Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 29.11.2012 29.11.2012

Jazz: uma arte em constante transformação

Por André Bernardo
 
Vários gêneros em um. É assim, em poucas palavras, que podemos descrever o jazz.
Considerada a mais famosa música instrumental do planeta, o jazz passou por uma infinidade de transformações desde que os primeiros acordes começaram a soar, há pouco mais de um século, às margens do Mississipi. De lá para cá, englobou os mais diferentes tipos de música: do blues ao pop, do rock ao mambo, da bossa-nova à rumba. Com isso, possibilitou milhões de combinações, como swing, be-bop, free jazz, fusion e cool jazz. “O que há em comum entre a improvisação coletiva dos pioneiros de Nova Orleans e o forró progressivo de Hermeto Pascoal?”, indaga o crítico musical Roberto Muggiati, autor de Jazz: Uma História em Quatro Tempos. “A chave da perenidade do jazz é a sua capacidade de tudo absorver, sem deixar de ser fiel à sua essência”, responde. Autor do livro Jazz – Das Raízes ao Pós-Bop, o jornalista Augusto Pellegrini concorda: “O jazz sempre se mostrou altamente mutável. É um estilo que permite tanta liberdade ao executante que, muitas vezes, o intérprete se funde com o compositor”.
Em pleno século XXI, o jazz continua vivo, firme e forte nas vozes marcantes de uma novíssima geração de jazzistas. Como a cantora e pianista canadense Diana Krall, que está lançando seu 11º álbum, Glad Rag Doll. Em seu novo trabalho, Diana recria 17 standards do jazz das décadas de 20 e 30, como We Just Couldn’t Say Goodbye, Prairie Lullaby e Lonely Avenue, entre outras. “Das novas divas do jazz, gosto muito da Diana Krall. Além de excelente cantora e pianista, demonstra extrema sensibilidade na interpretação de baladas e extenso conhecimento do piano de jazz, de Art Tatum a Bud Powell, de Nat King Cole a Oscar Peterson”, elogia Muggiati. “Como se não bastasse, ela ainda é dona de uma sensualidade incrível. Confiram o que estou dizendo na gravação de ‘Peel Me a Grape’”, sugere. Atualmente, Diana Krall disputa o coração dos “jazzófilos” com Jane Monheit e Norah Jones. Por mais bonitas e talentosas que sejam, no entanto, elas não superam as três maiores divas do jazz: Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan.
Reconhecida mundialmente como a maior cantora de jazz que já existiu, Billie Holiday só conseguiu fugir da prostituição porque, ainda adolescente, já cantava nos clubes noturnos de Nova Iorque. Ao lado de dois dos maiores representantes do gênero, Duke Ellington e Louis Armstrong, gravou “Symphony in Black” e “New Orleans” em 1935 e 1947, respectivamente. Paralelamente à brilhante carreira musical, levou uma conturbada vida pessoal. Dependente química, chegou a ser presa inúmeras vezes. Morreu em 1959, aos 44 anos. “Billie Holiday está acima de todas as outras. Foi e ainda é aquela que se entregou de corpo e alma à sua arte. Havia uma gota de sangue em cada canção de Billie Holiday. Raramente improvisava, mas enunciava cada palavra de uma maneira que só ela sabia fazer”, elogia Muggiati.
IMPROVISO MUSICAL
Se a cantora Billie Holiday é reconhecida como a maior diva de jazz que já existiu, o trompetista Louis Armstrong pode ser considerado o mais importante solista do gênero em todos os tempos. “Louis Armstrong é uma síntese do jazz, como Pablo Picasso foi da arte moderna e Charles Chaplin do cinema”, compara Muggiati. Conhecido do grande público graças à sua interpretação de “What a Wonderful World”, Armstrong inaugurou a era do solista. Explica-se. Nos primórdios do gênero, lá na Nova Orleans da virada do século, a característica primordial do jazz era a improvisação coletiva. E por um motivo simples. Como os músicos do delta do Mississipi não sabiam ler partitura, o jeito era tocar “de ouvido”. Com Armstrong, o jazz passou a ser a arte de um improvisador isolado. “Em minha opinião, corroborada por não menos do que Miles Davis e Wynton Marsalis, o grande nome do jazz de todos os tempos, aquele que influenciou todas as gerações de jazzistas, trompetistas ou não, foi Louis Armstrong. Não é à toa que ele é considerado o Bach, o Dante e o Shakespeare da música americana”, assegura Pellegrini.
Ao longo das décadas, o jazz deu origem a inúmeros subgêneros, como o swing, o be-bop e o free-jazz. O swing é o subgênero das big bands. Como as de Fletcher Henderson, Duke Ellington e Cab Calloway. “Com uma das maiores obras gravadas – mais de 3 mil composições –, Ellington extrapola os limites do jazz para penetrar no terreno da música erudita e da canção popular americana, onde se coloca à altura de gigantes como George Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin”, destaca Muggiati. Já o be-bop pode ser definido como o subgênero baseado no princípio da improvisação sobre um acorde em progressão, com tempos mais rápidos e frases melódicas mais complexas. Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Thelonius Monk são exemplos de autênticos boppers. O conceito de free-jazz, por sua vez, remete à obra de Ornette Coleman, um jovem saxofonista negro do Texas que abandonou as estruturas musicais mais rígidas do be-bop e levou a improvisação jazzística ao limite. “Jazz significa liberdade de criação artística. Por isso, é um gênero que está sempre se reinventando”, justifica o saxofonista Nivaldo Ornelas.
 
Gilson Peranzzetta
Dos muitos subgêneros do jazz, a cantora Ithamara Koorax elege o free-jazz e o fusion como os seus favoritos. “Gosto deles exatamente pelo que significam: liberdade e fusão. O jazz nunca foi puro. Já nasceu ‘misturado’”, justifica a cantora, contrariando os “jazzófilos” mais puristas que insistem em rotular o gênero como “arte pura” ou “música de elite”. De fato, o jazz, de puro, não tem nada. Nasceu da fusão cultural de diversos gêneros: do canto do escravo africano à louvação dos hinos religiosos. “Convencionou-se dizer que o jazz nasceu em Nova Orleans. A verdade é que a semente dele já estava espalhada por outros lugares à beira do Mississipi, como o Missouri e a Carolina do Sul. Foi Nova Orleans, no entanto, que sedimentou o estilo e congregou o maior número de músicos qualificados para interpretá-lo”, observa Pellegrini. Já o fusion a que Ithamara Koorax se refere surgiu só nos anos 70 e se caracteriza, como o nome já diz, pela fusão do jazz com outros estilos, como o rock, a rumba e o mambo. Seu principal nome? Miles Davis. “Ele fez do jazz uma revolução permanente”, sintetiza Muggiati.
JAZZISTAS BRASILEIROS
Não demorou muito para o jazz desembarcar no Brasil. Por aqui, o gênero despertou a paixão de músicos como Leo Gandelman, Gilson Peranzzetta e Nivaldo Ornelas. “Quando comecei a tocar, Márcio Montarroyos e César Camargo Mariano me fizeram acreditar na possibilidade de uma carreira de instrumentista solo no Brasil”, relembra Leo Gandelman. Com passagem por alguns dos mais importantes festivais do planeta, como o Festival de Jazz de Havana, em Cuba; o Moscou City Jazz Festival, na Rússia; e o Free Jazz Festival, no Brasil, onde dividiu o palco com Chick Corea e Michael Brecker. Leo já vendeu cerca de 500 mil cópias em 25 anos de carreira fonográfica. “Para mim, jazz significa todo e qualquer estilo musical que se utilize do improviso. Por isso, costumo dizer que no choro, no frevo e na música instrumental brasileira tem jazz”, teoriza o compositor, arranjador e produtor musical que está lançando o CD Vip Vop, o primeiro inédito desd2004. No repertório, composições suas como “Sinal Vermelho”, “Luz Azul” e “Numa Boa”, entre outras.
Dos saxofonistas brasileiros, Nivaldo Ornelas foi um dos que mais influenciaram Leo Gandelman no início de carreira. Com 70 anos recém-completados, esse mineiro de Belo Horizonte já fez parte do grupo Som Imaginário – que reunia, entre outros, Wagner Tiso, Robertinho Silva e Zé Rodrix – e tocou ao lado de grandes nomes da MPB, como Milton Nascimento e Gal Costa. “O Brasil é um dos poucos países que tem música própria. Aqui, o jazz se funde com a MPB. Sendo assim, o mercado é, na verdade, muito maior do que parece”, analisa Nivaldo, que está lançando o CD Jazz Mineiro Orquestra. “Na Europa e no Japão, por exemplo, só se faz jazz ‘Made in USA’. Aqui, temos uma riqueza imensa de ritmos e melodias. Não precisamos copiar ninguém. Temos a nossa própria identidade jazzística”, orgulha-se. Mas, afinal, será que jazzistas brasileiros, como Leo Gandelman, Nivaldo Ornelas e Gilson Peranzzetta, são mais reconhecidos lá fora do que no seu próprio país?
 
Leo Gandelman
Segundo Gilson, que já teve música gravada por artistas internacionais como George Benson, Sarah Vaughan e Diane Schuur, o público brasileiro já aprendeu a gostar de jazz. “O jazz não é um gênero que atinja o grande público, mas é um estilo muito apreciado por pessoas que gostam de uma música mais refinada”, afirma o pianista e arranjador carioca que já foi apontado pelo maestro e produtor musical Quincy Jones como um dos melhores do mundo. “Pessoalmente, não tenho do que reclamar. No momento, estou em turnê pela Europa, mas tenho um ótimo público tanto no Brasil quanto no exterior. Só este ano, já fiz shows do Amazonas ao Rio Grande do Sul”, orgulha-se Gilson, que lançou, só em 2010, dois novos álbuns: Melodia Sentimental e Linha de Passe.
 
 
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