Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 26.04.2012 26.04.2012

Jornalismo em quadrinhos: a arte de contar histórias

 
Suzanna Ferreira
Embora o termo "jornalismo em quadrinhos" seja recente e ainda pouco propagado pelas redações de revistas, jornais ou sites, há pesquisas sobre ocorrências dele no século XIX.
Segundo o jornalista e pesquisador do assunto, Augusto Paim, nessa época não havia muitos recursos para registrar os fatos.
 
Então, o lápis era o único elemento que narrava os acontecimentos, como uma máquina fotográfica nos dias de hoje.
Paim, que promove a curadoria do II Encontro de Jornalismo em Quadrinhos, que vai acontecer neste ano, em Porto Alegre, descobriu que existe até um centro de estudos especializado no assunto, chamado Melton Prior Institut, na Alemanha. O nome é uma homenagem ao artista inglês e correspondente de guerra, que era um dos principais ilustradores na época.
 
Atualmente, essa vertente aparece em projetos específicos ou em pesquisas aprofundadas sobre algum tema. Entre essas obras, a definição sobre o que é jornalismo e o que é quadrinhos divide-se.
 
Lembra do livro Persépolis, que foi para o cinema? Ele conta a história de Marjane Satapri, que narra e ilustra os conflitos internos do Irã de sua infância.
 
Segundo Felipe Muanis, ilustrador e professor do Departamento de Cinema e do programa de pós-graduação em comunicação social da UFF (Universidade Federal Fluminense), do Rio de Janeiro, Persépolis não é jornalismo, mas um quadrinho autobiográfico: quando alguém participa dos eventos que são narrados em prosa.
"O jornalismo em quadrinhos acontece quando um repórter vai até o local, investiga e publica a história, ou seja, o mecanismo é convencional", diz Muanis.
O que tem sido feito no Brasil
Recentemente foi publicada, na revista Fórum, uma matéria sobre os últimos acontecimentos na região da Luz, conhecida pela famosa alcunha de crackolândia.
Os jornalistas Alexandre De Maio e Carlos Carlos, foram até o local e conversaram com um usuário de crack, que vive na região há 15 anos.Os relatos trazem informações sobre a vida do entrevistado, como sua profissão e seus projetos de vida, além de um questionamento sobre as opções de tratamento e recuperação que os usuários da droga dispõem do governo.
 
 
Para realizar essa reportagem, os jornalistas precisaram de algumas semanas. O repórter Carlos Carlos realizou a pauta e a entrevista, e Alexandre De Maio, que também é ilustrador, fez os traços.
Durante o processo, ele utilizou papel, caneta, câmera fotográfica, scanner e impressora. "Acompanho a entrevista e faço algumas fotos do local e do entrevistado. Assim, a matéria fica viva na cabeça, até que o repórter envie o texto pronto para ilustrar", conta De Maio.
Já o jornalista Augusto Paim passou alguns dias na comunidade Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Em parceria com o ilustrador Mau Mau, ele narrou a invasão policial e seus desdobramentos na guerra ao tráfico. O trabalho foi publicado no site internacional Cartoon Movement, também em formato de jornalismo em quadrinhos.
 
Os temas complexos são mais comuns nesse tipo de narrativa, segundo o ilustrador e professor de cinema Felipe Muanis.“Como o desenho é mais detalhista, ele pode trazer algum aspecto que uma foto dificultaria. Uma imagem de uma cena dura pode ser mal vista. Já um desenho que represente a mesma imagem cria menos impacto e rejeição ao leitor”, explica.
Muanis ilustra a situação em uma frase publicada em um dos seus artigos sobre os quadrinhos autobiográficos e jornalismo em quadrinhos: "Não existem imagens contundentes na mídia como a narrativa de Spiegelman ao representar um prisioneiro no campo de concentração, se alimentando de sopa de baratas".
Já a jornalista Patrícia Villalba resolveu unir gerações da música brasileira em um encontro de dois entrevistados, como Tom Zé e o cantor Otto, em reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo, em 1999. Na época, a matéria ficou conhecida como a primeira reportagem em quadrinhos realizada no Brasil.
 
 
Um pouco de Spiegelman e Joe Sacco
Essa vertente do jornalismo começou um pouco com Art Spiegelman: ilustrador e autor de HQs, famoso na década de 60 e 70 pelo movimento underground dos quadrinhos.
Spiegelman é o único autor de quadrinhos a ganhar o prêmio Pullitzer, pela obra Maus: A História de um Sobrevivente, que retratava a história de como seus pais sobreviveram ao Holocausto.
O prêmio é voltado para pessoas que realizaram grandes feitos em jornalismo, literatura ou música.
 
Em seguida, e comparado com Spiegelman, surge Joe Sacco, jornalista e ilustrador que passa a retratar situações de guerra.Sacco foi o primeiro a usar o termo "jornalismo em quadrinhos" para definir os seus processos de narrativa.
Ele lançou livros-reportagem sobre conflitos entre israelenses e palestinos em Palestina: uma Nação Ocupada, que foi vencedor do prêmio HQ Mix como melhor graphic novel estrangeira, e Palestina: Na Faixa de Gaza, ambos produzidos após uma viagem ao Oriente Médio, que realizou entre 91 e 92.
Mais tarde, entre 2002 e 2006, Sacco volta à Palestina, o que dá origem ao livro Notas de Gaza, que faz um resgate sobre episódios violentos ocorridos em 1956 na região.Sacco passou de 2 a 4 meses nessas regiões para coletar depoimentos e realizar uma pesquisa profunda sobre tais pautas.
 
“Uma das características de sua obra é que ele surge momentaneamente para conversar com o leitor, ou figura como um mero personagem observador”, contextualiza Felipe Muanis.
O futuro e as histórias que estão por vir
Segundo Augusto Paim, algumas instituições internacionais que realizam pesquisas a respeito do assunto começam a discutir novas dinâmicas sobre o tema.
Ele acredita que muitos ilustradores de quadrinhos podem atuar como jornalistas, mas o contrário não acontece se o hábito da ilustração não existe. “O jornalismo em quadrinhos necessita de uma pesquisa mais aprofundada, pois usa elementos da arte, tem um lado romântico. Isso você não faz em um dia, não tem como ser diário”, conclui.
 
 
 
 
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