Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 25.01.2010 25.01.2010

Jimmy Corrigan, o menino mais triste do mundo

Por Bruno Dorigatti
Arte de Chris Ware 

A certa altura, o jovem James, com quase nove anos, vaticina em seu colchão, embaixo da mesa, enquanto seu pai faz sexo com uma mulher ao lado: “Por que me dei ao trabalho de viver?”. O trágico na vida dos Corrigan, porém, estava longe de acabar àquela altura. As situações trágicas, solitárias, covardes, tristes, tristes, tristes iriam chegar até a sua vida adulta e aos seus descendentes. Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo é a graphic novel de Chris Ware que traz a vidinha triste e dura da família, mas foca sobretudo no neto de James acima citado, adulto, e que vive no final do século XX. Lançada originalmente em 2000 nos Estados Unidos, ela saiu de forma seriada na revista que o então jovem quadrinista manteve entre 1995 e 2000, a Acme Novelty Library. Foi com a Acme que Ware se notabilizou no meio, sendo convidado por Art Spiegelman, autor de Maus (Companhia das Letras, 2005), para trabalhar na sua consagrada revista Raw

E foi com Jimmy Corrigan que ele revolucionou as histórias em quadrinhos, fazendo, para muitos, a coisa mais importante nessa forma de arte criada no século passado. Aprimorando e sofisticando o romance gráfico criado pelo mestre Will Eisner, Ware faz um belíssimo – e nada simples – trabalho gráfico, que mistura e homenageia o design e a publicidade do início do século XX. A narrativa, que pode se mostrar intrincada no começo da leitura, flui que é uma maravilha logo que se consegue penetrar no universo e nos códigos que o quadrinista se utiliza para narrar a história de três gerações dos Corrigan em Chicago, Estados Unidos, cheia de flashbacks que vão e vêm ao longo da árvore genealógica da família, focando sobretudo na história de seu avô ainda criança, quando vivenciou a Feira Mundial de Chicago, em 1893, e no tempo atual, com o solitário Jimmy, seu emprego ordinário, a mãe controladora de forma até obsessiva, e suas distrações, como registrar o som dos passarinhos em um gravador portátil para ouvir em casa. A narrativa mistura ainda sonhos, devaneios, e imaginações oníricas dos personagens. Muitas vezes, é preciso que estes sonhos, pesadelos e devaneios cessem para compreendermos do que se trata. Um caminho nada simples e fácil de atravessar, ao longo de suas 388 páginas, finalmente lançadas por aqui no final de 2009 pelo Quadrinhos da Cia., novo selo de HQs da Companhia das Letras. Mas que compensa, enche os olhos e pede por uma segunda leitura, muito mais proveitosa. 

O argumento poderia ser resumido brevemente assim: o solitário Jimmy, por volta dos 40 anos, recebe uma carta do pai que nunca viu convidando-o para conhecê-lo em uma cidade no interior do estado de Michigan. O encontro, como era de se esperar, surte um efeito contrário daquele velho clichê da aproximação entre entes próximos de sangue, e o resultado é constrangimento, equívocos e deslizes que tornam impossível uma aproximação terna e afetiva. Não há desejo e boa intenção que resolva a falta de sintonia, o deslocamento que essas relações errantes causaram ao longo dos anos. 

Jimmy Corrigan, o romance gráfico, é triste, mas cheio de ternura e raiva, desprezo e vigor gráfico. Fala de fracassos, de incompreensões, porém, tem seus momentos de sutileza, tolerância, beleza plástica e lirismo. Os sentimentos que saem das páginas estão longe de passar pela pena ou sentimento de comiseração mesquinha. A compaixão que nos invade não tem nada de superior, como se assistíssemos de fora. Na tragédia humana, estamos todos na primeira fila, e é difícil, para não dizer impossível, não se identificar com ao menos uma das situações pela qual passam os Corrigan. Demasiado humano, como diz o chavão. 

Chris Ware, por sinal, passou por algo semelhante enquanto desenvolvia sua história por volta dos 30 anos de idade. O pai que não conhecia o procurou, talvez motivado pela fama suscitada pela história com fortes tintas autobiográficas. O encontro foi um fracasso. Daí a ter definido ou redefinido a narrativa de Jimmy, é algo difícil de afirmar categoricamente. Como afirma Leon Tolstoi na frase que abre o clássico Anna Karenina: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. 

Premiada desde que foi publicado como romance gráfico, com o American Book Award e com o The Guardian Prize 2001, Jimmy Corrigan indiscutivelmente levou os quadrinhos para outro patamar, como já haviam feito antes Will Eisner, Robert Crumb e Art Spiegelman, cada um a sua maneira. E agora acessível em português. Resta torcer para que outras traduções pintem por aqui, com menos demora.

> Confira The Acme Novelty Archive, site não-oficial dos trabalhos de Chris Ware

> Chris Ware na Saraiva.com.br

> Assista à uma animação de Chris Ware, Quimby The Mouse

 

> Veja a capa e duas páginas de Jimmy Corrigan

 

 

 

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