Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.09.2012 17.09.2012

Jorge Bucay: “Escrevo para transcender”

Por Sarah Correa
 
Camisa branca de algodão, barba e cabelos grisalhos. Olhar manso, fala baixa, porém precisa. Essas simples características ilustram a imagem do modesto escritor Jorge Bucay, considerado por muitos o ‘Paulo Coelho argentino’, pelo fato do grande sucesso de vendas de seus livros ao redor do mundo – seis milhões de exemplares em 38 países.
 
De passagem por São Paulo, o terapeuta e autor de contos recebeu o SaraivaConteúdo para uma conversa sobre a importância das histórias. No encontro em um hotel da capital paulista, o tempo congelou-se por uns instantes. A magia de suas palavras e retórica fez pensar-se o instante do presente como único, inundado de conselhos para toda a vida.
 
“Nunca escrevi para ganhar aplausos. Sempre escrevi por prazer. Escrevo para transcender”, disse o autor. E seus livros transcendem. Os três títulos lançados no Brasil pela editora Sextante – dentre os mais de 20 já escritos –, Amar de Olhos Abertos, Quando me Conheci e o mais recente, As Histórias que me Ensinaram a Viver, catapultam o leitor em direção a um processo de reflexão interior.
 
Médico de formação, especializado em psiquiatria com estudos sobre as doenças mentais, o argentino passou mais de três décadas no consultório, ouvindo as dores humanas. Com elas, aprendeu a contar outras histórias. Ou melhor, recontar os contos que atravessam os tempos da humanidade. E assim, mostrar aos seus pacientes e leitores uma possibilidade de encontrar um caminho e enxergar seus pares.
 
Os primeiros anos de vida, até o inicio da juventude, foram humildes. Bucay trabalhou como taxista, palhaço e vendedor, mas sempre carregou consigo o prazer pela leitura. Com ascendência árabe e curda, escutou desde muito cedo os contos que o avô adorava proferir.
 
Capa do novo livro do autor
Das histórias saídas da boca do avô, ele reuniu em seu computador de viagem mais de três mil e quinhentos contos, que ele faz questão de checar sempre. As Histórias que me Ensinaram a Viver, escrito há 20 anos, foi uma homenagem ao a esse senhor. “Confesso que gosto de pensar neste livro como um avô, pronto para lhe oferecer uma história sempre que precisar de companhia ou conselho”, diz. Abaixo, você lê a conversa que tivemos com Jorge Bucay.
 
Antigamente, as histórias eram contadas oralmente por velhos mestres. Contá-las era um momento importante. Perdermos esse elo com o sagrado das histórias?
Jorge Bucay. Penso que não. Na antiguidade, a contação de histórias era uma ferramenta para se passar o conhecimento. Hoje, há uma retomada dessa tradição, e é por isso que meus livros são vendidos em todo o mundo. Eles trazem aquelas histórias que já foram contadas, mas que eu resgatei, rebusquei, revisei, modernizei e contei novamente. Ninguém pode ser capaz de criar uma metáfora. Elas já existem. Uma pessoa pode nunca ter ouvido falar em Prometeu, mas com certeza ela já viveu a história de Prometeu. Contudo, muitas vezes, se não damos conta de viver nossa própria condição e de enxergá-la, seja por uma busca de aceitação, esses contos podem nos mostrar quem somos. A história do patinho feio, por exemplo. Posso não me dar conta de que eu sou ele, mas quando alguém me conta, me dou conta de que sou o patinho feio e posso encontrar minha capacidade de ser cisne.
 
Na visita que fiz à Argentina, especificamente a Buenos Aires, senti uma atmosfera bastante bucólica e introspectiva. Esse clima, de alguma maneira, interferiu nas suas buscas pelo interior humano?
Jorge Bucay. Não sei. Buenos Aires tem todas as características desagradáveis como toda grande capital do mundo, assim como na França e Paris, no Japão e Tóquio. As grandes capitais te apavoram. Buenos Aires tem um humor oscilante.
 
Como o modo de usar os contos influencia seu trabalho gestáltico como terapeuta e a sua escrita?
Jorge Bucay. Fui terapeuta antes de ser escritor. Eu sempre acreditei que não se pode deixar de entender que a vida é o que se transcorre no presente, e a melhor linha que expressava esta vivência, de trabalhar com o aqui e o agora, foi a Gestalt. Mas também penso que, com o passar dos anos, o terapeuta vai moldando seu próprio modelo. Hoje, não há mais tempo para se dedicar a uma só técnica. Quando comecei a atender, usar os contos e depois publicá-los, muita gente dizia que a Gestalt era aquilo, uma técnica movida pelo contar histórias. E na Argentina, o terapeuta gestáltico acabou incorporando os contos, porque isso se transformou em um modelo. Não sei se foi influência minha…
 
Não seja tão modesto assim…
Jorge Bucay. Não é modéstia. Creio nos fenômenos de simultaneidade. Nos últimos anos, os prêmios Nobel de Medicina e Ciências se comparam, sabe por quê? Porque um senhor dos Estados Unidos e um senhor da Austrália chegaram às mesmas conclusões. Uma descoberta que acontece aqui e em outro lugar diferente do mundo explica que, com as mesmas ferramentas, chegamos a lugares iguais. Muita gente, como eu, em diferentes partes do mundo, começou a contar contos. Não fui o primeiro.
 
Além de escrever, você ainda atende?
Jorge Bucay. Até há cinco anos, atendia. Quando fiz 57 anos, pensei que já havia trabalhado muito como terapeuta. Afinal, foram mais de 30 anos! Como a minha dedicação aos livros se tornou mais intensa – muitas viagens, palestras –, então pensei que era a hora de parar com o consultório.
 
Você acha que seus livros conseguiram popularizar um pouco mais a terapia e até torná-la algo menos ortodoxo ao olhar popular?
Jorge Bucay. A ideia era traduzir conceitos muito complicados de uma maneira mais acessível. Comecei como um mago que explicava os truques. E o mais interessante é que meus livros não levaram as pessoas a procurar o consultório, mas sim a enxergar, através das histórias, que havia a possibilidade de procurar ajuda, e isso é o melhor de tudo. Mas nenhum livro, seja a coleção de Paulo Coelho ou Deepak Chopra [físico americano], tem a intenção de substituir um método terapêutico. Pelo contrário. Os livros não são terapêuticos.
 
Quando os contos entraram na sua vida?
Jorge Bucay. Sou neto de imigrantes árabes e curdos. Meus avós sempre contaram histórias, seja de influência árabe, iraniana… Ademais, meu pai era um grande leitor e, por muito tempo, os contos habitaram a minha vida. Quando me tornei adulto, comecei a buscar mais e mais. Hoje, o computador que viaja comigo tem um arquivo com mais de 3.500 contos. Estou estudando a cultura de todos os lugares o tempo todo. Quase sempre que chego a um país, há uma historia que busco. O folclore do Brasil é muito parecido com o do norte da Argentina. É o mesmo, mas com diferentes nomes e geografias.
 
Você se considera mais escritor ou mais psicólogo?
Jorge Bucay. Antes de escrever, já era psicólogo. Ademais, ser escritor é mais do que eu sou. Um escritor é um homem ou uma mulher que pinta com as palavras. Picasso dizia: “Nunca estará pintando até que sinta que o pincel é quem guia suas mãos”. Eu trabalho muito. Sou um trabalhador. Leio muito, pesquiso muito, crio muito, corrijo muito, descarto muito, até que meu editor chega e toma o texto de mim, então digo: “Que se vá!”.
 
 
Recomendamos para você