Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.01.2013 11.01.2013

João Antônio é pop nas canetas da periferia

Por Carolina Cunha
 
“Qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir”, risca no papel o escritor e jornalista João Antônio, que morreu em 1996, com apenas 59 anos. No rastro da sua vida, foi consagrado como mestre em falar da realidade das pessoas marginalizadas e dos subúrbios das grandes cidades.
Os personagens de João Antônio perambulam nas conduções cheias, salões de sinuca, rodas de samba dos engraxates e campos de futebol de várzea. Gente com dinheiro curto e vida suada, aparentemente sem grandeza, nas próprias palavras do escritor.
 
Se estivesse vivo, entre uma cerveja gelada e outra, certamente João Antônio seria padrinho de muitos escritores. Seu nome até pode ser desconhecido do grande público, mas é reverenciado por quem faz literatura e rap nas periferias.
“Gosto do clima da cidade que ele coloca, os personagens e a fala real que eles passam”, conta Ferréz, um dos grandes nomes da atual Literatura Marginal. Ele reconhece que João Antônio foi uma influência importante.“Tomo cuidado [com o modo] como faço meus textos. Assim como ele, tento deixar a história contundente e sem julgamento”.
 
Ferréz
 
Morador do Capão Redondo, um dos distritos mais violentos de São Paulo, Ferréz era um cara meio “nerd” que adorava quadrinhos e rap. E assim como o cronista, seu livro de estreia trazia uma escrita explosiva, que reproduz a linguagem e os conflitos das ruas.
 
O encontro com a obra do mestre veio por acaso. Em 2000, pouco antes de publicar Capão Pecado, seu primeiro romance, Ferréz foi visitar a editora para acertar os detalhes, quando alguém comentou que o texto lembrava outro escritor que também “falava do povo”.
 
Depois, Ferréz comprou Abraçado ao Meu Rancor, obra de João Antônio que teria um trecho citado na abertura do suplemento Literatura Marginal (2001) da revista Caros Amigos, organizado por ele. 
 
João Antônio, que cresceu num bairro operário de São Paulo e começou a trabalhar como office-boy, mudou sua sorte quando lançou, em 1963, o seu primeiro livro de contos, Malagueta, Perus e Bacanaço. Logo na estreia, a história de três jogadores de sinuca conquistou dois prêmios Jabuti.
 
Esse mesmo trabalho cairia nas mãos de Alessandro Buzo, que se surpreendeu com a inventividade de João Antônio. “Chama a atenção o jeito como fala da malandragem e do cotidiano”, diz o escritor. Depois, ficou sabendo que o amigo Ferréz citava o cronista como referência.
 
 Alessandro Buzo
 
“No início da carreira, eu escrevia contos inspirados em João Antônio, ou pelo menos tentei. Posso citar os publicados na coletânea Caros Amigos/Literatura Marginal Ato I e II, que são da época em que estava devorando sua obra”, revela Buzo.
 
Se não fosse pelos perrengues que passou no trem apinhado da CPTM de São Paulo, Buzo não teria virado escritor. A experiência inspirou seu primeiro livro, O Trem-Baseado em Fatos Reais (2000), que traz histórias reais da linha F.
 
O pagode improvisado, o vaivém dos camelôs, o jogo de truco e o encontro das turmas dão o clima de realidade que lembra alguns textos de João Antônio – o retrato fiel da vida nos subúrbios.
 
Há dez anos, dentro de outro trem, Sacolinha (Ademiro Alves) reparou nas letras miúdas da carteira de trabalho. Chamou sua atenção que o papel valia como documento. Ao descer, estava sem RG e foi parado pela polícia. Com isso, percebeu que a informação o livrara de um constrangimento. Quis ler o primeiro livro.
 
O Escritor Sacolinha
Não demorou muito para conhecer os escritores que mudariam a sua vida e começar ele mesmo a escrever. “Eu procurava os que falavam da periferia e dos seus personagens. Aí achei Plínio Marcos, Carolina de Jesus e o João Antônio”, conta o autor de 85 Letras e um Disparo.
João Antônio chama sua atenção pela técnica. “Não é porque você fala da periferia que tem que ser seco, direto e reto. É preciso poesia, essência e estética. Isso ele tinha de sobra”, diz o escritor Sacolinha.
 
Há quem venha a topar com João Antônio através da música, como o rapper Rodrigo Ogi. Em suas letras, palavras soltas descrevem a maior metrópole brasileira na gíria de pichadores, assaltantes e policiais.
O interesse pelo autor surgiu depois do elogio de um amigo. “Ele leu uns contos que falavam de São Paulo e disse que parecia com o que eu escrevia”, lembra Ogi, que hoje já leu quase tudo do escritor.
O rapper, que compartilha do mesmo entusiasmo de João Antônio pelo samba, acredita que sua obra continua atual. “Ele tem ritmo e sabe descrever detalhes. Ele fala da pobreza humana de uma maneira muito rica. O descaso com a população acontece até hoje”, diz Ogi.
 
O rapper Ogi
 
Para ler João Antônio:
 
A Cosac Naify acaba de lançar Contos Reunidos, obra que traz, pela primeira vez, todos os contos publicados de João Antônio. O leitor ainda pode se surpreender com um mimo extra, a reprodução do conteúdo de uma pequena caderneta de bolso que o escritor usava para anotar as gírias que recolhia nas ruas. 
 
Recomendamos para você

Os produtos Saraiva mais comentados