Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 31.05.2013 31.05.2013

Ivan Martins lança livro de crônicas e planeja novos passos na literatura

Por Vilma Balint
O lançamento do livro Alguém Especial – Crônicas de Amor, Sexo & Outras Fatalidades, realizado em abril pela editora Benvirá, deu a Ivan Martins um reconhecimento até então inédito em mais de 30 anos como jornalista.
O tom pessoal dado aos textos motivou uma grande proximidade com os leitores, e esse retorno já leva o profissional a pensar em outros passos na literatura, como um livro de ficção baseado no exercício de “história alternativa”. “Seria um enredo no qual não houvesse o golpe de 1964 no Brasil, com o título ´1969’. Seria uma boa chance de juntar o romance à discussão política”, afirma.
Enquanto isto, Martins segue com as atualizações semanais de sua coluna no portal da revista Época, da qual é editor-executivo.
Em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, Martins abordou assuntos como a definição de temas para suas colunas, a mudança de comportamento do homem atual e a interferência das mídias digitais nos relacionamentos humanos.
Há alguma literatura específica que você utilize para escrever suas colunas?
Ivan Martins. Não. Eu devoro qualquer coisa. Ilumina mais ler um livro qualquer do que algo especificamente sobre relacionamentos, psicologia… Um bom romance te faz pensar muito mais a respeito dessas questões do que um livro científico sobre esse assunto. As fontes estão por aí, e eu vou pegando. Também aproveito a convivência com meus colegas para colher pautas. Além disso, o ambiente de redação permite a convivência com uma geração mais nova, que está reciclando as percepções a respeito de relacionamentos.
 
Já surgiram assuntos para a coluna a partir das redes sociais?
Ivan Martins. Sim, e essa é uma experiência recente. Quando me sinto mais seguro sobre o que eu quero falar, também fico mais seguro para aceitar recomendações. Há alguns dias, me contaram uma história que deu base à coluna de 1º de maio, sobre um encontro com um rapaz que uma amiga havia conhecido pela internet. Pessoalmente, ele era muito pior do que nas fotos online, e ela não conseguia mais olhar para a cara dele. Fiquei pensando em como ficam os olhos e o coração. A beleza só vai até a página dois e não é essencial nas relações. Mas, por outro lado, as pessoas “compram” pela capa. E eu imaginei que esse seria um bom tema, sobretudo agora. É um contato que começa no anonimato e que pode estar cheio de falsidades, invencionices.
 
Como é a reação masculina aos textos?
Ivan Martins. Durante muito tempo, a coluna foi lida e comentada por mulheres. Ao longo destes anos, chegaram uns tipos de caras que até discordam de algumas opiniões, mas descobrem um ponto inicial para uma conversa. Tem muita gente nova sem a formação machista tradicional e, para esse tipo de homem, é natural falar sobre dividir as coisas em casa, que a mulher tem que ser respeitada, que falar da bunda da mulher na rua é constrangedor e ela não gosta desse tipo de coisa. Para esse cara, o que eu escrevo não é ofensivo, já que ele acha natural.
Você acredita que a proliferação das mídias digitais ajudou a fortalecer essa geração de homens que não precisa se enquadrar em estereótipos machistas?
Ivan Martins. Muito além dos discursos, aumentou o espaço para o homem ter percepções que, no passado, seriam consideradas mais femininas. Logo no início da coluna, escrevi sobre o Homem Novo, meu amigo, que ajuda em casa, cuida dos filhos, sai para a balada com a mulher, é romântico, e é um novo perfil. Os homens da minha geração, na faixa dos 50 anos, não eram bem assim. Fizemos uma entrevista recente na Época com a estudiosa Stephanie Coontz, e ela abordou o fato de o feminismo ter sido libertador também para os homens, por permitir que eles saíssem de uma armadura social opressiva e estereotipada. O feminismo abriu espaço para que os homens reocupem um espaço feminino que está sendo deixado de lado e permite aos homens fazerem uma revolução emocional com eles mesmos. E eu acho isso uma belíssima definição.
Muitos livros de autoajuda fazem sucesso ensinando regras que algumas mulheres não se sentem confortáveis para cumprir, como a de que é necessário “fazer doce” na hora da conquista, com coisas que vão na contramão de uma coluna que você escreveu antes, “Amor bom é facinho”. O que você acha desse tipo de dica e dessa “literatura”?
Ivan Martins. É preciso pontuar que, se existe uma cultura feminina afirmando que a mulher precisa ser muito difícil, talvez funcione. É a mesma cultura masculina que diz que você precisa tratar as mulheres com certo desprezo e que ouvimos no vestiário da escola desde os 7 anos de idade. Precisamos acreditar nisso? A minha resposta pessoal é não. Desenvolva o seu próprio jeito de lidar com as pessoas de quem você gosta. Eu não acredito em manipulação e creio que os manipuladores ficam inseguros, sem saber por que ganharam. As pessoas que estão naturalmente em nossas vidas podem até ir embora e nos arrebentar com isso. Mas elas estão ao nosso lado porque gostam do jeito, do cheiro… Para mim, essa é a melhor segurança que pode existir. As relações sempre podem se deteriorar, mudar, tudo pode acontecer. Mas o grau de segurança mínimo é que a pessoa está comigo porque gosta de mim e me aceita como eu sou. Eu não compraria esse tipo de autoajuda. Mas faço uma ressalva: se todo mundo faz esse tipo de coisa, talvez funcione.
 
 
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