Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 31.01.2010 31.01.2010

João Ximenes Braga, intimidade e sotaque carioca

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de João Ximenes Braga ao SaraivaConteúdo
 

A escrita de João Ximenes Braga tem sotaque carioca. E, junto às características da cidade que impregnam suas palavras, há uma ironia ferina. O cenário urbano é cercado por personagens que nos fazem ampliar o gosto pela intimidade alheia. E, por vezes, querer participar dela.

Em A mulher que transou com o cavalo (Língua Geral), o escritor direciona o olhar dos leitores – a trajetória de cronista faz de João Ximenes Braga um observador ainda mais atento – ao cotidiano privado de personagens marcantes, onde o sexo costura as relações a todo instante. As mulheres são personagens mais fortes, mas nem por isso escapam da misoginia da escrita.

“Se você vê misoginia nos contos, eu concordo porque a misoginia está aí. [risos] A misoginia está na área, se reflete. Estamos numa sociedade misógina, tantos os homens como as mulheres. […] As mulheres são muito misóginas. Mulher carioca? A mulher brasileira é muito misógina. Elas se cobram uma feminilidade de uma forma… Estou generalizando. Mas acho a mulher carioca muito misógina.”, afirma.

Autor dos romances Porra (Objetiva) e Juízo (7Letras), caracterizados pela firme voz masculina, João Ximenes faz um mergulho na neurose feminina através dos contos. Impossível esquecer o diálogo das personagens, o que faz de cada história um registro antológico. Não me intimido ao apontar A mulher que transou com o cavalo como uma das melhores publicações de 2009.

Jornalista, o autor publica, todos os sábados, crônicas no Caderno Ela do jornal O Globo. Mas isso é um detalhe, o que importa é a sua ficção.

 

Você é um escritor carioca, e uma das características de sua escrita é a relação com a cidade, as histórias ocorrem em lugares conhecidos do Rio de Janeiro. Fale sobre essa relação.

João Ximenes Braga – Isso é tão natural, não sei como falar a respeito.  Antes de conterrâneo, sou profissional da literatura. Vivo de escrever sobre o Rio de Janeiro desde que me entendo por gente, toda vida adulta. Mesmo quando não morava no Rio de Janeiro, morei quatro anos em Nova York escrevendo para um jornal do Rio – praticamente escrevia sob o olhar do carioca. É tão natural. Sou um escritor-observador, vejo o que está à minha volta, e é isso que alimenta minha criatividade. Não sou um escritor interiorizado, sou um escritor que está sempre olhando para o seu tempo. Então, a presença do Rio de Janeiro, que é a cidade onde moro e me criei, que tenho amor intenso e ódio profundo, transparece naturalmente no que escrevo.

Como a crônica se relaciona com sua produção ficcional. E como o leitor se relaciona com o João Ximenes Braga escritor?

JXB –  Crônica e ficção são muito diferentes, radicalmente diferentes. Na crônica, nunca escrevi nada que não tivesse acontecido. Existem várias linhas de crônicas, embora muita gente tente dar definições absolutas para a crônica. Se você vai de Lima Barreto a [Luis Fernando] Verissimo e Rubem Braga, vê linhas de crônicas completamente diferentes. Na crônica, sempre mantive o compromisso original do jornalista, de sempre relatar fatos. Evidentemente, são fatos relatados não como uma reportagem, mas por um viés de humor, um olhar mais crítico, com mais liberdade. Nunca escrevi uma crônica ficcional. O que elas têm em comum é que partem da observação da rua, da observação do outro, e, também, da observação do leitor. Na ficção, eu tenho a liberdade de ampliar esse universo. Se você pegar o livro, só alguns contos se relacionam com a realidade. O próprio conto que dá título ao livro – “A mulher que transou com o cavalo” – surgiu a partir de uma frase, todo o resto é ficção. São personagens que tem uma base na realidade.

Neste livro, há uma relação crítica com as mulheres, muito próxima a misoginia. Concorda?

JXB – Agora você me pegou… O primeiro livro que escrevi – Porra – era um livro essencialmente masculino, justamente um livro sobre homens cariocas. No segundo – Juízo –, o protagonista também era masculino. Esse livro tem um olhar mais atento às mulheres. Não sei se tem um olhar particular da mulher ou do homem. Se você vê misoginia nos contos, eu concordo porque a misoginia está na aí. [risos] A misoginia está na área, se reflete. Estamos numa sociedade misógina, tantos os homens como as mulheres.

As próprias mulheres são misóginas?

JXB – As mulheres são muito misóginas. Mulher carioca? A mulher brasileira é muito misógina. Elas se cobram uma feminilidade de uma forma… Estou generalizando. Mas acho a mulher carioca muito misógina.

Na orelha do livro, há um trecho que diz que sua escrita “destaca-se ainda que a psicologia ousada das personagens nasça da fragilidade ou da força, mas demonstram um ponto em comum: a busca de uma forma de felicidade que foge aos paradigmas da sociedade burguesa”. O que é felicidade para João Ximenes Braga?

JXB – Quem escreveu isso foi Eduardo Coelho, o editor. Não sei se entendi o que ele quis dizer com isso. [risos] Busca pela felicidade?  Ele se refere ao conto específico, que tem o título “Felicidade”, algo específico daquela personagem.  Uma personagem muito complicada, de quem eu gosto muito, mas é uma moça muito autodestrutiva. Enfim, ela tem uma forte crise de criação, se é possível criar em paz emocional – acho que esse é o tema dela. O que é felicidade para mim? Uma noite de bebedeira, com gente agradável. É felicidade.

Você tem dois romances, Porra (Objetiva) e Juízo (7 Letras), e agora o livro de contos A mulher que transou com o cavalo (Língua Geral). Há diferença no processo de criação?

JXB – A vida toda eu escrevi ficção de forma esparsa. Até que, em 2000, falei ‘chega de redação, quero me dedicar à ficção’. Dei essa virada com uma certa coragem e comecei a escrever. Escrevi dois pequenos romances, são bem curtos. Eu tive muita preocupação com trama e estrutura; entreguei a voz do romance aos personagens. Os romances foram escritos pelos personagens, é a voz deles o tempo todo. Depois desses dois livros, pensei que era a hora de tentar esquecer os personagens e trabalhar um pouco mais a minha voz. ‘Vou começar com contos, não preciso me preocupar com trama, desdobramento e viradas… e tentar focar mais na prosa.’ Eu estava escrevendo o terceiro conto quando me dei conta que eles tinham temas em comum, que eram exatamente sexo e Rio de Janeiro. Fui ao [Arthur] Schnitzler: reli o Contos de amor e morte, um livro de contos sobre sexo em Viena. Não tem nenhuma história similar ao Rio de Janeiro nos anos 2000, que seja mais diferente que Viena no século XIX. Mas o Schnitzler foi um norte para a feitura da escrita. Tentando fechar, foram experiências muito diferentes, tentei não me entregar aos personagens e trabalhar mais a prosa. Me fodi. Gosto de escrever para personagem, pelo personagem, o jeito que ele fala, que domina minha prosa.

Você já declarou que largou as redações para se dedicar a literatura e “preservar tempo e neurônio”. Você ainda pensa assim?

JXB– Sim e não. Meu trabalho está ligado à coluna do jornal e à televisão. O mercado editorial é tão atravancado… Se tivesse possibilidade de ter uma produção maior, essa produção maior não teria vazão e eu ia pirar. Por outro lado, com mais tempo de dedicação, a minha produção poderia ser qualitativamente melhor. Eu gosto de trabalhar na televisão.  Se as pessoas se divertem vendo novela, imagina como se diverte escrevendo. Pessoal e psicologicamente é bom você ter uma ordem industrial na sua vida. Com dedicação, a extrema solidão da escrita literária, talvez eu fosse um escritor melhor… Mas acho que estou melhor como estou. Podendo trabalhar em literatura nos intervalos, mas tendo compromisso, equipe e uma ordem industrial na vida. Acho que só a literatura enlouquece o ser humano.

E autores brasileiros? Você tem algum autor brasileiro como referência?

JXB – Lima Barreto. Têm vários: Machado, Guimarães, Clarice, João Antônio, Sergio Sant’Anna… Vários. O Lima Barreto – difícil falar isso sem que soe pretensioso – tem um olhar sobre a cidade que moldou o meu. Eu leio crônicas do Lima Barreto hoje e vejo o Rio de Janeiro da mesma forma que ele vê, os personagens se repetem. Não estou falando os personagens que crio, não, os personagens que vejo se repetem. Tem um forte olhar que me aproxima muito do Lima Barreto.

Você acompanha os autores contemporâneos?

JXB – Já li mais. Eu dei uma parada.

Você destacaria alguém?

JXB– Eu… (silêncio) Olha, é muito complicado falar dos contemporâneos porque acho que tem um clima muito ruim. Tenho a sensação muito… Tem alguns grandes amigos que escrevem prosa que me identifico: Claudia Peçanha, Cristiane Tassis, Claudia Lage… Mas não gosto… A produção… Me dá a sensação…  Fico com a sensação que a produção contemporânea brasileira…  Não estou falando de qualidade de texto, há coisas muito interessantes, estou falando da qualidade de relacionamento pessoal. Fico triste de ver as pessoas criarem falsas polêmicas para aparecer, fica uma sensação de, quando leio o jornal, que estão falando um do outro.  Me dá a sensação de briga de cachorro magro pela último osso, pelo último saco de lixo. Então, para me preservar pessoalmente, eu leio, mas não falo, não me aproximo, não faço questão de estar próximo.

Você sente um determinado “preconceito intelectual” com as pessoas que escrevem novela para televisão?

JXB– Sinto. Mas sabe que sinto mais preconceito com aquela coisa de ser um jornalista que escreve. Todo mundo diz que sou um jornalista que escreve livros. Estou há sete anos fora do mercado, há cinco anos não faço uma entrevista e uma reportagem. Basicamente, pago minhas contas com a ficção, que é a novela. Minha origem não é a televisão, é o jornalismo. É um preconceito à origem. Como se uma coisa foi maior ou melhor que outra. É o que é. A academia acredita que o jornalismo prejudica a literatura porque os escritores/jornalistas trazem uma linguagem mais fácil. Eu não acho que linguagem simples por definição seja ruim. Sou um grande leitor de Guimarães Rosa, mas também de Lima Barreto. Existe espaço para um monte de coisas, cada pessoa vai ter sua preferência.

Sempre pergunto para todos os autores: O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

JXB– Você só pode escrever porque gosta de ler. Sinceramente, não consigo pensar em nada estimulando não. Por que você escreve? Você escreve porque gosta? Tem uma resposta da Luciana Peçanha: Por que você escreve? “Porque transbordo”. Se você precisa escrever, escreva. E arque com as conseqüências.

> João Ximenes Braga na Saraiva.com.br

> Assista à entrevista exclusiva de João Ximenes Braga ao SaraivaConteúdo

 

Recomendamos para você