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“Jards é um ensaio-poema-musical”, diz o diretor Eryk Rocha

Por Maria Fernanda Moraes
 
Jards Macalé, o artista retratado no filme Jards, do diretor Eryk Rocha, é exatamente como aparece na tela e, ao mesmo tempo, muito mais.
 
O que à primeira vista parece delinear um homem de raras palavras, aos poucos revela um Jards franco, solícito e gentil, retrato genuíno de um artista.
 
Sem se prender ao formato tradicional dos documentários musicais, em voga atualmente no país, o diretor prefere chamar o filme de “um ensaio-poema-musical”.
 
A estreia aconteceu na semana passada (01/10/12), no Festival de Cinema do Rio, e contou com a presença ilustre do homenageado. O trabalho é um dos concorrentes da mostra competitiva Première Brasil.
 
Sem reservas, Jards conversou com o SaraivaConteúdo sobre a estreia e o resultado do longa. Dividindo-se entre a entrevista e a resolução de questões domésticas, o artista mostrou a mesma singeleza retratada nas telas e não se fez de rogado.
 
“Fui até o cinema, me sentei na última fila, na última cadeira, embaixo do projetor, e fiquei lá me deliciando. O resultado final é o talento do Eryk [diretor]. Para mim foi uma surpresa, foi uma boa surpresa! A imagem é ótima, o som ficou maravilhoso”, contou Jards em entrevista ao SaraivaConteúdo.
 
Depois de acompanhar Jards por quatro semanas durante a gravação do novo disco do cantor, a aproximação entre diretor e artista deu o tom do filme. “É a materialização do nosso encontro, da nossa amizade. O filme é o entrelaçamento entre a vida e a obra dele. Em um artista tão potente e autêntico quanto Jards, a vida e obra são a mesma coisa, inseparáveis. Não há um limite claro. Elas coexistem”, contou o diretor.
 
Os dois já se conheciam, já que Jards era amigo do pai de Eryk, Glauber Rocha, mas a intimidade veio com as filmagens. “A gente teve uma aproximação, confiança e diálogo muito fortes. Nós viramos amigos, passamos a andar juntos pela cidade, conviver juntos, compartilhar momentos. E, às vezes, a câmera estava ali, presente também, registrando. Foi um encontro muito orgânico. Foi uma filmagem muito minimalista, intimista. Várias coisas eu filmei sozinho, porque estávamos só eu e ele”, relatou Eryk.
 
Nas filmagens em estúdio, a equipe de cinema era pequena, formada por cinco pessoas, o que fazia com que o grupo se confundisse com os próprios músicos, segundo o diretor. “É uma cine-dança. As coisas se confundiam naquele palco que é o estúdio – que é o principal palco do filme. A câmera acabava parecendo quase um instrumento musical, uma coisa orgânica, uma confluência de forças”, resumiu Eryk.
 
Jards é o quinto longa na carreira de Eryk Rocha. Curiosamente, seu filme anterior, Transeunte, é também muito influenciado pela música, com poucos diálogos e a canção como fio condutor. Em Jards, ele aprofunda essa ideia. “A música e o som têm um papel narrativo, sensorial, poético, essencial na construção da linguagem dos filmes. E Jards veio explicitar isso que já aparecia em todos os meus outros filmes. Ele materializa isso de forma mais direta. Jards é esse encontro entre documentário, musical, ficção e realidade, num cenário onde são inseparáveis”, disse o diretor.
 
FACETAS DO ARTISTA
 
O longa mostra todo o percurso da criação de uma obra musical, com foco no processo e não no produto final, na música acabada. O diretor o define como um ensaio audiovisceral. “O processo inclui improvisação, repetição, exaustão, rumores, invenção, descoberta. Esse era o meu interesse. É um filme que fala de processo de criação e como ele funciona dentro do estúdio. Preparando, afinando instrumento, improvisando”.
 
Cena do filme
 
Também não há depoimentos, porque não é um filme saudosista nem historicista, de acordo com o diretor, e a ideia é trazer para o agora a criação desse artista.
 
“O filme é um fluxo, uma viagem, que permeia entre o cotidiano e o onírico. Conta do cotidiano, em que a simplicidade de um homem coincide com esse onírico, através do corpo dele. E como isso pode iluminar e inspirar também a minha geração e o nosso lugar agora”, resumiu Eryk.
 
Além do estúdio, as filmagens também acompanharam o caminho de volta para casa que Jards fez após cada ensaio e gravação. Além do lado artístico, Eryk consegue expor também as  diversas facetas humanas do artista de modo espontâneo. “Estúdio é estúdio e vida é vida, mas as coisas entram no mesmo convívio. As minhas idas para casa eram o lado humano que foi registrado, e eu nem senti a presença da câmera”, contou Jards.
 
“Também explorei esse lado desse homem/artista em momentos de solidão e introspecção. Porque esse é um estado humano onde o êxtase coexiste com a solidão, onde a criação coexiste com a introspecção. Interessou-me falar desses fluxos onde essas forças habitam e coexistem, não são contraditórias. Esse trânsito é o foco do filme. É o transito da solidão ao êxtase e o modo como ele flui”.
 
Sem um roteiro pré-determinado, Eryk também contou ao SaraivaConteúdo que as filmagens fluíram naturalmente e o longa funcionou como um jazz, com uma parte melódica e uma parte de improviso. “A gente foi improvisando, inventando a cada dia. E descobrindo o filme. Eu não estava olhando de fora, como um voyerista, estava tentando atravessar o corpo dele mesmo. Tudo é filmado através do corpo dele, das sensações dele, da relação dele com os músicos, da sensibilidade, da pele dele. É muito mais um filme através do corpo dele, do que um filme sobre ele”. 
 
PÚBLICO É PÚBLICO
 
O disco que motiva as filmagens é o novo trabalho de Jards, que conta com participações especiais como Luiz Melodia, Elton Medeiros, Frejat, Adriana Calcanhotto e Thaís Gulin. Além desse novo projeto, foi relançado recentemente o vinil do seu álbum de estreia, Jards Macalé, de 1972. Todos esses lançamentos possibilitam que o público mais jovem conheça esse grande artista, que está por trás de discos importantes da MPB como o Transa, de Caetano Veloso, e Fa-tal – Gal a Todo Vapor, de Gal Costa.
 
“Nos shows de hoje em dia, há alguns fãs reincidentes da minha época, mas as pessoas vão tomando outros rumos. E essa nova geração vem com os ouvidos virgens. É muito bom! Mas público é público, fã é fã, gente é gente. Juntando tudo isso, dá esse público que vem me ver”, simplificou Jards.
 
Assumindo o lado fã, Eryk ainda contou que, além de todos os atributos mostrados no filme, Jards é um dos artistas mais lúcidos que conhece, é um grande escutador do nosso tempo. “Isso é o que me impressiona nele: a lucidez, o poder de escuta, a sensibilidade, a abertura de espírito para dialogar com diferentes estilos e vertentes musicais. Jards é um artista de uma integridade, de uma verdade, de uma coragem e de potência, que é também um risco. Frequentemente está jogando com o imponderável da vida e da criação. E no filme, eu tentei traduzir essa grandiosidade de espírito”, declarou-se.
 
O longa entra em circuito nacional a partir de março do ano que vem, data em que Jards completa 70 anos. Além do filme, o novo disco também será lançado em comemoração ao aniversário, que, para ele, não parece ter essa pompa e circunstância toda. “Que nada! Não vou comemorar nada não… a vida continua. Para mim, não tem data especial. Já ultrapassei a barreira do tempo e do som”.
 
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