Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.05.2014 19.05.2014

Intuição e ficção andam lado a lado na obra de Lya Luft

Por Maria Fernanda Moraes
 
Foi com Perdas e Ganhos (ed. Record), publicado em 2003, que Lya Luft chamou a atenção para um gênero até então pouco explorado no país, o ensaio pessoal ou ensaio não acadêmico, como ela prefere chamar. O livro vendeu mais de 1 milhão de cópias e concretizou o que ela mais queria com sua escrita confessional: estreitar os laços com seus leitores.
 
Agora, em 2014, a autora gaúcha está lançando seu novo livro, O Tempo É Um Rio Que Corre (ed. Record), que ela chama de irmão mais novo de Perdas e Ganhos e, também, de O Rio do Meio, livro lançado em 1996.
 
“Eu gosto muito do ensaio não acadêmico porque é uma outra maneira de criar em cima dos meus temas, que são os mesmos: o drama existencial humano, a vida e a morte, encontros e desencontros, a firmação da vida e das pessoas. Esse livro novo tem um tom mais confessional, conto muita coisa da minha infância, minha visão das fases da vida. Ele é bastante autobiográfico, mas não só isso. Conto histórias e faço reflexões sobre esse assunto que nós tanto tememos que é a passagem do tempo”.
 
Além do livro novo, 2014 é também um ano de comemorações. Antes de encontrar sua voz autoral na ficção e nos ensaios, Lya escreveu poesias e crônicas enquanto trabalhava como tradutora e professora de Linguística. Seu primeiro livro, Canções de Limiar,  foi publicado em 1964 e reunia poesias escritas na época. Portanto, a autora comemora em 2014 50 anos da sua primeira publicação.
 
Para celebrar a data, Lya fez o que mais gosta: relembrou histórias e relacionou alguns fatos biográficos à sua obra no decorrer dessas cinco décadas como escritora. Confira:

DÉCADAS DE 60 E 70:

1964 – Canções de Limiar
“Eu tinha escrito uma série de poemas e houve um prêmio do Instituto Estadual do Livro, aqui do Rio Grande do Sul, e uma amiga me convenceu a participar.  Acabei ganhando o primeiro prêmio. Isso deve ter sido em 1962, 1963. Então, em 1964 o Instituto do Livro o publicou. Foi meu primeiro livro”
 
1972 – Flauta Doce
1978Matéria do Cotidiano
“Depois de uns anos de Canções de Limiar eu publiquei meu segundo livro, que é o Flauta Doce, por uma editora chamada Sulina. Eu já fazia crônicas no jornal e em 1978 reuni essas crônicas no livro Matéria do Cotidiano. Esses três primeiros livros foram publicações bem regionais, em pequenas editoras locais. Eu nem me considerava escritora naquela época. Eu era uma tradutora, depois comecei a lecionar na faculdade e por acaso tinha esses três livrinhos, mas era uma coisa muito localizada”.
 
O primeiro livro da autora foi publicado em 1964 e reunia poesias
 
 
DÉCADA DE 80:
1980As Parceiras / 1981A Asa Esquerda do Anjo / 1982Reunião de Família / 1984O Quarto Fechado / 1984Mulher no Palco / 1987Exílio / 1989O Lado Fatal
 
“A poesia e a crônica sempre foram concomitantes na minha vida, assim como faço até hoje. A única novidade foi na década de 80, quando eu comecei a publicar ficção. Desde menina eu tinha vontade de escrever histórias. Mas acho que eu era muito tímida intelectualmente. Você pode perceber que meus livros são pequenos, são breves, no máximo com 180 páginas. E eu tinha aquele preconceito de que o romance tinha que ser maior, bobagem minha.
 
Foi só na virada dos quarenta anos que eu resolvi, disse a mim mesma: ‘agora vou escrever um romance e seja o que deus quiser’. E aí eu escrevi As Parceiras e mandei pra uma grande editora, a Nova Fronteira, para quem eu já fazia trabalhos de tradução. Eles gostaram, publicaram e disseram: ‘olha, a gente vai publicar tudo o que você escrever’.
 
E aí, de repente, eu era uma escritora com um livro publicado que fazia muito sucesso, recebeu boas críticas. Então, aos 40 eu descobri que nasci para fazer isso e não parei mais. A década de 80 foi a década do romance.
 
Eu morei no Rio em 1986, 1987 e uma parte de 1988, que foi a época em que me casei com o psicanalista Hélio Peregrino. Me separei do pai dos meus filhos, o linguista Celso Pedro Luft, em Porto Alegre, me mudei para o Rio e fiquei casada com o Hélio por dois anos e meio, até o falecimento dele.
 
Depois voltei à Porto Alegre, retomei o casamento com o pai dos meus filhos e, também, minha vida em Porto Alegre. Alguém já disse que o meu romance Exílio tinha esse nome porque eu me sentia exilada no Rio, mas na verdade não foi. O romance se chamava, em princípio, A casa vermelha.
 
Quando o terminei, dei os originais para o meu então marido ler, o Helio, e ele disse: ‘esse livro fala do exílio que é a vida do ser humano nessa terra. Então eu coloquei esse nome. Mas não tem nada a ver com o que as pessoas fantasiaram”.
 
DÉCADA DE 90:
1994 A Sentinela / 1996O Rio do Meio / 1997Secreta Mirada / 1999O Ponto Cego
 
“Quando o Hélio morreu, em 1988, eu fiquei muito tempo sem escrever, só traduzia. Só em 1994, depois de seis anos, eu voltei a fazer crônicas e publiquei um livro chamado A Sentinela. Acho que esse livro foi uma virada na minha carreira, porque pela primeira vez um personagem meu não é só perseguido por fatalidades como nos outros romances, mas de certa forma, ele consegue dar a volta por cima na vida”.
 
ANOS 2000:
2000Histórias do Tempo / 2000Mar de Dentro / 2003Perdas e Ganhos / 2004Pensar é Transgredir  / 2004Histórias de Bruxa Boa (estreia na literatura infantil) / 2007A volta da Bruxa Boa / 2005Para Não Dizer Adeus / 2006Em Outras Palavras / 2008O Silêncio Dos Amantes  / 2010Múltipla Escolha / 2011A Riqueza do Mundo / 2012O Tigre na Sombra / 2014O Tempo É um Rio Que Corre
 
“No início dos anos 2000 eu fui pra editora Record e o livro que eu tinha inédito, que havia acabado de escrever era o Perdas e Ganhos, e eu não sabia nem muito bem o que ele era ainda. Só sabia que era um irmão de O Rio do Meio, um ensaio não acadêmico, em que eu tenho uma conversa mais direta com o leitor sobre aqueles meus velhos temas de sempre. E decidi falar de uma maneira direta, conversar com meu leitor de novo.
 
Ele foi um livro que ninguém acreditou muito no começo, foi publicada uma tiragem baixa e, surpreendentemente, o livro vendeu 1 milhão de exemplares, foi uma loucura. Era uma coisa que ninguém esperava e muito menos eu.
 
Em meados dos anos 2000 também surgiram meus livros infantis. Eu comecei a contar essas histórias que estão no livro para uma de minhas netas que tinha três anos e pouco quando minha filha estava esperando as gêmeas. Depois que elas nasceram fiz mais umas historinhas. Então é um dos poucos livros meus que são mais circunstanciais.
 
No Rio Grande do Sul os livros foram transformados em peças infantis e eu via que os pais se divertiam tanto quanto as crianças. No fundo também são maneiras de falar sobre a vida, sobre a família, que é um dos meus assuntos prediletos, mas de uma maneira divertida.
 
Nos anos 2000, além dos ensaios, Lya se aventurou também pela Literatura Infantil
 
Eu acho que nos livros infantis, diferente dos romances, eu mostro meu lado gaiato, meu lado alegre, divertido. Eu não sou uma pessoa parecida com os meus personagens dos romances. Eles são em geral muito neuróticos, tristes, sofridos, e eu sou mais aquela voz dos livros infantis.
 
Depois desses anos de carreira e de vida, posso dizer que não sou uma pessoa cerebral, intelectual, sou muito intuitiva. Eu não gosto dessa coisa intelectual, acadêmica, mais seca. Ensino, pesquisa… isso não é o meu forte. Mas eu descobri que o que parecia ser a minha fraqueza, podia ser a minha força.
 
Comecei a trabalhar com a intuição, com a pura criatividade, mais liberdade. Foi quando eu comecei a fazer ficção, foi uma grande mudança na minha vida. Obedecer a minha voz interior, escutar as histórias. Essa mudança foi uma libertação: eu liberei minha imaginação, a minha intuição”. 
 
 
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