Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.12.2010 22.12.2010

João Wainer, um olhar por detrás da fumaça


      Fachada de edifício abandonado em Lagos, Nigéria.

   Por Bruno Dorigatti
   Fotos de João Wainer

 

DoCarandiru à África, da luta livre boliviana aos motobóis paulistanos, doterremoto no Chile ao fenômeno cinematográfico conhecido como Nollywood, naNigéria, das FARC colombianas aos pichadores da periferia de São Paulo. Ofotojornalista e documentarista João Wainer vem, desde 1992, buscandoapresentar “a fumaça das ruas na sua cara”, como ele mesmo define o trabalho emseu site. Uma busca incessante porretratar, registrar, dar voz a personagens que vivem do lado de lá da ponte,outra expressão sua, que nomeia seu primeiro documentário. “A ponte do RioPinheiros virou um Muro de Berlim, só que em São Paulo divide o pobre do rico”,afirma Mano Brown no documentário A ponte,lançado em 2008, junto com Roberto T. Oliveira, com quem também dirigiu Pixo, contundente retrato dos pichadoresda maior cidade da América Latina, de 2009. [Assista ao documentário A ponte na íntegra ao final do texto]

Otrabalho de João, que hoje chega ao documentário, começou com a fotografia, comum estágio no Jornal da Tarde, aos 16anos. Mas isso não importa muito para ele. “O que importa são os assuntos quefotografo. A fotografia pela fotografia, a mim, não interessa tanto assim.Interessa mais o que e de que jeito aquilo está sendo fotografado. Gosto muitomais das pautas do que da fotografia em si. Se curtir o assunto, a maneira coma qual vou abordá-lo é o menos importante, pode ser em vídeo, em foto, emtexto, em sinal de fumaça. Não importa, o que vale é o que você estáregistrando”, ressalta. 

Logosoube que era isso que queria para a sua vida. “Foi uma coisa muito natural paramim. Foi muito rápido, rápido até demais”, recorda. No JT, conheceu o fotógrafo Bob Wolfenson numa matéria e passou atrabalhar como assistente dele. “A partir dali, fui embora, fui para a Folha de S. Paulo e não parei mais.”Para ele, o fotojornalismo é a melhor escola que há, “a melhor base que eupoderia ter. Hoje em dia sinto-me preparado para fotografar qualquer coisamesmo”. 


   Luta livre entre Cholas (indígenas bolivianos) na cidade de El Alto, Bolívia.

“Omais legal do fotojornalismo diário é que há um exercício constante da suaignorância. Cada pauta que você pega é um assunto do qual não sabe nada. Equando você começa a tentar entender o máximo de coisas possíveis em cada pautaque vai cobrir, aí começa a ficar gostoso, porque são lugares muitosdiferentes, alguns deles a que qualquer pessoa jamais iria se não fosse atrabalho”, acrescenta João, que viajou o Brasil inteiro e conheceu vários lugaresassim. 


À margem
 

Joãopassou por situações que muitos não teriam estômago nem fígado para tanto.Muito por conta do trabalho como fotojornalista, mas também por opção. “Meutrabalho pessoal, desde que comecei a fotografar, sempre esteve voltado para amargem, a periferia, pessoas que vivem do lado de lá da ponte, tanto nosaspectos ruins como nos aspectos bons.” Ele diz que nunca conseguiu entendermuito bem por quê, mas é desde moleque que tem esse interesse e vontade deconhecer mais. “Tenho impressão de que às vezes sentia um pouco de medo quandoera mais novo”, ele que nasceu num bairro de classe média, Perdizes.


   Mulher aguarda retirada do corpo do marido, que foi assassinado na sala de sua casa na zona sul de São Paulo.

“Tinhaum pouco de medo da minha cidade, de circular em determinados lugares. E achoque essa busca por entender foi algo para enfrentar os meus medos e a cidade emque morava, até perder o medo dela, sabe? Até entender como tudo aquilofuncionava. Porque eu ficava muito assustado. Um negócio que nunca entrou naminha cabeça são as pessoas que moram em São Paulo e nunca atravessaram para olado de lá da ponte. As pessoas simplesmente ignoram que aquilo tudo existe. Eaquilo, para mim, era tão forte, que não conseguia ignorar, fazer como asoutras pessoas faziam. Então fui atrás.” Nunca é demais lembrar que São Pauloconcentra a maior pobreza das Américas. São 3 milhões de pessoas pobres, mais1,4 milhão de pessoas miseráveis, que vivem abaixo da linha da pobreza. Do ladode cá da ponte, a mesma cidade é terceira do mundo em venda de veículosblindados, num país que não está em guerra civil, nos recorda em A ponte Floriano Pesaro, ex-secretáriode Desenvolvimento Social e atualmente vereador do município pelo PSDB. 


    Fachada interna do Pavilhão 8 do Carandiru, então o maior presídio da América Latina, em São Paulo.

 

NoCarandiru, João entrou para participar do Talentos Aprisionados, projeto criadopela atriz Sofia Bisilliat, que resolveu levar cursos e oficinas para tentarressocializar os presos através da arte. Ficou quatro anos fotografando apenitenciária. Com o tempo, o jornalista André Caramante e a fotógrafa MaureenBisilliat, mãe de Sofia, entraram para o projeto. “A Maureen acabou coordenandoe tocando até o final, quando virou livro (Aquidentro – Páginas de uma memória: Carandiru, Imprensa Oficial, 2003). Foiuma experiência demais, eu era super novo, aprendi muita coisa nesse período”,diz. Ele também trabalhou um tempo no NotíciasPopulares, finado jornal sensacionalista do Grupo Folha. “Sempre tivepredileção por esse tema. Brinco até que escolhi o tema antes de escolher serfotógrafo. Ser fotógrafo foi uma desculpa que encontrei para me aproximar detemas onde queria chegar.” 


   Apresentação da dançarina Juliette Dragon no bar Lucha Libre, no Quartier Latin, em Paris.

Tanto A ponte como Pixo são trabalhos que estão nessa mesma pegada. “Pixo é feito pela molecada da periferia de São Paulo, a contestaçãobem típica. E A ponte também, é umdocumentário que fala dos problemas e das dificuldades que as pessoas têm naperiferia, mas de uma maneira positiva e que acaba oferecendo uma soluçãopossível. A gente vê que é possível mudar, melhorar. Os documentários são acontinuação natural de um caminho que venho trilhando desde o começo”, resume.E com Pixo, João Wainer acredita terchegado a uma síntese de tudo. “De tudo que andei olhando, correndo atrás, Pixo é a síntese. Tudo o que fiz antesfoi para chegar ali. Também pelo fato de ser o último, fiz com mais maturidade,mais cuidado, com um entendimento um pouquinho maior”, acredita.


   Homem acende sinalizador durante baile funk na cidade de Santos, litoral de São Paulo.


   Traficantes do Comando Vermelho exibem armas no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro.

> Assista ao documentário A ponte na íntegra


 

Recomendamos para você