Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 13.08.2009 13.08.2009

João Brasil, entre a lambada e o pancadão

Por Bruno Dorigatti

Foto de Tomás Rangel

 > Assista à entrevista exclusiva de João Brasil ao SaraivaConteúdo 

Está lá no texto informativo do seu primeiro disco: “”João Brasil começou tocando bateria em bandas de rock, passou por quase todos saraus dos colégios da zona sul carioca e aos 16 anos se arriscou a tocar violão, cantar e compor. Produziu seu primeiro disco aos 18, de sua própria banda chamada Boi Zebu, o qual assinava todas as composições””. Mais tarde, se largou para Berklee, em Boston, para estudar na prestigiada faculdade de música. De lá, voltou inspiradíssimo. Flertando com o brega, lançou o álbum 8 hits (Som Livre), na verdade, com 10 canções, entre elas “”Baranga””, um clássico desde sempre, que freqüentou até o “”Domingão do Faustão””, “”Pau molão””, “”Supercool”” e “”Monica Valdivogueu””, flerte-homenagem à jornalista e musa inspiradora. “”Parece que existe uma população de gente que fica falando mal dos vídeos do YouTube. Então essa galera fala muito. ‘Foi estudar em Berklee pra fazer essa bosta.’ Que que eu vou fazer, né? Se não entendeu, eu acho legal, se não acha, é um direito também””, conta ele nessa entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.

A música considerada brega e cafona – para além do estilo musical – sempre fez parte de nossas vidas, como lembra João Brasil. Uns gostam, mas não assumem, outros detestam. Na verdade, tem muito de um discurso de poder, de qual estilo musical é aceitável para nossos educados ouvidos de classe média. E preconceito também. “”Sempre fui muito eclético e ouvi de tudo. Desde pequeno, ia a show de rock, forró, instrumental, heavy metal. Nunca tive esse preconceito e agora que estou ficando mais velho, estou começando a assumir todas as coisas que ouço e gosto. O brega e o cafona, todo mundo ouve, não tem jeito. Você pode torcer o nariz , não gostar, mas você sabe quem é o Calypso, sabe que existe o Aviões do Forró“”, acrescenta.

Sobre o disco, lançado ano passado, João conta como ele surgiu a partir do hit “”Baranga””. “”Fui estudar lá [em Berklee], até para aprender a fazer essa produção de música eletrônica. Voltei, montei um estúdio, e no tempo ocioso, quando não estava gravando, comecei a gravar uma ou outra daquelas músicas que tinha no violão para ver o que que dava. Aí gravei a ‘Baranga’ e botei na internet. Me perguntaram: ‘E aí, vai lançar um disco?’. Eu falei: ‘Putz, eu só tenho uma música, como é que eu vou lançar um disco?’. Então fui lançando música a música e quando chegar a determinado número de canções, que eu achava que eram oito, eu fecho o disco. Acabou que viraram dez, mas mesmo assim eu chamei de 8 hits.””

Um momento importante foi participar do quadro “”Pistolão””, no “”Domingão do Faustão””, convidado pela atriz Maria Flor. “”Pô, fiquei nervoso pra cacete. Faça idéia, Faustão gritando: Ô loco!!! João Brasil!!! Tremi a perna, falei, pô, a brincadeira foi longe demais. Sabe quando você pensa: ‘Será que é isso mesmo que eu quero?’ Achei que fosse ser uma coisa definitiva. Antes de eu ir no Faustão eu tinha certeza que eu era um popstar, e que eu ia fazer um sucesso pop muito grande.””

Porém, não foi bem isso que aconteceu: “”Quando cheguei no Faustão, cantei e fiquei em terceiro lugar, ninguém entendeu a música, que pra mim é a coisa mais simples e óbvia. Quando eu vi as velhinhas meio estranhando, ninguém batendo muita palma, caramba, eu falei: ‘O que eu tô achando não é nada disso. Então tô no caminho certo’. Fiquei feliz. Fiquei triste no momento, mas depois eu vi que tenho a liberdade de fazer o que quiser. Foi libertador ir no Faustão.””

Cansado da carreira meteórica, João voltou-se aos mashups, que consiste em colar várias músicas, misturando sons os mais distantes, ecléticos e improváveis, como Madonna, Raimundos, Faith no More, Right Said Fred, Beyoncé, Mc Batata, Iron Meiden, Roberto Carlos, Sepultura, Nirvana, Britney Spears, Eurythmics, Cidinha e Doca, Vanilla Ice, Michael Jackson, Claudinho e Bochecha, Grandmaster Flash, A-Ha, LCD Soundsystem, MC Créu, Jimi Hendrix, Guns n’ Roses, Queen, Bon Jovi, Jon Secada, Beastie Boys, Kaoma. Lançou virtualmente esse trabalho, que se chama Big Forbidden Dance.

“”Quando eu vi os caras de funk tocando com MPC, fazendo aquelas coisas, eu falei: ‘Eu preciso disso para sobreviver, fiquei louco’. E comecei a estudar como poderia adaptar a linguagem da MPC pro computador, como é que ele faz, o que corta o quê.”” Já os mashups surgiram através de uns amigos jornalistas, Bruno Natal e Alexandre Matias, que fazem parte d’ O Esquema, onde foi lançado a coletânea.

“”No começo eu fiquei meio receoso, não gostava muito da idéia. Eles falaram: ‘Cara, isso tá bombando, você tem fazer mashup, pra você é muito fácil. Olha só, faz isso com isso com isso’. Aí tentei e comecei a pegar gosto pelo negócio. Comecei a botar em pista de dança, que coincidiu de eu estar começando a fazer festa, e vi que as pessoas realmente ficaram animadas e felizes. E aí fiz o disco só de mashups.”” 

E desde então, João Brasil tem se dedicado com mais entusiasmo e propriedade aos mashups e remixes. “”Baile Parangolé”” é um bom exemplo audiovisual do que ele se propõe, com foco agora no vasto repertório da nossa música, colando Caetano Veloso e Luiz Caldas, Daniela Mercury e Guinga, Mutantes e Ratos de Porão, Vinicius e Baden e Banda Calypso. Tudo em uma música só. Um baile-funk em homenagem ao tropicalismo, que incorpora Carmen Miranda e Zé Carioca.

Ao misturar lambada, rock, tecnobrega, tropicália com funk, João Brasil, sem saber e querer, se aproxima e se insere na onda da ghetto tech, que consiste na música eletrônica feita nas periferias do planeta, como o dancehall (Jamaica), o reggaeton (Porto Rico), o kuduro (Angola), a cumbia digital (Argentina), o speed merengue e speed mambo (República Dominicana), e o mahgreb (norte da África). “”Tô gostando muito desses ritmos que usam música eletrônica em periferia, o gettho tech, como eles chamam. No Brasil, a gente tem o funk, o tecnobrega e o forró eletrônico. Tô ouvindo muito essas três coisas e vendo a possibilidade dessas misturas. Tem no mundo todo e você vê que tem sonoridades parecidas. Por exemplo, fiz um remix pro Cansei de Ser Sexy – ‘Left Behind Tropical Mix’ -, que era meio lambada, e a turma da Argentina falou que o que eu estava fazendo era cumbia. Nunca tinha ouvido cumbia na minha vida, aí fui ouvir e comecei a me interessar. Então é uma coisa meio inconsciente, tem um monte de gente fazendo uma coisa parecida. Me senti parte do mundo, haha.”” Inspirado pelo ritmo argentino, um de seus últimos mashups, “”Lluvia Kookaburra””, mistura cumbia com o pancadão carioca

Nos remixes, João Brasil tem transformado os cultuados do N.A.S.A. e do já citado Cansei de Ser Sexy em batidões de tecnobrega e lambada, do mesmo jeito que revirou o tecnobrega “”Soca Ali Babá””, premiado recentemente pela gravadora alemã Man Recording. “”Nunca fui funkeiro, nunca fui em baile, mas tudo que é festa que eu ia, tocava. E quando eu vi, nas minhas influências musicais, o funk era uma das mais fortes, querendo ou não. Não quero esconder essas coisas, quero misturar o funk com Iron Maiden, com Calypso.””

Sobre o maior fênomeno musical dos últimos anos no Brasil, a banda Calypso, João se sente honrado em dividir o palco com eles, quando comemoram uma década de carreira. A Dancig Cheetah, festa carioca de ritmos globais subestimados e desconhecidos pela mídia e público em geral, formada pelos DJs Chico Dub e Pedro Seiler, além de João, vai tocar antes e depois do show da banda paraense na Fundição Progresso (Lapa, Rio de Janeiro), no próximo dia 21 de agosto. “”O Calypso é hoje a maior banda do país, venderam 6 milhões de cópias independentes, não tem jeito, os caras são muito grande, são importantes. Vai ser importante estar junto com eles, quando comemoram 10 anos de carreira.””

Na manhã seguinte, João Brasil segue para Londres onde vai fazer um mestrado em design. A idéia é desenvolver um coqueiro que responda aos estímulos das músicas, que dance, rebole e interaja com ele e seu público. Além disso, vai continuar soltando seus mashups nas pistas européias. A primeira parada confirmada é num festival na Holanda, em setembro, onde vão se apresentar gente do mundo todo, nessa onda do ghetto tech. “”A hora é agora, de eu explorar e abrir esse espectro um pouquinho.”” Dale João Brasil!

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> Confira o blog e o MySpace do músico e dj

> João Brasil na Saraiva.com.br


> Veja João Brasil em ação no programa “”Estúdio Oi Novo Som””


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