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Jornalista e escritor Toninho Vaz lança 2ª edição do livro Solar da Fossa

Por Daniela Guedes
 
Ele já biografou dois ícones da contracultura brasileira, Paulo Leminsky e Torquato Neto. Escreveu também sobre a vida e obra de Santa Edwiges, a santa dos endividados. Além de contar a história do ‘Rei do Cinema’, Luiz Severiano Ribeiro. Toninho Vaz, este jornalista curitibano ávido por nos trazer casos da vida real, de personagens ou lugares que deixaram marcas indeléveis na humanidade, acaba de relançar o seu último trabalho, intitulado Solar da Fossa, um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias.
O livro nos apresenta uma sucessão de fatos marcantes que aconteceram na agitada e perseguida cultura popular brasileira. De 1964 a 1971, no período mais duro da ditadura militar, a pensão Santa Terezinha – instalada num casarão de dois andares, em Botafogo, no Rio de Janeiro e, depois jocosamente apelidada de Solar da Fossa –, abrigou nomes importantes da música, TV, literatura e teatro brasileiros.
Ali viveram, em momentos simultâneos ou distintos, Gal Costa, Tim Maia, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Betty Faria, Antônio Pitanga, Zé Kétti, Guarabyra, Caetano Veloso, entre muitos outros. Foi nesse Solar que Caetano compôs “Paisagem útil”, marco do Tropicalismo. Foi lá também que Leminski escreveu “Catatau”. O grupo Sá, Rodrix e Guarabyra foi formado ali. Paulinho da Viola compôs “Sinal fechado” num de seus quartos.
E é esta contribuição do Solar como inspiração para a cultura brasileira da época que Toninho refaz no livro. Nesta entrevista, ele nos conta um pouco mais sobre esse lugar que, apesar de não existir mais fisicamente (foi demolido para a construção de um shopping center), ainda se mantém bem vivo e imponente na memória dos que ali viveram.
 
Como surgiu a ideia de retratar a história do Solar da Fossa?
Toninho Vaz. Estive no Rio em 1970 e pude sentir a importância do Solar na vida de muitos amigos, incluindo os escritores Paulo Leminski e Wilson Bueno, que moravam lá. A pensão sempre esteve ligada a boas histórias envolvendo uma boa camada da nossa cultura naqueles anos. Como diz o Guarabyra, o livro Solar da Fossa revela o DNA da cultura brasileira contemporânea.
Você chegou a frequentar o Solar da Fossa?
Toninho Vaz. Não, apenas conheci o casarão de fora, passando pela porta, um ano antes da demolição, mas a pensão ainda funcionava. 
                                                                                                                                   
Conte-nos o porquê do nome Solar da Fossa.
Toninho Vaz. O nome surgiu da cabeça de um veterano, o carnavalesco Fernando Pamplona, do Salgueiro, que tinha sido colocado pra fora de casa pela mulher. Ele estava separando e foi morar na pensão Santa Terezinha. Quando concedeu uma entrevista para um jornal, falando do carnaval que se aproximava, ele explicou que estava curtindo uma fossa naquele Solar. A expressão estava na edição do dia seguinte: Solar da Fossa.
Em sua opinião, o que existia naquele lugar para ser tão procurado e frequentado por tanta gente boa e talentosa?
Toninho Vaz. Foi uma feliz coincidência que gerou o fenômeno embalado nos anos rebeldes, os anos 60. Os jovens queriam deixar a casa dos seus pais para fazer música ou política estudantil e, em muitos casos, as duas coisas. O serviço oferecido pela pensão prenunciava as ofertas de um Apart hotel, com faxina diária e troca semanal de roupa de cama, desde que o pagamento fosse adiantado – o que desobrigava a existência de um fiador, um avalista. Era muito prático para quem podia pagar. A descoberta da pensão pela turma do Teatro Jovem, no Mourisco, gerou um interesse coletivo de músicos e artistas, que foi se alastrando… A palavra “liberdade” estava no centro dos interesses.
De todas as histórias que ouviu e relatou no Solar da Fossa, qual foi a que você achou mais interessante?
Toninho Vaz. Difícil destacar apenas uma, mas gosto da molecagem do Guarabyra, gravando os ruídos do amor do vizinho mais próximo e depois reproduzindo em alto e bom som no Teatro Casa Grande; da presença forte e adulta da Maura Lopes Cançado, pessoa trágica que escreveu um livro no manicômio: Hospício é Deus. As criações musicais de Paulinho da Viola, Caetano, Naná Vasconcelos, MPB4. Tim Maia… Um punhado de boas memórias musicais. Como sou biógrafo de Leminski e Torquato Neto, dediquei atenção especial à passagem deles pelo Solar – o que também rendeu boas histórias.
 
Naquela época, que outros locais também atraíam a contracultura brasileira? Algum deles poderia ser comparado ao Solar?
Toninho Vaz. Bem, em outra escala, havia o Beco das Garrafas, em Copacabana; o trecho da praia conhecido como Dunas da Gal ou Píer de Ipanema. Mas nada comparado com a mística do Solar da Fossa, que abrigou uma média de mil moradores durante os oito anos de existência da pensão: 1964-1971.
 
O local era bem ao estilo sexo, drogas e rock and roll? Dá pra contar um “causo” legal?
Toninho Vaz. No início não havia muitas drogas, que se resumiam às bolinhas de anfetamina e conhaque Dreher. Depois apareceu a maconha e, no final, LSD. Nada de cocaína ainda. O sexo era bem praticado e o rock and roll dividia os holofotes com a MPB clássica. Eu gosto do episódio em que o Paulinho da Viola mostra a letra de uma música que tinha acabado de escrever. Quem viu não gostou e fez o comentário: “Não dá samba”. No dia seguinte, quando ouviu com música, a mesma pessoa adorou. Era Sinal Fechado, com ares de nova poesia, que logo estaria liderando as paradas de sucesso.
 
Capa do livro Solar da Fossa
Podemos considerá-lo um saudosista? Existe algo em que o mundo naquele tempo tenha sido melhor do que hoje?
Toninho Vaz. Não me vejo como um saudosista clássico. Minha tarefa, enquanto jornalista, tem sido chamar atenção para o que de melhor minha geração produziu. Sou biógrafo de Leminski e Torquato por achar que eles representam a produção poética mais interessante e inquieta dos anos 60, com qualidade. O mesmo acontece com o Solar da Fossa, que foi um espetacular acontecimento cultural, surgido de forma espontânea e que, portanto, merece registro. Agora, o fato de eu ser testemunha das rebeldias dos anos 60, da explosão da juventude e dos meios de comunicação, sim, me torna um espectador privilegiado, pois tudo era inaugural e magnânimo.
Pela história transposta para o livro, você acabou tendo um contato muito intenso com aquelas personagens e o próprio local dos acontecimentos. Qual o tamanho da importância dessa experiência para você, enquanto escritor e jornalista?
Toninho Vaz. De muitos personagens do Solar eu já era amigo antes de entrevistá-los. É o caso dos curitibanos Leminski, Wilson Bueno, Adelson Alves e Marcelo Baraúna. Sou amigo da Maria Gladys há muito tempo; o mesmo posso dizer de Sá, Guarabyra e Carlos Marques, outro personagem polêmico do livro. Me aprofundar nas histórias e na produção cultural desse período foi como ter aula viva sobre cultura pop, com direito a uma trilha sonora espetacular.
Em determinado momento, o Solar passou a ser considerado como um estilo de vida, uma filosofia. Como você analisa esse fato?
Toninho Vaz. Um estilo de vida. É o que resultou da experiência que reuniu a nata da criação e do pensamento contemporâneo brasileiro. No Solar tinha de tudo, até circo, no caso o Grande Circo Romano.
Você encontrou algum tipo de dificuldade na preparação deste livro?
Toninho Vaz. Nenhuma dificuldade, pelo contrário, pois a maioria dos moradores da pensão ainda está viva. Poucos se foram: Zé Keti, Zé Rodrix, Leminski, Bueno, Maura Lopes, Tânia Scher…
Além das biografias do Paulo Leminski e Torquato Neto, você já tem algum novo projeto biográfico em curso?
Toninho Vaz. Sim, mas por enquanto não posso revelar, pois a pauta futura é segredo editorial. As boas ideias estão escassas… (risos)
Algumas histórias de lugares emblemáticos, como o Minhocão, em São Paulo, e o Edifício Master, no Rio de Janeiro, já viraram filmes. Não pensa em contar a história do Solar no cinema?
Toninho Vaz. O jornalista Luis Carlos Cabral, que eu conheci na TV Globo, está iniciando a produção de um documentário. Como eu já disse, o bom é que quase todos os personagens estão vivos para recontar a história e facilitar o trabalho dele.
Você começou a se interessar por jornalismo ainda muito jovem. A literatura teve um papel importante nesse processo?
Toninho Vaz. Sim. Tenho que dizer que conhecer Paulo Leminski, quando eu tinha 22 anos, foi fundamental. O poeta curitibano me despertou o interesse pelas letras, pelos livros, pela literatura. Costumo dizer que antes de conhecer o Paulo, eu era um sujeito bem tacanha. Depois, engatei uma segunda, terceira… E fui sozinho.
Quais são as suas principais referências literárias?
Toninho Vaz. Senti o impacto das primeiras leituras em Dostoiévski, Flaubert, Conrad, Guimarães Rosa e Oscar Wilde. Mas o primeiro livro que me marcou foi Cazuza, de Viriato Correia, quando eu tinha 14 anos.
Em Solar da Fossa, você diz que naquele tempo (anos 70), havia uma ideologia na juventude, quando ela se posicionava como “uma força ativa na vida e na construção do país”. Diante disso, é possível pensar ainda em um resgate dessa ideologia?
Toninho Vaz. Os tempos são outros. Os novos tempos não comportam mais romantismos e ludo-ludo, ou seja, o jogo não eletrônico da vida; a automação está tomando conta do cotidiano.  O mundo está globalizado, para o que há de bom ou ruim nisso. Para salvarmos a própria vida, temos que, antes, salvar o planeta.
 
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