mas na verdade coloca você pra fora, porque os móveis são uma espécie de diário de anotações involuntário, mas que acontece todo dia. A casa tem, de um ponto de vista simbólico, essa metáfora sobre o perdimento, sobre essa inversão da vocação da casa – que é de proteger, de alojar. Essa casa desaloja, ela desprotege, ela desampara. Imagina que um dia você chega e a casa está vazia. Os móveis se cansaram de ti e estão indo embora e você está naquele objeto vazio, desprovido de memória, de tempo. Tem a ver também com falta de lugar para as casas. É uma ideia que me persegue há algum tempo. A casa não pousou ainda, não encontrou um lugar, é um objeto que voa sem direção. É uma coisa que eu gosto de pensar, uma espécie de perturbação. Do ponto de vista formal, a intenção é dar forma por adição de outros objetos. Pelo reconhecimento de que a casa e os objetos que nela estão são objetos geométricos. 

Ok, ok, Let´s talk

Ok, ok, let's talk é uma peça que vem logo em seguida e parte da ideia da utilização de um certo mobiliário doméstico e que lida com geometria em grande escala, intervenção em espaço arquitetônico e que também traz uma carga simbólica sobre o amor. Eu falei isso uma vez, mas a pessoa que escutou duvidou. Ok, Ok, let's talk fala sobre relações delicadas, diálogos impossíveis que algumas relações, depois de um certo tempo, tem que travar e é sempre complicado. É uma experiência de intervenção espacial, é uma experiência formal no que diz respeito a intervenção, alteração ou ativação, seja o nome que você queira dar, de espaço arquitetônico, mas que tem um vetor simbólico também, nesse vetor simbólico eu posso falar que é um trabalho sobre o amor, sobre a experiência difícil que as relações longevas oferecem.

Salvo em mar aberto

Para o artista, o livro serve para organizar o pensamento. O livro tem alguns benefícios notáveis. Um é o de voar – que a Sandra Secco, uma artista plástica de São Paulo, diz, “livros têm asas” -, o livro ajuda a colocar o seu trabalho em circulação. O outro, que eu acho que é até mais poderoso do que esse, para gente que é artista, é a possibilidade que ele oferece de concentrar o pensamento, de reunir uma determinada produção, oferecer uma leitura concentrada de um determinado pensamento. Os desenhos desse livro estão espalhados. Alguns estão em exposição, outros em produção, outros estão guardados longe da luz. Quando eu pego o livro, eu tenho uma observação mais robusta daquilo que é a produção, e mais, confrontada com ensaios críticos – o que é melhor ainda. Quando eu pego e olho esse livro que eu acabo de fazer, eu consigo pensar melhor sobre o que eu estou produzindo, não pela reunião daquilo que eu estou vendo, mas daquilo que eu estou lendo sobre aquilo que eu estou vendo também, isso é muito precioso, é como ser salvo em mar aberto. O livro me ajuda a retomar caminhos, me encoraja a abrir caminhos que eu tinha dúvida, estava um pouco desencorajado. O que eu espero do livro é isso, que ele me ajude a procurar o que não existe, que é o que eu faço todo dia no ateliê.

> Assista à entrevista exclusiva com José Bechara ao SaraivaConteúdo

Serviço
José Bechara – Ultramar com 11 cabeças
De segunda a sexta, das 14h às 19h
Aos sábados, agendamento por telefone
Até 23 de janeiro de 2011
Lurixs: Arte Contemporânea, Rio de Janeiro
Endereço: Rua Paulo Barreto 77, Botafogo
Entrada Franca

José Bechara – Fendas
De terça a sexta, das 12h às 18h
Sábado, domingo e feriado, das 12h às 19h
Até 30 de janeiro de 2011
Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro
Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo
Ingresso: R$8,00
Estudantes maiores de 12 anos R$4,00
Maiores de 60 anos R$4,00
Amigos do MAM e crianças até 12 anos entrada gratuita
Domingos ingresso família, para até 5 pessoas: R$8,00

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