Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.02.2012 27.02.2012

Isabel Minhós e Madalena Matoso: uma parceria na realização de livros infantis

Por Luma Pereira
Ilustração Quando, de Isabel e Madalena
 
Elas trabalham uma de frente para a outra, numa sala ensolarada voltada ao Sul, em Portugal.
 
Isabel Minhós e Madalena Matoso, escritora e ilustradora, se conhecem há mais de 20 anos. Enquanto uma tem o dom da palavra, à outra cabe o do desenho.
 
“Não sei se existe isso da ‘melhor amiga’, mas, se existir, acho que a Madalena é a minha melhor amiga (como dizíamos na escola). Já nos conhecemos como a palma da mão”, afirma Isabel.
 
“As nossas mesas são um pouco desarrumadas: há sempre livros, catálogos, envelopes que chegam pelo correio…”, descreve a escritora. Ela e Madalena ficam separadas por uma tela de computador e conversam o tempo todo sem se verem.
 
“Não a vejo, mas ouço-a a bater furiosamente (ou, antes, determinadamente) nas teclas do seu teclado”, comenta a ilustradora.
 
Quando trabalha com colagens, vai ao sótão, onde encontra suas tintas, colas, papéis e tesouras.
 
Há no ateliê uma janela que dá para uma pracinha. “Vejo um poste de eletricidade que tem uma teia caótica de fios à volta. Às vezes um pássaro pousa no poste e fica ali um bocadinho. Está tudo muito parado”, descreve Madalena.
 
Recentemente, lançaram pela Tordesilhinhas Uma Mesa é uma Mesa. Será?, feito em parceria.
 
O livro fala sobre como é possível que um mesmo objeto seja visto de várias maneiras diferentes por cada pessoa que o observa.
 
 
 
 
 
 
Isabel Minhós (a esq.) e Madalena Matoso
 
“Acompanhei o trabalho da Madalena à medida que as ilustrações iam aparecendo. Fazemos sempre muitos ajustes, tanto no texto como nas imagens, para que o casamento entre as duas linguagens resulte harmonioso e nunca redundante”, conta.
 
Inspiração de todo jeito
 
Ambas concordam que a inspiração vem de toda parte – dos filmes, livros, músicas, viagens e também no que vivenciam –, então é preciso estar sempre bastante atento.
 
“Não vivo à espera de ter uma ideia, mas estou pronta, quando uma ideia se atravessa no meu caminho ou me cerca (tipo nevoeiro), para agarrá-la e esmiuçá-la”, diz Isabel. E completa: “inspiro-me não só nos meus filhos, mas em todas as crianças, em todos os adultos, em tudo o que vejo, ouço, cheiro…”.
 
Certa vez, no caminho do ateliê, Madalena viu um rapaz andando em duas bicicletas – uma ele conduzia e a outra levava pela mão.
 
Em seguida, avistou um senhor que levava pela coleira três cães iguais com camisolas de xadrez idênticas.
 

Para ela, tudo isso a inspira: essas imagens, reais e da imaginação. “Na rua há muitas personagens que estão ali, à espera de entrar para um livro”, garante.

 
Quando vai ilustrar um texto, primeiro lê a história sem pensar muito. Depois, relê a narrativa muitas vezes e começa a fazer esboços simples, em que tenta perceber as ideias para as imagens e a sequência das páginas.
 
“Há livros em que todo o processo é muito rápido e outros em que é tudo muito difícil. Há livros em que vou avançando, sem estar muito certa de estar no caminho certo e, de repente, surge uma ideia que me faz começar tudo de novo”, conta ela.
 
Para criar suas histórias, Isabel tem sempre um ponto de partida forte. No caso de Uma Mesa é uma Mesa. Será?, seu interesse era colocar diferentes pessoas olhando um mesmo objeto. A ideia surgiu quando ela percebeu que o que vemos depende do que nossa cabeça tem lá dentro.
 
“Foi uma mesa, mas podia ser outra coisa qualquer. Não há propriamente uma história, um enredo, é mais um passeio que começa com um diálogo entre a protagonista e o avô, e que termina ao final do dia, depois desta viagem chegar ao fim”, diz a escritora.
 
E completa: “tento que os livros que faço tenham a ver com o mundo de hoje, com aquilo que vivem as crianças e os adultos de hoje”.
 
Primeiras linhas, primeiros traços
 
Isabel começou a escrever para crianças logo que terminou a faculdade. Fazia informativos para alunos e professores, conteúdo para revistas infantis, textos para jogos e histórias em quadrinhos.
 
“Pesquisava bastante, mergulhava num tema e tentava aprender o mais possível sobre ele. Depois retirava o sumo e tentava explicar as coisas de uma forma simples, mas rigorosa”, diz. Em 2004, lançou, pela editora Planeta Tangerina, seu primeiro livro infantil.
 
Madalena começou a desenhar quando era pequena, às vezes sobre histórias que tinham lido para ela, em outras sobre coisas que tinha feito. “A primeira vez que me pagaram para fazer uma ilustração foi quando tinha 18 ou 19 anos”, conta ela.
 
E completa: “eu gosto muito de palavras, de histórias e de desenhar. Também gosto de trabalhar sequências de imagens. Gosto de transformar uma ideia complicada numa imagem simples. Gosto de coisas que parecem simples, mas que têm lá dentro alguma complexidade”.
No tempo livre, Isabel costuma sair com os amigos e com os filhos, ir ao cinema, cozinhar. E Madalena gosta de andar a pé ou de carro, ouvir música, ler, nadar. “Também tenho um jardinzinho com uma horta”, conta ela.
 
Estão trabalhando em outro projeto juntas: o do livro Nunca Vi uma Bicicleta e os Patos Não me Largam. “O texto está escrito e é muito curto, saiu-me quase de rajada, e a Madalena está a ilustrá-lo neste momento”, diz Isabel.
A obra foi inspirada nas conversas que ela teve com uma amiga sobre seu filho de quatro anos.
 
Na escola onde ele estudou, a grande preocupação dos educadores era a escolarização das crianças, não tendo tanto espaço para recreio ou ginástica.
 
O menino só ficava resolvendo problemas de matemática com subtração, adição, multiplicação e divisão de patos.
 
Foi então que Isabel se perguntou se essas crianças já tinham sequer visto um pato de verdade. E foi aí que teve a ideia desse livro.
 
Isabel e Madalena, escritora e ilustradora, têm uma parceria muito rica: uma vai em palavras e a outra em desenhos. Quando se encontram, surgem seus livros infantis.
 
 
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