Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 21.03.2014 21.03.2014

João e Gil: os dois Gilbertos da música brasileira

Por Júlia Bezerra
 
Gilberto Gil prepara o lançamento de Gilbertos Samba, CD inteiramente dedicado ao trabalho de seu xará – e ídolo – João Gilberto. No repertório, músicas consagradas por João ganham novas versões de Gil. A homenagem não é à toa: as carreiras artísticas dos dois Gilbertos se entrelaçam ao longo da história da música brasileira.
 
João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira nasceu em Juazeiro, na Bahia, em 10 de junho de 1931. Filho de uma dona de casa e de um comerciante, João Gilberto, terceiro de seis irmãos, deu trabalho aos pais. Por ser bagunceiro ao extremo, foi expulso da escola onde estudava, o que obrigou o pai a mandá-lo para um internato em Aracaju (Sergipe).
 
Quando João Gilberto era um garoto que acabara de fazer 11 anos, veio ao mundo Gilberto Passos Gil Moreira, também Gilberto e também baiano. Apesar de ter nascido em Salvador, em 26 de junho de 1942, Gil cresceu em Ituaçu, vilarejo no interior da Bahia com apenas 800 habitantes.
 
Em 1945, aos 14 anos, João Gilberto ganhou seu primeiro violão. Ele estava em Juazeiro, de férias do internato. Três anos depois, juntou-se a quatro amigos para formar os Enamorados do Ritmo. O grupo se apresentava em clubes locais.
 
O menino Gil foi ainda mais precoce. Começou a se interessar pela música ainda criança, quando conheceu o som de Jackson do Pandeiro e de Luiz Gonzaga. Foi por influência desses sanfoneiros que Gil, aos 9 anos, aprendeu a tocar acordeão. Aos 18, formou o conjunto Os Desafinados e começou a tocar violão, influenciado justamente por… João Gilberto! Iniciavam-se os anos 60, e o violonista despontava na cena musical com sua surpreendente bossa nova.
 
João Gilberto havia começado a carreira artística em 1952, quando lançou seu primeiro disco solo, um 78 rpm que não fez muito barulho. Um ano depois, Marisa Gata Mansa gravou uma de suas músicas, “Você Esteve com Meu Bem”, mas a repercussão também foi mínima. Desanimado com as dificuldades do meio artístico,o músico foi para Porto Alegre e depois Adamantina (MG), ficando em reclusão nos anos de 1955 e 1956.
 
As horas de ócio tocando violão o levaram a desenvolver uma nova batida: surgia o que mais tarde seria chamado de bossa nova. Em 1957, João Gilberto retornou ao Rio e mostrou as recém-compostas “Ho-bá-lá-lá” e “Bim Bom” a Tom Jobim. Em 10 de julho de 1958, João Gilberto gravou “Chega de Saudade”, música que é considerada o marco zero do movimento da bossa nova.
 
Dez anos depois da estreia de João Gilberto, em 1962 chegava às lojas Salvador, primeiro compacto de Gilberto Gil. Em 1964, aos 22 anos, Gil conheceu Caetano Veloso, Maria Bethânia, Tom Zé e Gal Costa, grupo que influenciou diretamente os rumos de sua carreira musical. Os cinco participavam da inauguração do teatro Vila Velha, em Salvador. Na época, Gil trabalhava na indústria de produtos de limpeza Gessy-Lever. Seu talento artístico só seria reconhecido em 1967, quando ele participou do programa Fino da Bossa, apresentado por Elis Regina. A performance lhe rendeu um contrato com a Phillips e a gravação de seu primeiro LP, Louvação.
 
Enquanto Gilberto Gil começava a se enturmar no meio artístico, João Gilberto lançava, em 1961, seu terceiro disco, João Gilberto, o primeiro gravado só com voz e violão – estilo que mais tarde se consagraria como sua marca registrada. Em 1964, com o lançamento de “Garota de Ipanema”, a bossa nova se tornou um fenômeno internacional. Pelo sucesso da música, o álbum Getz/Gilberto, de João Gilberto e do saxofonista americano Stan Getz, recebeu quatro Grammys.
 
O estouro de Gilberto Gil foi tão marcante quanto o de João Gilberto. Em 1967, ele protagonizou, ao lado de Caetano Veloso e sua trupe, o lançamento do movimento da Tropicália, que propunha uma grande mistura de identidades na cultura brasileira, em plena Ditadura Militar. O grupo fez tanto barulho que, em 1968, Gil e Caetano foram presos. Ao deixar a prisão, em 1969, Gilberto Gil compôs a irônica “Aquele Abraço”. No mesmo ano, perseguido pelos agentes da Ditadura, exilou-se na Europa, onde ficou até 1972.
 

Em 1981, os dois Gilbertos da música brasileira gravaram juntos o disco Brasil, com a participação de Gal Costa e Caetano Veloso. Em 2000, João gravou “Eu Vim da Bahia”, de Gil, que integra o álbum João Voz e Violão. Gil retribui o gesto em 2014, com o lançamento de Gilbertos Samba, álbum que tem tudo para se tornar representante de uma era da Música Popular Brasileira.

 
 
 
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