Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 04.12.2009 04.12.2009

João Barone na Segunda Guerra

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

 

> Assista à entrevista exclusiva de João Barone ao SaraivaConteúdo

“Não sou um historiador, um catedrático, eu gosto doassunto, de conversar, encontrar pessoas que também se interessam”, adverteJoão Barone, o conhecido baterista d’ Os Paralamas do Sucesso, uma das maisimportantes bandas do rock brasileiro surgida nos anos 1980. E ele não estáfalando da história do rock, mas da II Guerra Mundial, trágico conflito quevarreu, na metade do século passado, milhões de pessoas do mapa,industrializou e serializou a morte, assim como se faz sabonetes. Segundo o filósofoTheodor Adorno, seria impossível fazer poemasdepois de Auschwitz. O ser humano provou que ainda é possível, mas perdeu – seé que ainda restava alguma dúvida após a igualmente trágica I Guerra – ainocência. 

Para Barone, o interesse é sobretudo pela participação brasileira no confronto, já na sua reta final, em 1944, mas de extrema importância, sobretudo para os lugarejos italianos libertados pelos nossos pracinhas, e que hoje prestam homenagens àqueles soldados. Seu pai foi um destes soldados, mas, como a ampla maioria, pouco comentava sobre o tema. “O assunto guerra lá em casa era um tabu, meu pai não comentava muito da experiência dele na guerra. E é uma coisa meio comum entre os veteranos, os ex-combatentes não falarem muito a respeito da história que passaram com as pessoas mais próximas. Até virou o tema de um livro e um filme, que o Clint Eastwood dirigiu, A conquista da honra. Conta a história sobre um daqueles soldados americanos que levantaram a bandeira americana naquele monte lá no Japão, Monte Suribachi, na Batalha de Iwo Jima, que ficou aquela foto célebre. E o cara passou quase a vida dele inteira da família, nunca falava sobre aquilo”, conta Barone nesta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. Depois do documentário Um brasileiro no Dia D, lançado em 2006, em DVD, ele publicou recentemente o livro A minha Segunda Guerra (Panda Books), onde fala do interesse pelo tema e dos bastidores da realização do filme.

Guardadas as devidas proporções, isso também aconteceu comos brasileiros que foram para a guerra. “E acho que muito disso se deve a umacerta frustração pela maneira como os ex-combatentes foram tratados aqui depoisque voltaram da guerra, uma guerra contra o totalitarismo, a favor daliberdade, da democracia. Isso vai muito dos paradoxos brasileiros, de o [Getúlio]Vargas ser um ditador, vivia-se sob um regime inclemente do Estado Novo”,acredita. 

Essa história familiar, próxima aguçou muito o interesse deBarone e dos irmãos. Seu pai falava de uma maneira muito politicamente corretasobre a guerra, não se aprofundava, e repetia os chavões das coisas maisterríveis que a guerra significa. “E o fato de não falar só fez aumentar nossointeresse e curiosidade sobre o assunto”, completa. 

Além disso, segundo Barone, quem cresceu nos anos 1960,cresceu um pouco com esse imaginário hollywoodiano, com a figura do herói deguerra, do soldado que corria pela praia sem levar tiro e no final conseguiadestruir o tanque inimigo. “Isso teve um peso muito grande para a minhageração, que cresceu montando aviãozinho e brincando de soldado. Isso é umreflexo cultural, das muitas coisas culturais que o mundo ocidental herdou dopós-guerra, como a influência americana no cinema. Com a televisão isso semultiplicou”, diz Barone.

Chegando a adolescência, os revells, aquelas réplicas em miniaturas para semontar, foram deixados de lado, assim como as brincadeiras de soldado ficaramde lado, e a música ocupou parte importante da vida de Barone. Em 1995, ele leuum livro que reacendeu esse interesse, chamado A nossa Segunda Guerra (Expressão e Cultura), escrito pelojornalista Ricardo Bonalume Neto, um especialista nos temas militares. Naquelaépoca, completavam-se os 50 anos do final da II Guerra e muita informaçãoestava sendo liberada, entre documentos e versões que contradiziam as versõespassadas sobre vários temas e assuntos. “O livro me chamou a atenção para oBrasil na guerra, pois foi o primeiro que tomei conhecimento feito com umaisenção muito grande e distanciamento histórico para retornar ao tema”, recordaBarone. Segundo ele, o assunto havia ficado muito tempo esquecido, pois oBrasil ficou com uma ressaca do governo militar e da ditadura. Além disso, muitosdos chefes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram os arquitetos doregime ditatorial. Ao mesmo tempo, o pessoal da esquerda espezinhava muito aparticipação do Brasil na guerra, fazia pouco caso, piadas e pilhérias com osbrasileiros. 

Em 2000, foi lançado o documentário Senta a Pua!, de Erik deCastro, que apresenta a saga do 1º Grupo de Aviação de Caça do Brasil, narrada por seus própriospilotos, e cujas ações contribuíram para a garantia da vitória aliada na Europa.Começava aí a recuperação da participação brasileira na II Guerra e o tratamento devido que ela merece. 

Com a aproximação dos 60 anos do Dia D, o famoso desembarquea 6 de junho de 1944 na Normandia, norte da França, e começo da retomada dasEuropa pelos aliados, houve uma mobilização para ir ao evento a ser realizadono local. “Eles aproveitam para pagar esse respeito em vida para todo mundo queparticipou daquilo e ainda está em pé”, conta Barone. Foi aí que ele começou apensar em levar o seu jipe militar para lá, sair das areias de Copacabana paraas praias da Normandia. Conseguiu apoios e patrocínios e montou uma equipe deguerrilha para registrar a viagem, com um foco de road movie, acompanhando o jipe. Faltava, porém, o personagem eentão Barone e seu irmão se recordaram de PiérreClosterman, o único brasileiro a participar do desembarque no Dia D. Filhode pais franceses, Closterman nasceu no Brasil, onde aprendeu a voar aos 16anos. Durante a guerra, decidiu a integrar asforças francesas livres que se refugiaram na Inglaterra, e, como pilotode caça durante a guerra, se tornou o francês com mais vitórias no ar. Oresultado é o documentário Um brasileirono Dia D, lançado diretamente em DVD, em 2006. 

“Ele é um personagem cativante, muito conhecido na França,escreveu O grande circo, sobre aexperiência na guerra, um livro considerado uma das grandes obras literáriaspela Academia de Letras Francesas. E fico muito honrado em ter mostrado ahistória dele dessa maneira e conseguido apresentar esse personagem tãoespecial para muita gente. O documentário teve uma repercussão muito boa, aponto de eu ter sido convidado para escrever o livro”, explica o baterista. 

Em Aminha Segunda Guerra (Panda Books), Barone explica a paixão peloassunto, e relata e aprofunda os bastidores da produção do documentário, asfilmagens. “É difícil sintetizar o Closterman”, fala Barone depois dehesitar um pouco. “É um cara que parece ter vivido mil vidas, pela experiênciaque teve na guerra. E foi realmente apaixonante, a vontade era de levá-lo paracasa, conversar mais com ele, do que foi aquela tarde que passamos juntos. Poucotempo depois, ele faleceu. A história dele é cativante.” A última vez queClosterman esteve no Brasil foi em 1950, e mesmo assim falava português muitobem, lembrava de passagens de poemas de Castro Alves. E se considerava maisbrasileiro que francês, “brasileiro de coração e francês de sangue”, recordaBarone. “Uma das coisas mais interessantes que ele escreveu, e sempre guardo, éque o Brasil entendeu o que significava participar da guerra. Não era aquelacoisa de lutar o bem contra o mal. O Brasil entendeu que a luta na SegundaGuerra era sobre a convivência humana, escolher a maneira certa da convivênciahumana, e foi esse o grande motivo para aquela mobilização toda contra algo tãohediondo como o nazismo, o fascismo italiano e o imperialismo japonês. Ficofeliz de ter consigo captar esse legado dele paras as gerações futuras.” 

Mas sua dedicação ao tema não acaba aio, pelo contrário. Onovo projeto, intitulado Bravos Brasileiros, pretende juntar tudo o que forpossível de material de referência sobre a participação do Brasil na II Guerrae formar um banco de dados. Projeto ambicioso, que vai levar muito tempo paraser realizado, acredita o músico. 

Nesse meio tempo, ele está fazendo outro documentário, quena verdade integra este projeto. Ocaminho dos heróis foi rodado na Itália. “Meu jipe saiu do Brasil para irpara lá, e percorreu a maior parte dos lugares onde o Brasil lutou. O foco émostrar como até hoje os brasileiros são lembrados como libertadores na Itálianos lugares onde expulsaram os alemães, em inúmeras localidades, pequenos lugarejos.Eles têm esse carinho e apreço da população local”, finaliza. Ainda semprevisão para ser finalizado, o novo documentário vai estrear nos cinemas.

> Confira o site oficial da banda

> Os Paralamas do Sucesso na Saraiva.com.br

A minha Segunda Guerra (Panda Books) na Saraiva.com.br


> Assista à entrevista exclusiva de João Barone ao SaraivaConteúdo

  

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