Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.11.2012 23.11.2012

João Cabral de Melo Neto: um riozinho não tece mar

Por Astier Basílio
 
“Na minha opinião, certamente discutível, João Cabral é o melhor poeta do nosso idioma no século vinte: enquanto em todos os outros se podem detectar inevitáveis influências e contaminações, João Cabral afigurase- me como um milagre surgido do nada, um discurso que não deve seja o que for a ninguém a não ser a si mesmo, uma voz ímpar, uma criação única.”
 
António Lobo Antunes, no prefácio de O Rio
 
Há uma tradição na poesia de língua portuguesa em que os poetas cantam seus rios. Desde o patriarca Camões em seu “sobôlos rios”, partindo do mote bíblico e ampliando-o para uma perspectiva de exílio, passando pela multiplicidade de Fernando Pessoa, que pela voz de Alberto Caeiro desdobrou os limites e os infinitos do Tejo e de sua aldeia, como uma espécie de espelho do mundo.
 
No Brasil, me restrinjo a dois exemplos, emblemáticos, por pontuarem momentos e estéticas da nossa lírica. O primeiro é o soneto “Saudade”, de 1917, do poeta Da Costa e Silva, exemplo máximo de uma tradição retórica, musical, com seu fecho de ouro com rima rara em que se diz: “e ao longe/ o mugido dos bois da minha terra…”. O segundo é “Meditação sobre o Tietê”, do modernista Mário de Andrade, de 1946. Poeta de feição moderna, mas retrabalhando materiais da tradição, João Cabral de Melo Neto fez do rio Capibaribe, dos muitos rios de seu Pernambuco, um painel multifacetado, uma emoção que se materializa, que se encarna.
 
É sabido que alguns  temas foram caros ao pernambucano, tais como o cemitério, os artistas de sua predileção, as bailarinas, a Espanha, o Recife. Porém o ‘rio’ se impõe como uma força consagradora e iluminada. Com habilidosa mão, em que, inclusive, elementos teatrais são postos em cena, João Cabral ora transforma o ser humano em rio, como no belíssimo “Morte e vida Severina”, em que a resposta, a saída, é dada não no salto para a ponte da vida, pois, “não há melhor resposta/ que o espetáculo da vida:/ vê-la desfiar seu fio,/ que também se chama vida/ ver a fábrica que ela mesma/ teimosamente se fabrica,/ vê-la brotar como há pouco/ em nova vida explodida”; ora humaniza o rio e o transforma em retirante, a cortar o destino dos que emigram do sertão ao mar, como em “O Rio”, em que a voz que canta e narra o faz em primeira pessoa, como se humano, como se personagem, alterando o tamanho dos versos como se imitasse o movimento das águas: “que nem ondas de mar,/ multiplicadas, elas se estendiam;/ como ondas do mar de mar/ que vou conhecer um dia”. 
 
AS MIL FACES DE UM RIO
 
No teatro Morte e Vida Severina, escrito em 1955 para Maria Claro Machado, que não o monta, é marcado como um momento especial do teatro brasileiro. O texto é levado à cena pelo Teatro da Universidade Católica – TUCA, em 1965, sendo consagrado no Festival de Nancy, França. A musicalização de alguns trechos por Chico Buarque evidencia o caráter musical dos poemas, não o ritmo batido, a estrutura viciada, mas sim, uma arquitetura vérsica que não jogava fora os clichês, antes, rearrumava-os de uma maneira diferente e apropriados a um projeto autoral claro e definido.
 
João Cabral de Melo Neto, em O Cão sem Plumas também compôs um verdadeiro espetáculo de dança, materializando toda a fantasmagoria e lirismo sujo do Capibaribe numa master class de como se trabalhar com imagens e metáforas. Rende versos memoráveis, em que o lirismo atinge seu mais alto grau de voltagem, a radicalização no exercício de fazer com que o leitor se aproxime de todo o arsenal de figuras que, repito, como se num palco com bailarinas a transformarem o seu corpo em partituras, correm diante de nós como as águas sujas, as águas barrentas do Capibaribe: “como o rio era um cachorro,/ como o mar era uma bandeira”. Em O Rio, que é de 1953, já existem procedimentos retóricos que são retomados, ainda que numa outra perspectiva e sentido, em O Cão sem Plumas, obra anterior, de 1950.
 
Eu me refiro, especificamente, ao tom reiterativo e ao encadeamento de imagens: “Na vila da Usina/ é que fui descobrir a gente/ que as canas expulsaram/ das ribanceiras e vazantes;/ e que essa gente mesma/ na boca da Usina são os dentes/ que mastigam a cana/ que a mastigou enquanto gente;/ que mastigam a cana/ que mastigou anteriormente/ as moendas dos engenhos/ que mastigavam antes outra gente;/ que nessa gente mesma/ nos dentes fracos que ela arrenda,/ as moendas estrangeiras/ sua força melhor assentam (…)”.
 
João Cabral de Melo Neto
Capa de 'O Rio'

 
 
EXPERIÊNCIA SENSORIAL
 
A poesia de João Cabral, vítima de rotulações que a carimbam como difícil, hermética, é capaz de oferecer ao bom leitor, uma verdadeira experiência sensorial, como a de vislumbrar no rio toda sua dimensão erótica e sensual: “Sabia da lama/ como de uma mucosa./ Devia saber dos polvos./ Sabia seguramente/ da mulher febril que habita as ostras”. Há ainda que destacar o momento em que João Cabral captou não o rio como alguém que o observa e transfigura, como em O Cão sem Plumas, não como um demiurgo que encena o drama social de um região, como em O Rio e Morte e vida Severina, mas como quem canta uma paisagem íntima e próxima. Me refiro ao saboroso “Prosas da Maré da Jaqueira” cuja estrofe inicial dá o tom de intimidade a que o poeta se entrega: “Maré do Capibaribe/ em frente de quem nasci,/ a cem metros do combate/ da foz do Parnamirim”.
 
Se, na sábia observação de Heráclito, fervorosamente citada por Jorge Luís Borges, ninguém se banha no mesmo rio duas vezes, João Cabral vê nas águas do rio de sua infância algo de cinematográfico: “Maré do Capibaribe,/ minha leitura e cinema:/ não fica vazio muito/ teu filme, sem nada, apenas (…) Mais que a dos filmes então,/ carrego tuas imagens:/ mais que as nos rios, depois,/ mais que todas as viagens”. Um rio, é um rio, é um rio. Parafraseio eu o quase clichê poema de Gertrude Stein. João Cabral, homem que cantou sua aldeia, mas foi cidadão do mundo, ao retornar à sua terra, ao contemplar os rios que lhe espelharam a infância, enxerga uma fusão de paisagens várias que suas retinas acumularam ao longo da vida.
 
É o que se vê no belo “Volta a Pernambuco”: “Contemplando a maré baixa/ nos mangues do Tijipió/ lembro da baía de Dublin/ que daqui já me lembrou/Em meio a bacia negra/ desta maré quando em cio,/ eis a Albufera, Valência,/ onde o Recife surgiu./As janelas do cais da Aurora/ olhos compridos, vadios,/ incansáveis, como em Chelsea,/ vêem substituir rio,/ e essas várzeas de Tiuma/ com seus estendais de cana/ vêm devolver-me os trigais/ de Guadalajara, Espanha (…)”.
 
ENTREVISTA
 
“O rio Capibaribe foi para João Cabral de Melo Neto um filme em sessão contínua, uma leitura sem fim” Inez Cabral, filha de João Cabral e organizadora do livro, conta um pouco mais sobre o lançamento em entrevista exclusiva.
 
Algum dos poemas é inédito?
Inez cabral. Não, mas está é a primeira vez que todos os poemas de João Cabral sobre o Rio Capibaribe são publicados juntos, em uma antologia.
 
Como nasce esta antologia?
Inez Cabral. Quando o Marcelo Ferroni me propôs fazer o livro eu achei aquilo maravilhoso. Como, ninguém tinha tido esta ideia antes? Claro, pensei, faltava uma obra que reunisse todos os poemas sobre o Capibaribe.
 
Os poemas estão organizados em ordem cronológica. Mas juntos se completam e se ampliam. Lendo um em seguida ao outro que percurso é proposto ao leitor?
Inez Cabral. Organizado assim, o livro acabou ficando alguma coisa entre alta poesia, um guia turístico e um tratado sócio-econômico.Está tudo lá. No Rio, quem fala é aquele menino que brincava no Capibaribe. Em Prosas da Maré da Jaqueira, está João Cabral, novamente, no contra-plano. Morte e vida Severina mostra o lado sócio-econômico. Mas você também pode descer o Capibaribe lendo os poemas, então será um guia turístico.
 
Por que o Rio Capibaribe é tão importante para João Cabral?
Inez Cabral. O Capibaribe é para João Cabral o que a régua e o compasso são para Gilberto Gil. O Rio era a infância dele, o jornal que ele lia, o cinema que ele assistia. Foi um muso inspirador.
 
O que João Cabral costumava dizer sobre o Capibaribe?
Inez Cabral. Sempre que ele estava diante de um rio em um país estrangeiro, e como diplomata conheceu muitos países, ele olhava, achava bonito, mas dizia: para mim Rio é o Capibaribe.
 
 
Texto publicado originalmente na edição de novembro de 2012 da revista Almanaque Saraiva.
 
 
Recomendamos para você