Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 29.10.2013 29.10.2013

José Alvarenga Jr. fala de duas de suas maiores paixões: cinema e TV

Por André Bernardo
 
Disputar o Prêmio Emmy Internacional não chega a ser uma novidade para José Alvarenga Jr. Aos 52 anos, ele já concorreu à premiação – que é considerada o Oscar da televisão mundial – em três diferentes ocasiões: em 2006 e 2007, por Os Amadores, de Mauro Wilson, e em 2011, por Separação?!, de Alexandre Machado e Fernanda Young.
Diretor de Como Aproveitar o Fim do Mundo, que narra as peripécias amorosas de um casal às voltas com uma antiga profecia maia, ele disputa a categoria de melhor série cômica com outras três produções: a sul-africana Late Nite News With Loyiso Gola, a britânica Moone Boy e a francesa Workingirls.
“Não acho que temos chances de ganhar. Pelo menos não como tínhamos em 2011, quando disputamos o prêmio por Separação?!”, analisa Alvarenga Jr., em sua residência na Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro. “Para ganhar uma estatueta do Emmy, você tem que ter qualidade artística e modelo de produção. E, até pela própria temática, Como Aproveitar o Fim do Mundo não é um produto vendável para o resto do mundo. Dessa vez, só vamos lá para tirar fotos e fazer compras”, brinca o diretor, que já dirigiu desde drama hospitalar, como Mulher (1998-1999), até comédia nonsense, como Os Normais (2001-2003), em seus 16 anos de Rede Globo.
Sua estreia na direção de séries se deu em 1997, quando aceitou um convite de Daniel Filho para reforçar o time de diretores do seriado A Justiceira, estrelado por Malu Mader. No cinema, chegou a dirigir cinco dos 23 filmes de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias: Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva (1988), O Casamento dos Trapalhões (1988), A Princesa Xuxa e Os Trapalhões (1989), O Mistério de Robin Hood (1990) e Os Trapalhões e a Árvore da Juventude (1991).
Enquanto não embarca rumo Nova Iorque para a cerimônia de entrega do Emmy, que acontece no dia 25 de novembro, o diretor se dedica a dois novos projetos: o longa O Mundo dos Esquecidos, adaptado por Adriana Falcão a partir de peça homônima de sua própria autoria, e o seriado policial O Caçador, escrito por Fernando Bonassi e Marçal Aquino, a mesma dupla de Força-Tarefa (2009-2011).
O SaraivaConteúdo bateu um papo com Alvarenga Jr. sobre sua trajetória e seus trabalhos na TV e no cinema. Confira!
Depois de Os Amadores e Separação?!, chegou a vez de Como Aproveitar o Fim do Mundo concorrer ao Emmy Internacional. Você já cogitou a hipótese de trabalhar na TV norte-americana?
Alvarenga Jr. Para trabalhar lá fora, eu teria que abrir mão do que conquistei aqui. E não sei se estou disposto a isso. Lá fora, não terei a liberdade de criação que tenho no meu país. Aqui ninguém me diz como devo trabalhar. Já fui mais ambicioso do que sou hoje em dia. Quando recebi a notícia do Emmy, parei e comemorei, mas logo em seguida voltei a escrever o roteiro de O Caçador, que estreia em abril [de 2014]. Fiquei feliz? Fiquei. Mas meu foco hoje é outro. Aos 52 anos, prefiro viver mais e trabalhar menos. Viver é a matéria-prima do artista.
 
Os Amadores
Como Aproveitar o Fim do Mundo

Desde que estreou em A Justiceira, você dirigiu basicamente séries na Rede Globo. Acredita que um dia a TV brasileira vai conseguir se firmar como uma potência na produção e exportação de seriados?

Alvarenga Jr. Há vários tipos de seriados. Há os que apostam em nichos e os que dialogam com todo mundo. Pessoalmente, acho o primeiro tipo mais competitivo. Com ele, você pode ser mais agudo na temática e mais radical na estética. O Schroder [Carlos Henrique, diretor geral da Rede Globo] adoraria que o Brasil, um dia, produzisse uma série como Família Soprano. No que diz respeito às comédias, a gente vai muito bem, obrigado. Mas, para produzir uma Família Soprano, a gente precisa aprender antes como se faz.
Em 1997, você foi convidado pelo diretor Daniel Filho para trabalhar em A Justiceira. Na época, houve relutância ou preconceito de sua parte?
Alvarenga Jr. De maneira nenhuma. Quando o cinema acabou no Brasil, por uma série de políticas equivocadas, migrei para a publicidade. Foi nessa época que o Daniel me chamou. Levei para a TV uma lição que aprendi na publicidade: em um anúncio de comercial, você tem um tempo muito curto para sensibilizar o outro. Mais do que isso, tem um tempo muito curto para convencê-lo a consumir aquele produto ou a embarcar naquela viagem. Se você tem técnica, você transita numa boa por qualquer veículo. Preconceito é algo que nunca tive.
Dos muitos seriados que dirigiu na TV, sete foram escritos por Alexandre Machado e Fernanda Young. Qual é a sua parcela de contribuição nessa parceria? Já tiveram algum tipo de desentendimento artístico?
Alvarenga Jr. A publicidade me ensinou muitas coisas. Trabalhar em equipe foi uma delas. Quando o Alexandre manda o texto de um novo programa para mim, tento interpretá-lo visualmente. Se não consigo, ligo para ele, proponho alterações e ninguém fica melindrado. A publicidade nos ensina a ser rejeitado. De que adianta você ter uma ideia genial, mas o cliente não gostar dela? Em vez de desanimar, aprendi a fazer ainda melhor. A negativa não me deixa para baixo. Pelo contrário, ela me encoraja a recuar, entender o porquê e buscar outra saída. A TV é uma arte tão plural quanto qualquer outra.
Das muitas revoluções tecnológicas que você teve a oportunidade de testemunhar do final dos anos 1980 para cá, qual teria sido a mais impactante e revolucionária?
Alvarenga Jr. Você sabe por que os seriados brasileiros de polícia nunca deram certo? Porque eram filmados em 30 quadros por segundo. É como se o público assistisse às cenas em câmera lenta. Quando a TV migrou para 24 quadros por segundo, ganhou agilidade. Tudo o que dirigi na TV Globo foi em 24 quadros por segundo. Fui um dos precursores dessa técnica dentro da emissora. Essa inovação quebrou paradigmas e transformou a TV em cinema. Hoje, tudo o que você assiste, tanto na TV aberta quanto na fechada, tem cara de cinema.
Os Normais – O Filme completa dez anos. Na época, a produção contabilizou quase três milhões de espectadores e consolidou a transposição de sucessos televisivos para o cinema. Quais as vantagens e desvantagens de transpor produtos da telinha para a telona?
Alvarenga Jr. Bem, estamos falando de um fenômeno que nem sempre dá certo. Recentemente, tivemos dois fracassos: Giovanni Improtta, do José Wilker, e O Diário de Tati, do Mauro Farias. No caso de Os Normais – O Filme, o produtor Bruno Wainer, da Lumière, virou para a gente e disse: “Olha, temos a grana. Por que não fazemos o filme?”. OK, fomos lá e fizemos.
 
Os Normais – O Filme foi contundente, provocativo e incômodo. Alguns críticos tentaram emplacá-lo como “neochanchada”, mas não colou. Já Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas, seis anos depois, a gente fez para os fãs. Mesmo depois de o seriado sair do ar, o pessoal na rua seguia cobrando uma continuação. Na época, o Alexandre propôs: “E por que a gente não faz um filme sobre ménage à trois?”. Mais uma vez, fomos lá e fizemos. A crítica, claro, "caiu de pau" em cima da gente. Mesmo assim, fizemos 2,2 milhões de espectadores.
 
Cenas de Os Normais – O Filme e Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas
E Os Normais 3?
Alvarenga Jr. Ah, o roteiro já está até pronto, mas esse filme não vai sair nunca. Só falo isso para provocar [risos]… O argumento é divertidíssimo: é um pseudodocumentário sobre Rui e Vani [interpretados por Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres]. No momento, tenho outros planos em mente. Um deles é O Mundo dos Esquecidos, um projeto dificílimo da Adriana Falcão que flerta com o realismo fantástico.
Em seu currículo, você coleciona de drama hospitalar a thriller policial, de seriado nonsense a comédia de costume. Como analisa o mercado hoje no que diz respeito à forma e ao conteúdo?
Alvarenga Jr. Perto do que tínhamos há 20 anos, avançou muito. Quando estreei na TV, não havia nada. As séries iam e vinham. A gente estabeleceu um padrão. Hoje em dia, a linguagem das telenovelas se aproximou muito da dos seriados norte-americanos. O que resta a nós? Dar novos saltos. OK, mas que saltos são esses? São saltos temáticos? Desconfio que sim. A pergunta que eu faço é: "O que temos que falar neste horário? Temos que dialogar menos com a família brasileira ou acreditar mais que ela vai embarcar em nossa viagem?". Essa é uma discussão quase que diária lá na TV Globo.
Você cresceu assistindo a séries como Jeannie é um Gênio, Bonanza e Kojak, certo? Das muitas a que assistiu, quais as mais determinantes em sua formação?
Alvarenga Jr. Vi de tudo: A Feiticeira, Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, Túnel do Tempo… E adorava também a “Sessão da Tarde”. Naquela época, ela reprisava os grandes clássicos de Hollywood. Adorava Franklin Tashlin, diretor de algumas das mais divertidas comédias de Jerry Lewis. Hoje em dia, quando estreia uma nova série, dou uma olhada. Uma das preferidas aqui em casa é The Walking Dead. Mas não sou daqueles que aluga a temporada completa e assiste um episódio atrás do outro. Nada é tão fundamental assim.
 
A Diarista e Divã (série de TV) foram dirigidas por José Alvarenga Jr.
 
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